MULHERES
20/03/2019 13:36 -03 | Atualizado 20/03/2019 13:41 -03

Conversas Plurais: Tudo o que rolou evento sobre o quadrinho 'Mulheres na Luta'

Encontro, que é parceria entre Cia. das Letras e HuffPost Brasil, aconteceu na última segunda (18).

Divulgação/Cia. das Letras
Obra das norueguesas Marta Breen e Jenny Jordahl, 'Mulheres na Luta: 150 Anos em Busca de Liberdade, Igualdade e Sororidade' acaba de ganhar edição no Brasil.

“Este livro é interessantíssimo porque traz, por exemplo, a história da Rosa Luxemburgo – que muitos discursos do norte [do mundo] não trazem. Geralmente, existe apenas uma perspectiva de feminismo liberal e no livro aparecem também as socialistas.”

A observação acima foi feita pela jornalista e pesquisadora Bianca Santana na última segunda-feira (18) no evento Conversas Plurais, parceria entre o Grupo Companhia das Letras e HuffPost Brasil que discutiu o quadrinho Mulheres na Luta: 150 Anos em Busca de Liberdade, Igualdade e Sororidade - que acaba de chegar às livrarias.

O livro da escritora norueguesa Marta Breen e da quadrinista Jenny Jordahl recupera de forma concisa a trajetória de protagonismo de mulheres na luta por direitos. Além de Rosa Luxemburgo já citada, figuras como Lucretia Mott, Margaret Sanger, Harriet Tubman, Clara Zetkin têm seus perfis destacados na HQ.  

Além de Bianca Santana, o bate-papo realizado na livraria Martins Fontes, em São Paulo, contou com a presença de Bárbara Castro, professora do Departamento de Sociologia da Unicamp e pesquisadora associada do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU, que assina o posfácio do livro.

“A ideia do posfácio é que ele seja uma espécie de convite pra que as jovens, adolescentes, homens e mulheres adultos possam entrar em contato com as lutas dessas mulheres, com as mulheres que protagonizaram essas histórias”, disse Bárbara sobre o texto que cita brasileiras como Esperança Garcia, Rosa Egipcíaca e Maria Firmina - ausentes na historiografia do quadrinho.

“Mas é também um convite pra que façam suas próprias pesquisas a fim de buscar outras perspectivas e se aprofundar no conhecimento dessas histórias”, completou.

No encontro, Santana destacou que o livro, com linguagem descomplicada chega em boa hora às prateleiras do Brasil e que também pode ser traduzido como um reflexo geracional.

“Os apagamentos são imensos, mas a gente têm muito vestígio. E eu tenho a sensação cada vez mais forte de que a nossa geração está disposta a contar essas histórias. Essas narrativas estão em disputa.”

HuffPost Brasil/Amauri Terto
Da esquerda para a direita: Bárbara Castro, Andréa Martinelli (editora de Mulheres e LGBT do HuffPost Brasil e mediadora do bate-papo) e Bianca Santana.

Para a pesquisadora, o formato HQ – que também faz uso do humor e da ironia – impulsiona o alcance do livro para além de meninas e mulheres.

“Assim como a luta antirracista precisa ser de todas as pessoas e não só das pessoas negras, compreender a importância da luta das mulheres pra uma sociedade com igualdade de justiça de gênero é uma tarefa também dos homens”, afirmou.

Outro ponto positivo que a pesquisadora destacou sobre a obra foi um certo cuidado com a linguagem usada, por exemplo, a preferência pelo uso do termo “escravizado” e “em situação de escrava” em uma das cenas descritas.

“Bem no comecinho [do livro] existe uma descrição das crianças e mulheres escravas. Mas no ponto seguinte elas já aparecem como “pessoas escravizadas”, e isso é ótimo.”

“Porque foram pessoas colocadas em situação de escravizadas. Quando você fala “escravo” e só, por vezes, você desumaniza essa pessoa e naturaliza a condição a que ela foi submetida. E a gente está falando de um livro. É lógico que o jeito que a gente nomeia importa”, explicou.

Apesar das diferentes qualidades, para Santana o livro é passível de crítica na forma como as mulheres negras são apresentadas. “Dá pra ver que existe uma intenção muito forte de colocar a luta de mulheres negras, especialmente das norte-americanas. Essa boa intenção é algo importante. sem dúvida nenhuma, mas é algo pra gente refletir”, pontuou.

Para ela, é importante que o leitor repare também na forma como as autoras mostram as estratégias de luta e resistência das mulheres ao longo da História – algo que ela afirma ser “muito inspirador”.

“Um exemplo está na página 85, quando elas falam das norte-americanas bolando estratégias para a legalização do aborto nas quais elas encontram uma mulher que topa que o caso dela seja levado para o Supremo.”

Em concordância com Santana, Bárbara Castro destacou que é importante também que o leitor pense nos momentos históricos em que as mulheres construíram alianças e nos contextos em que elas “racharam” - em uma citação à filósofa e ativista norte-americana Angela Davis. “Principalmente em momentos como o que a gente está vivendo de elevada polarização da agenda política.”

“Até que ponto essas alianças permanecem? E o que a gente tem a aprender lendo e conhecendo essas histórias pra gente fazer essas alianças perdurarem por mais tempo?”, disse de forma retórica a professora da Unicamp.

No contexto da perda de direitos conquistados, Bianca Santana trouxe à tona o caso das mulheres do Afeganistão e fez um paralelo com o que chama de “projeto fundamentalista” em curso no Brasil.

“Nos quadrinhos vemos o Afeganistão em 1965, com as mulheres de minissaia e o Afeganistão em 2015 com as mulheres de burca. A gente não pode permitir que isso aconteça no Brasil. (...) Infelizmente a gente sabe que isso aconteceu em outros lugares do mundo. Não dá pra gente sentar e assistir, esperando que isso aconteça aqui também”, completou.