MULHERES
19/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 19/08/2020 02:00 -03

Campanha quer honrar as mulheres negras torturadas em nome da evolução da 'ginecologia'

O cirurgião James Marion Sims brutalizou Anarcha Westcott e dezenas de outras. Agora, uma estátua pode lembrar essas mulheres.

Southern Illinois University School of Medicine, Pearson Museum
Anarcha Westcott.

Anarcha Westcott era adolescente e tinha acabado de dar à luz pela primeira vez quando foi separada à força de seu bebê e submetida a uma cirurgia ginecológica brutal e experimental, sem anestesia.

Seu torturador, James Marion Sims, é amplamente considerado o “pai da ginecologia moderna” ― mas o trauma a que ele submeteu Westcott e outras negras escravizadas para desenvolver suas técnicas foi esquecido.

Um grupo de parteiras criou uma campanha para homenagear as vítimas de Sims, que entre 1845 e 1849 passaram por cerca de 30 procedimentos cirúrgicos para que Sims aperfeiçoasse seu método de cirurgias de fístula.

Heidi Downes, uma parteira de Londres, está fazendo lobby para que um monumento seja erguido em homenagem a essas mulheres, ao mesmo tempo em que ativistas do movimento Black Lives Matter derrubam estátuas de escravagistas por todo o país.

A expectativa é que a homenagem seja feita no Royal College of Obstetricians and Gynecologists, em Londres.

“A campanha começou há um ano. Sam, uma colega minha, participou de uma conferência e ouviu a maravilhosa doutora Amali Loukgamage falando sobre obstetrícia e ginecologia. Ela mencionou Anarcha e [duas das outras mulheres] Lucy e Betsey. Sam voltou do evento me contou”, diz Downes ao HuffPost UK.

“Fiquei chocada por nunca ter ouvido falar delas em todos os meus anos de parteira e decidi iniciar a petição.”

Mas a adesão tem sido lenta.

“Fiquei chocada que não decolou no começo”, afirma Downes. “Pensei: ‘Onde estão as parteiras? Onde as pessoas estão revoltadas com isso?’.”

Lembro de conversar com uma amiga que disse: ‘Não é um assunto agradável. As pessoas não querem falar disso’. Foi antes da recente onda de protestos Black Lives Matter. Para mim, como não estava nas manchetes, as pessoas realmente não ficaram sabendo dessa campanha.”

Lembro de conversar com uma amiga que disse: ‘Não é um assunto agradável. As pessoas não querem falar disso’.Heidi Downes

Em sua autobiografia, The Story of My Life (a história da minha vida, em tradução livre), Sims descreve com riqueza de detalhes como tratou as mulheres negras como cobaias médicas.

“Fiz essa proposição aos donos das negras: se vocês me derem Anarcha e Betsey para experimentos, concordo em não realizar nenhum experimento ou operação que coloque em risco suas vidas e não cobrarei um centavo por cuidar delas, mas você deve pagar os impostos e vesti-las.”

Ele também se gabou que suas pacientes “estão todas perfeitamente satisfeitas com o que estou fazendo por elas” ― o que é duvidoso, já que elas eram escravas, não tinham autonomia e eram consideradas propriedade.

Também havia a crença na época de que os negros não sentiam dor nem funcionavam da mesma forma que os brancos.

Apesar das práticas desumanas, Sims aperfeiçoou suas técnicas em mulheres negras e depois criou um hospital onde realizava procedimentos em mulheres brancas – com o consentimento das pacientes e usando anestesia. 

Ele também inventou o espéculo moderno, a posição de Sims para exames vaginais, que ele usou pela primeira vez nas escravas e que passou a ser amplamente adotada. Por esse motivo, Sims é visto com bons olhos por muitos historiadores. Apesar da sua brutalidade, sua vida é comemorada em monumentos no mundo todo.

