Manar Hussein numa praia de Nova Jersey, 26 de junho de 2019. Foi a primeira vez que ela usou o burquíni para entrar na água.
Kholood Eid for HuffPost
Manar Hussein numa praia de Nova Jersey, 26 de junho de 2019. Foi a primeira vez que ela usou o burquíni para entrar na água.
MULHERES
04/09/2019 08:56 -03

Para mulheres muçulmanas, a natação se tornou um ato político

Muçulmanas foram intimidadas, assediadas e expulsas por usarem burquinis.

Fotos de Kholood Eid

LONG BRANCH, N.J. –– De pé na areia, Manar Hussein olhou para o azul do oceano Atlântico, com as ondas batendo em seus pés. Muçulmana, aos 27 anos ela não ia à praia há anos, apesar de viver em um estado norte-americano que possui mais de 40 delas. Desde sua adolescência, quando começou a usar hijab, Hussein nunca mais entrou em uma piscina, muito menos no mar.

Até agora.

Vestindo o novo burquíni que comprou este ano – feito de legging preta, uma túnica de natação cor de rosa, de mangas longas e um hijab preto integrado ―, Hussein deixou seus receios de lado e olhou para frente, esperando que a seu corpo recuperasse toda a memória muscular necessária para nadar.

Ela procurou não prestar atenção a outras pessoas que estavam nadando ali perto. Tentou não se preocupar com a possibilidade de ser assediada ou, ainda pior, agredida fisicamente. Se acontecesse, não seria a primeira vez.

Não é de hoje que muçulmanas como Manar Hussein são perseguidas e intimidadas por usarem trajes de banho modestos, como o burquíni, nos Estados Unidos. Elas já foram expulsas de piscinas e praias. Ouviram que seus trajes eram inapropriados. Alguns mandaram elas voltarem para seus países de origem. Alguns chegaram a chamar a polícia para retirá-las de alguns locais.

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Manar Hussein numa praia de Nova Jersey, 26 de junho de 2019. 

A natação é um dos exercícios físicos mais comuns nos Estados Unidos. Mas, pelo fato de se diferenciarem tanto, as muçulmanas que vão nadar de burquíni enfrentam risco altíssimo de serem assediadas.

O HuffPost US conversou com mais de 30 muçulmanas que atualmente moram em diversas partes dos Estados Unidos; elas descreveram inúmeras experiências vividas quando escolhem pela atividade. Nem todas são negativas, mas a grande maioria das entrevistadas revelou um mesmo padrão: mulheres muçulmanas ainda estão lutando pelo simples direito de nadar. Elas frequentemente são confrontadas em público, humilhadas e insultadas. Elas enfrentam décadas de preconceito arraigado da parte de pessoas que encaram seu recato como algo opressivo e antifeminista.

Isso não está acontecendo apenas nos Estados Unidos. Três anos atrás, pelo menos 20 cidades francesas interditaram o burquíni, proibindo muçulmanas de nadar em praias e piscinas públicas com o corpo totalmente coberto. A proibição foi revogada desde então, mas medidas semelhantes continuam a ser adotadas, não obstante um aumento nas vendas de burquínis.

Nos Estados Unidos, crimes de ódio contra muçulmanos representaram mais de 18% dos crimes motivados por questões religiosas em 2018. Não há nenhuma organização que monitore especificamente estes crimes sofridos por mulheres muçulmanas, mas o HuffPost vem documentando as intersecções entre sexismo e islamofobia nas ruas, na política, nas escolas e em outros espaços. O fato de serem visivelmente muçulmanas por usarem o burquíni ou o hijab frequentemente converte as muçulmanas em alvos.

Muçulmanas na linha de frente do ódio 

Manar Hussein cresceu em Ventor, cidade litorânea do sul de Nova Jersey a menos de oito quilômetros de Atlantic City, e ia à praia com frequência quando era criança. Ela viajava regularmente ao Egito com sua família e, nessas viagens, nadava no Mediterrâneo. Quando era adolescente, antes de começar a usar o hijab, passava horas em sua piscina local em South Jersey.

