MULHERES
14/08/2020 06:00 -03

O que os homens sentem diante de mulheres poderosas na política

Recentemente, a deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez foi xingada publicamente pelo também deputado Ted Yoho.

Duas palavras usadas lado a lado com grande frequência são uma combinação de palavras, algo que os linguistas chamam, em inglês, de “collocation”. A existência disso indica que as palavras têm impacto maior quando são usadas em conjunto.

Quando o deputado republicano Ted Yoho, da Flórida, chamou a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, de “fucking bitch” (termo que pode ser equivalente a “vagabunda do caralho”, traduzido para o português), nos degraus do Capitólio norte-americano na penúltima semana de julho, ele usou uma collocation: “Fucking” e “bitch” formam um soco verbal agressivo, conferindo à pessoa que o profere a capacidade de cuspir veneno sem criatividade ou contextualização. É algo que chamo de “o insulto escolhido pelo homem preguiçoso”.                        

Essas palavras geralmente saem da boca de um homem e são dirigidas contra uma mulher. Não importa o que a mulher tenha feito (se é que fez alguma coisa) para provocar o insulto. Independentemente do contexto, as palavras indicam que a mulher ocupou um espaço que o orador preferiria que ela não ocupasse. Apenas ele tem direito a expressar opiniões, a exercer poder, a reivindicar a atenção daqueles que ele decidiu que têm importância. Ela é uma “fucking bitch”, nada mais que isso.

Parece provável que tenha sido por isso que Yoho empregou a collocation contra Ocasio-Cortez. De acordo com o jornal The Hill, Yoho abordou Ocasio-Cortez, chamando-a a de “nojenta” devido às declarações recentes da deputada em que ela havia vinculado a criminalidade crescente ao aumento da pobreza. A deputada teria então dito a seu colega que ele estava sendo “mal-educado”. Depois que cada um seguiu seu caminho, Yoho disse em voz alta: “Fucking bitch”. A cena inteira foi testemunhada por um repórter.

As palavras indicam que uma mulher ocupou um espaço que o orador preferiria que ela não ocupasse. Apenas ele tem direito a expressar opiniões, a exercer poder, a reivindicar a atenção daqueles que ele decidiu que têm importância. A mulher não passa de uma “fucking bitch”.

No dia 22 de julho, Yoho foi ao plenário da Câmara para apresentar um exemplo clássico de falso pedido de desculpas, usando todos os grandes sucessos dos homens que na realidade não querem assumir responsabilidade por seus atos. Ele negou haver dito “as palavras insultuosas e ofensivas atribuídas” a ele, evocou sua esposa e filhas como prova de sua bondade inata e, para arrematar, acrescentou um “sinto muito que a senhora tenha se ofendido”. “Se minhas palavras foram interpretadas desse modo, peço desculpas pelo mal-entendido”, ele disse.

Na manhã do dia 23, falando no mesmo plenário da Câmara, Ocasio-Cortez, ao lado de um grupo de colegas suas, incluindo as também deputadas democratas não brancas Pramila Jayapal, de Washington, e Nydia Velazquez, de Nova York, eviscerou Yoho e sua misoginia casual. Ocasio-Cortez deixou claro que foi o discurso de Yoho que a levou a fazer o dela.

“Eu não poderia deixar minhas sobrinhas, não poderia deixar as garotinhas que encontro quando volto para casa, não poderia deixar que vítimas de abusos verbais e coisas piores vissem isso, vissem aquele pedido de desculpas [do deputado Yoho] e vissem nosso Congresso aceitá-lo como sendo genuíno. Aceitá-lo como pedido de desculpas. E aceitar o silêncio como uma forma de aceitação. Eu não podia permitir que ficasse nisso”, ela disse.

Ocasio-Cortez deixou claro que o fato de ter esposa e filhas – um argumento frequentemente usado por homens quando tentam desviar a atenção de outros de seu comportamento abusivo de gênero – não garante a ninguém uma vaga automática no clube dos Homens Verdadeiramente Decentes.

“Eu também sou filha de alguém”, ela disse. “Meu pai, felizmente, não está mais vivo para ver como o sr. Yoho tratou sua filha. Minha mãe viu pela televisão o desrespeito do sr. Yoho em relação a mim no plenário desta Câmara, e estou aqui hoje porque preciso mostrar a meus pais que sou filha deles e que eles não me criaram para aceitar ser insultada por homens.”