Spencer Platt via Getty Images
Funcionários da prefeitura de Nova York se preparam para retirar um monumento de James Marion Sims do Central Park, na altura da rua 103, 17 de abril de 2018.

Dito isso, em 2018 a prefeitura de Nova York retirou uma escultura de Sims do Central Park, depois de 8 anos de protestos de ativistas negros. O monumento estava no local havia 80 anos.

“Sou parteira há quase 6 anos e, antes disso, treinei por 3 anos. Naquela época, eu não sabia de Anarcha e do sofrimento dela e de escravas, mas eu sabia do espéculo de Sims”, escreveu Downes na página da sua campanha no site Change.org.

“Como essa parte crucial da história da obstetrícia não faz parte do currículo e como não aprendi isso? Anarcha e as outras mulheres que foram tratadas dessa forma bárbara merecem ser colocadas no mesmo pedestal em que Sims, com ou sem razão, foi colocado.”

Downes afirma que discutiu a campanha com o presidente do Royal College of Obstetricians and Gynecologists, Edward Morris, bem como com a Christine Ekechi, consultora do Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido especializada em gravidez precoce e ginecologia aguda. Ambos demonstraram interesse em apoiar a iniciativa.

Universal History Archive via Getty Images
James Marion Sims.

Downes, que é branca, conduz a campanha de forma apaixonada, falando sobre ela regularmente e escrevendo um artigo de duas páginas sobre o tema para o British Journal of Midwifery

 “O código do Conselho de Enfermagem e Obstetrícia pede que aqueles que recebem cuidados sejam tratados com respeito, que seus direitos sejam defendidos e que quaisquer atitudes e comportamentos discriminatórios em relação àqueles que recebem cuidados sejam questionados. Sinto que, como profissão, decepcionamos um grupo de mulheres e as deixamos nas sombras da história, sem a honra que merecem”, escreve Downes.

Ainda assim, ela diz ao HuffPost UK: “Mesmo depois que meu artigo foi publicado, em outubro de 2019, [...]o apoio à petição não aumentou! Às vezes, você precisa continuar pressionando ― não dá para esperar sentada. Falei com alunos de universidades, falei em podcasts”.

“Como mulher branca que nunca teve de lidar com o racismo pessoalmente: não cabe só às negras fazer pressão por essa estátua. Mas tudo o que vi, pesquisando as outras mulheres incríveis que vieram antes de mim nas campanhas por representação, são mulheres negras! Acho que isso está errado ― deveríamos estar juntas. Por que isso não foi feito antes? Por que ainda estamos lutando por isso em 2020?” 

A parteira, que trabalhou com o Serviço Nacional de Saúde até abril, abordou colegas brancas em busca de apoio e disse que estava decepcionada com a apatia ― algo que ela atribui à falta de diversidade racial no órgão.

Não cabe só às negras fazer pressão por essa estátuaHeidi Downes

“Precisamos de mais negras como gestoras de parteiras. Se a minha experiência é essa, imagine como é para as mulheres negras que podem sofrer racismo real no NHS e não têm a quem recorrer?”, pergunta ela.

Supplied
Heidi Downes.

O HuffPost UK entrou em contato com o NHS. 

Um porta-voz do Royal College of Obstetricians and Gynecologists afirmou: “Estamos planejando uma exposição para reconhecer o papel das mulheres na história da obstetrícia e ginecologia. Isso vai incluir muitas mulheres corajosas que contribuíram voluntariamente e, infelizmente, também mulheres como Anarcha, que não estavam em posição de dar consentimento para pesquisas médicas”.

“Também esperamos oferecer um programa de eventos e recursos digitais em nosso site para destacar algumas dessas contribuições importantes, mas raramente reconhecidas de mulheres. Infelizmente, a pandemia do coronavírus atrasou nosso trabalho, mas esperamos fazer progressos no ano que vem, para garantir que as histórias dessas mulheres não sejam esquecidas.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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