MULHERES
25/02/2020 07:25 -03 | Atualizado 25/02/2020 07:25 -03

Carnaval serve para dizer o que queremos com nossos corpos, diz criadora do ‘Mulheres Rodadas’

Renata Rodrigues fala sobre criação de um dos principais blocos feministas do Rio, que repetirá performance chilena "Um estuprador em seu caminho".

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Em 5 de janeiro, o grupo "Mulheres Rodadas" reproduziu a performance feminista "Um estuprador em seu caminho", que se tornou viral em 2019.

“A mulher sempre esteve no centro do Carnaval. Mas que centro era esse?”, questiona Renata Rodrigues, criadora do bloco feminista “Mulheres Rodadas”. Ela mesma traz a resposta: a mulher “estava ali para ser vista, para ter o seu corpo consumido, objetificado, sexualizado”.

Mas os tempos estão mudando. “Hoje a folia também serve para dizer o que queremos com os nossos corpos ou não. Para sermos sujeito”, diz Renata.

Para marcar este posicionamento, neste ano, o bloco feminista reproduzirá na próxima quarta-feira (26), a performance Um estuprador em seu caminho, que circulou pelo mundo em 2019 e foi criada pelo Lastesis, coletivo feminista chileno. Nela, mulheres de olhos vendados cantam em uníssono: “a culpa não era minha, nem onde estava, nem o que vestia. O estuprador é você”.

“Acho que isso diz muito sobre o que acontece com as mulheres no Carnaval. A gente avançou muito no debate sobre o assédio sexual, mas ainda há muita confusão. Muita gente pensa: ‘ah, está no Carnaval, está na rua, então não tem direito de reclamar se for assediada’”, diz Rodrigues. 

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Mulheres, em performance, cantam e dançam: "a culpa não era minha, nem onde estava, nem o que vestia. O estuprador é você". 

Este é o segundo ano em que uma investida sem consentimento durante a folia é classificada não só como assédio, mas como importunação sexual, prática tipificada como crime desde 2019. As penas para este tipo de contravenção são de 1 a 5 anos de prisão para o agressor. 

Com a intenção não só de divulgar a lei, mas de pressionar o poder público, o “Mulheres Rodadas”, em parceria com a Defensoria Pública no Rio de Janeiro, participará de uma Comissão de Mulheres contra a Violência no Carnaval, chamada de “Atenta e Forte”.

Em 2019, o bloco criou a cartilha “Folia sim, assédio, não”, também em parceria com a Defensoria. A cartilha segue circulando na folia neste ano. “O risco de sofrer assédio, violência sexual, e a própria maneira como o corpo da mulher ocupa esse espaço público durante o Carnaval ainda precisa ser discutido. A gente quer marcar essas questões”, afirma Renata.

O bloco, que existe desde 2015, nasceu justamente de uma discussão que tomou as redes sociais. À época, uma montagem publicada por uma página antifeminista, em que um rapaz segura um cartaz com a frase “não mereço mulher rodada”, se tornou viral. Memes de personagens girando, como a princesa Elsa, de Frozen, circularam pela internet, para questionar o rótulo que é utilizado para definir pejorativamente mulheres que têm vida sexual ativa.

“O ‘Mulheres Rodadas’ tem essa característica: a ideia veio primeiro que o bloco, e ele nasce como se fosse um statement. Ele é, antes de mais nada, um grito de libertação, pela liberdade das mulheres”, explica a criadora do cortejo.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: O bloco surgiu em 2014, após um episódio de machismo repercutir nas redes sociais envolvendo o termo “mulheres rodadas”. Como surgiu a ideia e como foi o processo de criação do bloco de Carnaval?

Renata Rodrigues: Foi muito por acaso. Em 2014, eu vi na internet um post de um homem segurando um cartaz que dizia “eu não mereço mulher rodada”, e aí eu e várias outras mulheres acompanhamos as respostas que surgiram a esse post. Uma jornalista, na época, fez um teste para você descobrir se era rodada ou não ― e obviamente, era uma piada, uma brincadeira que tinha o mesmo objetivo que o bloco teve de primeira, que é o de questionar o rótulo. E aí surgiu a ideia. Eu segui essa jornalista nas redes sociais e deixei um recado pra ela, dizendo que a gente ia fazer o “bloco das rodadas”. Comentei isso também com uma amiga minha que achou a ideia ótima e disse “vamos criar, vamos fazer isso”. A gente não tinha uma trajetória no Carnaval. Na época, a formação dos blocos era algo muito tradicional, derivando de músicos que se unem para fazer um som e unir pessoas, ou homenagear determinado cantor, etc. Hoje até acho que isso esteja mudando, porque blocos com pegada política estão cada vez mais comuns. O “Mulheres Rodadas” foi criado no final de 2014, mas saímos, mesmo, no Carnaval de 2015. E a gente tinha zero pretensão. Não imaginávamos que ele cresceria, que duraria anos.