Venho cobrindo questões de gênero e política há quase uma década, e não me recordo de nenhum momento em que fiquei tão extasiada assistindo ao canal público C-SPAN.

“Bitch” (literalmente, cadela) é um termo usado por homens desde o século 15 para indicar desprezo por mulheres que fogem de seus papéis designados. “O termo nasce da misoginia e a reforça: indica desprezo por mulheres e raiva delas pelo simples fato de serem mulheres”, disse a professora da Universidade Georgetown Deborah Tannen. “Simplesmente por serem.”

A conotação original do termo era de comportamento lascivo e imoral, como uma cadela no cio, mas no século 18 “bitch” já estava sendo usado para aludir a mulheres “teimosas” ou “cabeças-duras” – mulheres que não podiam ser controladas, disse Kory Stamper, lexicógrafo e autor de “Word by Word: The Secret Life of Dictionaries.” “Chamar uma mulher de bitch assinala a ela que ela fala alto demais, é safada demais, independente demais, chata demais, tudo demais”, disse Stamper ao HuffPost. “Chamá-la de bitch lhe transmite que ela deveria ser controlável, como um cão de caça.”

E, como destacou a deputada Jayapal no plenário da Câmara depois de Ocasio-Cortez ter feito sua declaração, o uso do termo “bitch” em livros mais do que dobrou entre 1915 e 1930. Isso ocorreu simultaneamente com a popularização do movimento pelo sufrágio feminino e a subsequente ratificação da 19ª emenda, que concedeu o direito do voto às mulheres brancas. Era a fúria dos homens obrigados a dividir o voto com mulheres.

Um século mais tarde, o termo ainda está sendo usado contra mulheres americanas que exercem poder ou buscam poder. Durante a campanha eleitoral de 2016, os comícios de Donald Trump estavam cheios de materiais de campanha que incentivavam os eleitores a “Trump that Bitch” (passar por cima daquela vagabunda). Hoje é possível encomendar da Amazon uma camiseta que pede ao presidente que “Ditch the bitch” (descarte a vagabunda) e impiche a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi.

E não são apenas mulheres na arena política que precisam aguentar ser xingadas de “fucking bitch”. Quando a jornalista Liz Plank pediu no Twitter que mulheres revelassem a coisa mais insignificante que haviam feito para justificar ser xingadas com esse epíteto, eu precisei parar para pensar. Não por que essas palavras nunca tenham sido ditas a mim, mas porque isso já aconteceu tantas vezes e por uma provocação tão insignificante que mal causa impressão. A coisa mais insignificante foi eu ter andado na rua e não ter sorrido para o cara? Ter postado um texto de jornal no Twitter? Não ter respondido a um desconhecido que decidiu que queria me interpelar ou dar uma cantada?

O caráter corriqueiro e casualmente degradante do insulto é algo que Ocasio-Cortez captou perfeitamente em seu discurso, quando disse que já havia “expulsado de bares homens que usaram linguagem como a de Yoho” e comentou que “todas as mulheres já tiveram que lidar com isso de alguma maneira, em algum momento da vida”.

A linguagem molda nosso entendimento do mundo e então nos permite expressar crenças em relação ao mundo que, por sua voz, continuam a reforçar essas impressões iniciais. Mas a linguagem também pode ser revolucionária; pode ser um registro vivo de transformação e uma maneira de rejeitar crenças comuns que já passaram da hora de ser desmentidas. Por isso é importante que Ocasio-Cortez e suas colegas deputadas tenham empregado suas palavras – palavras fortes, penetrantes, ditas em alto e bom som; palavras que ecoaram muito além do plenário do Congresso – para forçar seus colegas parlamentares eleitos e o público americano a parar para pensar.

Em 2020, ainda sentimos um pavor coletivo em relação às mulheres que ousam exercer o poder, especialmente quando são mulheres não brancas. Mas, diferentemente de 1920, hoje há uma massa crítica de mulheres em nosso governo que podem olhar nos olhos desse pavor e dizer, como disse a deputada Jayapal: “Nós não vamos embora. Haverá mais de nós aqui.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.