Mas um dia, quando estava nadando, ela percebeu um alvoroço na piscina. Várias pessoas estavam assediando verbalmente uma muçulmana de burquíni. As pessoas exigiram que o salva-vidas a expulsasse da piscina, dizendo que seu traje de banho era anti-higiênico. 

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Manar Hussein numa praia em Nova Jersey, 26 de junho de 2019.

“Ninguém defendeu aquela mulher. Ninguém fez nada”, lembrou Hussein, dizendo que o incidente foi um dos motivos por que ela optou por não nadar durante anos. Assistente de pesquisas e doutoranda em pedagogia na Universidade Montclair, Hussein temia que, se ela o fizesse, viraria alvo de humilhação pública como o que tinha visto acontecer com aquela muçulmana quando ela era adolescente.

Seus receios não deixavam de ter fundamento. Uma mãe muçulmana de burquíni contou ao HuffPost sobre um incidente ocorrido num parque aquático em Toledo, Ohio. Ela estava ali com seus filhos dois anos atrás quando foi abordada três vezes, por três funcionários diferentes do estabelecimento, que a questionaram sobre seu traje. Um gerente chegou a pedir para ver a etiqueta do burquíni para confirmar que o material era de fato próprio para ser usado em um traje de banho. Em Nova York, uma muçulmana de 25 anos estava nadando na piscina de seu bairro em Staten Island quando outra pessoa que estava na piscina começou a fazer fotos dela e sua irmã e a queixar-se em voz alta do traje de banho que elas estavam usando. “É por isso que eu voto em Trump”, a pessoa teria dito às muçulmanas.

Esses incidentes não estão ocorrendo do nada. Embora não haja normas definidas que proíbam muçulmanas de nadar de burquíni, muitas muçulmanas denunciam que são criticadas ou assediadas. 

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Manar Hussein numa praia em Nova Jersey, 26 de junho de 2019.

“A vestimenta é um gancho interessante para iniciar uma discussão mais ampla sobre islamofobia e ideias equivocadas sobre o islã, de modo mais geral”, observou Liz Bucar, professora de religião na Northwestern University e autora do livro “Pious Fashion”, que trata de tendências de moda muçulmana em todo o mundo.

Para Bucar, uma das razões por que as muçulmanas que se cobrem sofrem mais reações negativas que as mulheres de outras comunidades, como a judaica conservadora, é “o estereótipo e as ideias equivocadas segundo as quais o islã seria mais patriarcal que outras religiões” e que “o véu que cobre a cabeça é visto como sinal de que os homens muçulmanos controlam as mulheres muçulmanas ou que a própria tradição muçulmana é patriarcal e misógina”.

Mas as mulheres muçulmanas estão contestando essa visão todos os dias, graças ao empreendedorismo, às redes sociais e por resistirem pessoalmente às reações negativas.

“A vestimenta vira um exemplo do empoderamento das mulheres muçulmanas, não de sua opressão”, disse Bucar.

Modernizando as regras de inclusividade 

Dananai Morgan, nadadora inveterada de 34 anos, estava nadando na academia de sua cidade (Dorchester, no Massachusetts) no verão passado quando um salva-vidas a interpelou. Ele lhe disse que nadar de burquíni não é seguro e que as normas do local exigiam que ela usasse “traje apropriado” para nadar.

Morgan explicou ao salva-vidas e depois ao gerente do centro de fitness que seu traje de banho era apropriado, sim, e explicou ainda que o material do qual era feito seu traje recatado era igual ao de qualquer outro maiô. Ela explicou que sua opção de usar um burquíni não rompe com as normas da piscina. No final, foi autorizada a entrar na água outra vez.

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Dananai Morgan numa ACM em Boston em 2 de julho de 2019.

Morgan ficou grata pelo fato de a situação não ter se agravado, mas disse que o incidente deixou ainda mais clara a necessidade de as instituições ensinarem seus funcionários a ter sensibilidade e cultural e não onerar e chamar a atenção para as pessoas que estão praticando natação.