Então, na sua visão, é recente a discussão política aliada ao Carnaval?

Isso não é recente, não. A gente não inventou isso. Por exemplo, aqui no Rio você tem um bloco chamado “Planta na Mente”, e fala sobre essa questão toda da legalização do uso das drogas, com intercessão com os organizadores da Marcha da Maconha. Ele já existe há dez anos e eu acho que todo o Carnaval, mais especificamente de 20 e poucos anos para cá, trouxe uma aura de reocupação do espaço público. Essa é uma manifestação que veio preencher a demanda de um país que estava, naquele momento, em um processo de abertura política ― isso não sou eu quem está falando, existem estudos que falam sobre essa retomada do Carnaval de rua. E o “Mulheres Rodadas” tem essa característica: primeiro a ideia era que o bloco fosse um statement. Ele é, antes de mais nada, um grito de libertação, pela liberdade das mulheres, e contra alguns ataques que a gente estava vendo crescer desde 2015, principalmente com os posicionamentos do Eduardo Cunha sobre os direitos das mulheres. 

Ele é, antes de mais nada, um grito de libertação, pela liberdade das mulheresRenata Rodrigues, criadora do "Mulheres Rodadas"
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Em 5 de janeiro, o grupo "Mulheres Rodadas" reproduziu a performance feminista "Um estuprador em seu caminho", que se tornou viral em 2019.

Na abertura do Carnaval do Rio, neste ano, vocês reproduziram a versão brasileira da performance “O estuprador em seu caminho”, criada pelo coletivo chileno Lastesis ― que, inclusive chegou até o parlamento turco. E, agora, na próxima quarta de cinzas, farão novamente. Por que essa escolha?

Toda a inspiração de reproduzir o protesto veio de uma das integrantes do bloco, que cuida da parte da harmonia, dos sopros e tal. Ela esteve no Chile recentemente e viu a performance de perto, realizada por vários coletivos feministas. Quando voltou, trouxe a ideia de reproduzirmos por aqui. A gente tem uma militância muito aguerrida no Carnaval, no que tange à ocupação do espaço público, da livre expressão do pensamento, de batalhar por essa ideia de que o Carnaval é uma manifestação popular e que é um direito das mulheres poder estar nas ruas. Existe todo um viés de gênero, que impõe vulnerabilidades pelo fato de sermos mulheres. O risco de sofrer assédio, violência sexual, e a própria maneira como o corpo da mulher ocupa esse espaço público durante o Carnaval ainda precisa ser discutido. A gente quer marcar essas questões. 

A letra da performance criada pelas chilenas tem uma coisa muito forte. Ela diz: “a culpa não era minha, nem onde estava, nem como me vestia”. Acho que isso diz muito sobre o que acontece com as mulheres no Carnaval. Eu acho que a gente avançou muito no debate sobre o assédio, mas ainda há muita confusão. Muita gente pensa: “ah, está no Carnaval, está na rua, então não tem direito de reclamar se for assediada”; “está pelada, com a bunda e o peito de fora, e está querendo reclamar que sofreu assédio?”. E eu digo: “pois é, está. E vai reclamar, sim”. Esses limites precisam ser estabelecidos e a gente precisa repetir quantas vezes for necessário que o corpo da mulher não é público. 

É justamente esse o denominador comum entre as mulheres que reproduziram a performance pelo mundo, o direito ao corpo e o combate à violência? O quanto é significativo falar sobre isso durante o Carnaval?

Eu acho que, no Brasil, especificamente, as mulheres são as maiores vítimas de diversas violências. E, na América Latina, é muito importante que a questão da violência de gênero seja discutida, porque ela é um pilar de manutenção de desigualdade. Eu acho que é importante trazer essa discussão tanto para dentro, quanto para fora do Carnaval. De uma certa maneira, a mulher sempre esteve no centro do Carnaval. Mas que centro era esse? Ela estava ali para ser vista, para ter o seu corpo consumido, objetificado, sexualizado. 

Eu acho que o “Mulheres Rodadas” teve a repercussão que teve porque a gente pegou um limãozinho e fez uma limonada, sabe? Para dizer o que nós queremos com os nossos corpos ou não no Carnaval. Para ser sujeito. O “Mulheres Rodadas” sempre esteve no meio do caminho entre ser um cortejo de carnaval e uma marcha de protesto. E eu acho que isso é muito importante. O Carnaval, como uma manifestação popular, se não a mais importante do Brasil, repercute no mundo inteiro e reproduz nele mesmo todos os conflitos e problemas que o Brasil tem: o racismo, a desigualdade, o machismo, o autoritarismo. Ainda existe muito machismo na maneira como o Carnaval é produzido, nos cargos que as mulheres ocupam. Geralmente elas estão nos bastidores e não na liderança artística ou na própria gestão. E a gente chegou para apontar e colocar o dedo em todas essas feridas. 

Ainda existe muito machismo na maneira como o Carnaval é produzido, nos cargos que as mulheres ocupam.Renata Rodrigues, criadora do "Mulheres Rodadas"
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Participantes dançam durante o desfile de carnaval do grupo “Mulheres Rodadas” no Rio de Janeiro, em 2015 -- primeiro ano em que o bloco foi às ruas.

Em 2020, a Defensoria Pública no Rio de Janeiro se juntou a blocos de rua feministas, entre eles o “Mulheres Rodadas”, e apoiou a criação de uma Comissão de Mulheres contra a Violência no Carnaval, chamada “Atenta e Forte”. Como foi esse processo e qual o trabalho da comissão?

No ano passado, o bloco procurou a Defensoria e, em conjunto, escrevemos uma cartilha que se chama “Folia, sim, assédio, não”. Na época, tinha acabado de ser aprovada a Lei de Importunação Sexual. Então a gente queria, na verdade, falar sobre essa lei. Porque se as pessoas não conhecem, não adianta nada ter a lei. E começou assim. Agora, em 2020, tanto a parceria com a Defensoria quanto a criação da Comissão foram motivadas por alguns casos de mulheres que estavam ingerindo bebidas vendidas por ambulantes e apagando, passando mal, e sofrendo violências diversas. Isso motivou um grupo de mulheres a criar essa comissão. Ela é formada por cerca de 70 blocos do Rio e fora dele - outros estados se juntaram a nós. 

E, na verdade, estamos com a intenção de nos unirmos com agentes do poder público para saber como é que podemos pensar políticas públicas de combate à violência contra a mulher durante o Carnaval. Já existe um coletivo chamado “Todas por Todas”, que está com uma vaquinha aberta para coletar fundos. Durante a festa, elas constroem tendas de acolhimento para mulheres que sofrem violência, mas ainda é uma coisa pequena, não atinge muita gente. E por que não fazer isso crescer? Acho que é importante unir iniciativas do poder público e da sociedade civil. Sentar na mesma mesa e pensar o que pode ser feito e como obter resultados concretos.

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Participante do "Mulheres Rodadas" segura adereço no cortejo, em 2015.

Qual a sua expectativa para a participação do “Mulheres Rodadas” no Carnaval deste ano?

Olha, uma coisa que eu espero é que a gente consiga fazer o nosso cortejo. Porque o “Mulheres Rodadas” não é um bloco oficial e existe um secretário no Rio de Janeiro que diz que bloco não oficial vai para a rua “fazer baderna”. Nossa intenção é levar para a rua uma discussão política e que envolve os direitos das mulheres.

Há certa intenção de criminalizar um determinado tipo de Carnaval. É uma coisa bem, bem complicada. A gente sempre conseguiu desfilar, mas nesse cenário a minha expectativa é essa: que a gente consiga fazer o cortejo.

Quais os planos para o futuro do bloco?

Essa pergunta é difícil. Todo ano, eu chego às vésperas de cortejo exausta. Realmente, a gente não tem muita estrutura. Não vou te dizer que a gente tem pouco dinheiro, porque não é verdade. O que acontece com a gente é que temos recursos dos integrantes, o que é muito positivo. Mas também restringe as pessoas com as quais gostaríamos de atuar. Porque quem não tem recurso, quem não tem instrumento, por exemplo, não consegue. E eu adoraria, por exemplo, que tudo o que a gente faz ao longo do ano fosse feito também com outros grupos. Esse ano que passou foi um ano de muito desgaste. Eu estou bem reticente. O futuro à “deusa” pertence. Existe desde a possibilidade de nos transformarmos em uma organização de combate à violência contra a mulher e de formação política, até a ideia de o bloco não existir mais. Porque é muito difícil organizar tudo isso. Não é fácil, não. Não é porque a gente fala de machismo e assédio que a gente também não sofra essas violências.