“Para mim, foi uma experiência negativa ser tratada daquela maneira em um espaço no qual querem promover a inclusão de mais pessoas não brancas, onde querem aumentar a participação de mulheres, promover hábitos saudáveis e assegurar que todos se sintam incluídos e tenham acesso a essa parte da comunidade”, Morgan contou ao HuffPost. “

Não é a primeira vez que muçulmanas têm experiências desagradáveis em suas academias locais. No ano passado um funcionário de uma academia em Charlotte chamou a polícia para retirar uma mãe muçulmana do local porque ela usou um burquíni quando levou suas filhas à piscina. Mas a mãe, Fatima Najjati, se recusou a ir embora.

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Dananai Morgan nada numa ACM em Boston, 2 de julho de 2019.

“Fiquei ali, andando de um lado para o outro. Eu não ia simplesmente pegar minhas coisas e ir embora”, disse Najjati ao HuffPost na época, explicando que para ela era importante dar um exemplo à sua filha.

Mais tarde, pediram desculpas a Najjati, dizendo que o incidente foi um “mal-entendido”. Hoje, quase um ano mais tarde, um porta-voz do local disse ao HuffPost que a entidade mudou algumas normas desde o que ocorreu naquele dia.

“O incidente nos forçou a rever não apenas nossas normas relativas a trajes de banho, mas também como ensinamos nossos funcionários a melhor compreender e fomentar um ambiente em que todos possam ser e sentir-se respeitados, apoiados, valorizados e acolhidos para participar plenamente”, disse o porta-voz.

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Dananai Morgan nada numa ACM em Boston, 2 de julho de 2019.

As normas revistas, às quais o HuffPost teve acesso, agora permitem explicitamente o uso de “trajes de banho especializados criados para garantir a modéstia e o recato, como um ‘burquíni’, que tradicionalmente é composto de três peças separadas: leggings, uma camiseta longa e uma peça para cobrir a cabeça, que não deve descer abaixo da altura dos ombros”. 

Trajes de banho modestos estão em alta nos Estados Unidos

A ascensão dos trajes de banho modestos não se limita às mulheres muçulmanas. Homens e mulheres de outros grupos religiosos, incluindo judias ortodoxas e mulheres mórmons, todos usam trajes de banho comportados que incluem trajes mais longos para a praia. Pessoas com pele sensível também se cobrem para evitar a ação do sol ou outros problemas.

Tradicionalmente as muçulmanas americanas compravam burquínis de países de maioria muçulmana como Turquia ou Egito, mas recentemente elas estão se voltando a empresas americanas que oferecem transporte a preços razoáveis e uma boa gama de opções de tamanhos.

A Coolibar, confecção do Minnesota especializada em trajes que protegem contra o sol, vende trajes de banho há mais de 20 anos e recentemente lançou uma linha de trajes de praia modestos chamada Swim Hijab. Pouco depois do lançamento a companhia recebeu pedidos para ampliar suas opções de cores e estampas. Uma representante disse que a empresa está muito satisfeita com a reação das consumidoras.

Liz Bucar disse que só recentemente é que grandes marcas começaram a prestar atenção ao mercado de moda modesta. Segundo ela, a maioria das redes varejista imaginava que “as pessoas religiosas não consomem”, o que está longe de ser o caso.

A Modanisa, empresa online de roupas modestas cuja sede fica na Turquia, mas que vende para todo o mundo e é uma das principais fornecedoras de trajes de banho modestos para muçulmanas americanas, disse que suas vendas de burquínis subiram mais de 80% desde o ano passado. Seus maiores mercados são a Alemanha, o Reino Unido, França e Jordânia.

A modelo americana muçulmana Halina Aden, que fez manchetes ao tornar-se a primeira mulher a usar hijab no concurso Miss Minnesota USA, quebrou mais um tabu de moda quando, em abril deste ano, estreou na capa da edição de moda praia da “Sports Illustrated” como a primeira modelo muçulmana a usar hijab e burquíni – da Modanisa.

A moda muçulmana modesta é uma ideia que não é estranha aos EUA. Alguns dos primeiros empreendimentos documentados de moda modesta começaram na década de 1960 com mulheres da Nação do Islã, segundo Kayla Wheeler, professora adjunta da Grand Valley State University e autora de um livro ainda inédito que documenta a moda muçulmana negra nos Estados Unidos.

“Muitas mulheres da Nação do Islã criaram pequenas firmas de moda para criar roupas para amigas e familiares, mas também para vender para muçulmanas da Nação e para não muçulmanas de toda a área de Chicago”, contou Wheeler.

O legado dessas mulheres seguiu adiante com as estilistas muçulmanas negras de hoje, que já levaram suas criações para fora dos EUA, para a Europa e mais longe.

“O que é realmente interessante, pelo menos desde a década de 2000, é como essa comunidade começou a crescer, transcendendo apenas as muçulmanas para abranger também outras mulheres interessadas em roupas recatadas, como judias ortodoxas, mulheres que são Testemunhas de Jeová, pentecostais ou de outras denominações cristãs conservadoras”, disse Wheeler. “Vemos isso também com o traje de banho.”

Dando um exemplo como mãe muçulmana modesta

Fousia Abdullahi tem 35 anos, vive no Texas e é produtora de uma podcast que documenta os desafios e realizações de mães muçulmanas na América. Fora isso,  trabalha em regime de tempo parcial como técnica farmacêutica. E é mãe de quatro filhos, de 13, 11, 8 e 4 anos de idade.

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Fousia Abdullahi nada em casa com seu filho, no Texas.

Até ter seus filhos, a própria Abdullahi não nadava desde a infância. Quando ela era adolescente e jovem, os burquínis não eram bem vistos, por isso ela nadava usando leggings e um top de manga longa. Mas os trajes atraíam olhares e comentários que a incomodavam, por isso ela desistiu de nadar.

Mas quando ela teve filhos, estes pediam insistentemente para brincar na água. Abdullahi, que vive em Dallas, não queria impedir seus filhos de praticar as atividades que ela própria curtia quando criança, apenas porque ela não tinha trajes de banho apropriados. Por isso começou a procurar roupas de banho online.

“Quem tem filhos vive se empurrando para fora de sua zona de conforto”, ela disse ao HuffPost. “Quer seja ir à praia ou à piscina, isso é algo que faço por meus filhos, para que eles saibam que esse é um espaço que eles podem ocupar. É um espaço onde podem ficar à vontade, se divertir e curtir.”

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Fousia Abdullahi nada com sua filha. 

Hoje Abdullahi nada com seus filhos, mas não consegue deixar de ficar constantemente olhando à sua volta. No verão de 2017, num dia em que levou seus filhos a um parque aquático, ela viu um homem que não parava de olhar para ela e fotografá-la sem pedir permissão. O incidente a fez lembrar da razão que a levou a desistir de nadar, anos antes.

“Sou mulher, negra e muçulmana”, explicou Abdullahi. “Sempre tiver super-consciência disso, mesmo antes do governo Trump, mas agora ainda mais. Pelo fato de fazer parte de uma comunidade marginalizada, convivemos com o medo. Temos que viver atentos e vigilantes.”

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Em Nova Jersey, Manar Hussein lembrou de todos os momentos em que ela deixou de nadar. Houve uma vez que ela deixou de nadar na piscina de sua universidade. Ou uma vez quando ela estava fazendo uma caminhada com amigos e todo o mundo mergulhou em um lago, mas ela ficou apenas assistindo de longe.

Ela decidiu que não iria mais ficar apenas assistindo de longe.

“Conservei o hijab como forma de resistência, mas nem sempre é fácil. E, para eu me engajar plenamente com essa resistência, preciso fazê-lo não apenas em nome da revolução, mas para minha própria alegria”, explicou Hussein. “Eu mereço isso.”

Ela mergulhou no oceano pela primeira vez. Boiou de costas pela primeira vez na vida e sorriu para o céu. Sentiu falta da areia grudada nas orelhas e dos sons de estar debaixo d’água. “Aquele som abafado traz uma paz tão grande”, contou às suas amigas quando voltou para a praia.

“Não quero ter que me preocupar com meu burquíni”, ela disse. “Quero apenas usá-lo, ficar feliz com ele e poder ir à praia.”

Muçulmanas em todo o mundo vêm sendo sujeitas a assédio crescente quando nadam, tudo pelo fato de usarem trajes de banho modestos. Se você já passou por isso, mande-nos um e-mail e compartilhe sua história conosco. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.