MULHERES
19/07/2019 08:48 -03

Por que tantas mulheres dizem que foram maltratadas durante o parto?

Novo estudo aponta que médicos gritam com uma em cada seis mulheres durante ou após o parto.

RealCreation via Getty Images
Mulheres denunciam maus-tratos médicos durante o parto.

Ashley Collins passou três horas fazendo força até dar à luz seu primeiro filho, em 2013. Mas essa não foi a pior parte.

Difícil mesmo foi tentar ignorar a enfermeira – que estava com as mãos dentro da vagina de Collins – que não parava de repreendê-la.

“Ela dizia: ‘você não está fazendo direito’”, lembrou Collins, 34, mãe de dois filhos. “E aí falava para o resto da equipe: ‘ela não está fazendo direito!’, como se eu não estivesse ali, e num tom incomodado.”

O bebê de Collins teve de sair a fórceps e passou cinco dias na UTI neonatal, uma experiência desgastante física e emocionalmente. O comportamento da enfermeira só piorou as coisas. “Ela foi incrivelmente mal-educada”, diz Collins.

Como ela, quase uma em cada seis mulheres americanas acredita ter sido maltratada durante o parto, segundo uma nova pesquisa divulgada pela revista Reproductive Health.

Das mais de 2.000 entrevistadas, cerca de 17% relataram gritos, broncas ou ameaças; foram ignoradas ou não receberam a ajuda que pediram; ou então passaram por mais de uma dessas experiências. Mulheres brancas, bem como as de renda mais alta, relataram menos episódios do tipo.

“Fiquei surpresa que os dois episódios mais comuns relatados durante o parto fossem gritos e broncas”, diz ao HuffPost Monica McLemore, professora assistente de saúde familiar da Universidade da Califórnia em San Francisco e uma das autoras do estudo. “Considero isso inaceitável.”

Notavelmente, o estudo recebeu recursos do Transforming Birth Fund, um fundo que financia projetos com o objetivo de reduzir intervenções médicas no parto.

A obstetra Jessica Illuzzi, chefe de seção da Escola de Obstetrícia da Universidade Yale e integrante do conselho da American Association of Birth Centers, afirmou ter preocupações pois o estudo foi incapaz de revelar com detalhes o impacto da questão racial e o local onde foi realizado o parto.

“Minha preocupação é que muita gente pegue um estudo como esse e diga: ‘Tá vendo? É por isso que não devemos fazer partos em hospitais’”, afirmou Illuzzi ao HuffPost. “Temos de colocar isso tudo em perspectiva. Nem todos os partos realizados em hospitais significam ser maltratada. E nem todos os hospitais fazem intervenções desnecessárias.”

De qualquer modo, o resultado do estudo chama atenção para o fato de que muitas mulheres acreditam estar sendo admoestadas sem razão.

“Me disseram que eu estava prejudicando o bebê e sendo egoísta porque queria ter um parto normal”, disse uma das entrevistadas. Ela afirmou ter sido “forçada” a fazer cesariana. “Odiei ouvir gritos e mentiras”, afirmou outra. 

O HuffPost Parenting pediu relatos de maus tratos via Facebook. Recebemos centenas de e-mails e comentários detalhando experiências que iam de comentários maldosos a abuso físico.

“Minha experiência foi traumática, e estou esperando outro bebê”, disse Meghan Antosh, mãe de três filhos. Ela diz ter sido vítima de bullying quando optou por não tomar anestesia peridural. Depois do parto, quando sofreu hemorragia, ela diz ter sido ignorada. “Tenho medo de dar à luz de novo, porque não confio mais nas enfermeiras e tenho de me defender.”

Um dos desafios para atacar o problema é que existem muitos fatores envolvidos, alguns subjetivos.

O parto pode ser uma experiência cheia de pressões, e os médicos, parteiros e enfermeiros podem falar com as mulheres de maneira firme, mas acabam sendo interpretados como grosseiros.

Illuzzi diz que quando está trabalhando com estudantes, muitos ficam surpresos ao ouvir o tom determinado e direto dos obstetras. “Você tem situações difíceis, nas quais o profissional pode dizer: ‘Você tem de se virar agora por causa da frequência cardíaca do bebê’”, afirmou ela. “E a paciente pode pensar: ‘Estão gritando comigo’.” Illuzzi mencionou esse exemplo não para tirar a eventual culpa dos profissionais médicos, mas sim para mostrar que ruídos na comunicação são muito frequentes. 

Mas existem muitas evidências de que as maternidades dos Estados Unidos estão em crise. As americanas têm índices mais elevados de morte e complicações sérias do que mulheres de outros países ricos – e a maioria dessas mortes é evitável. Embora maus tratos não sejam necessariamente parte do problema, no mínimo eles indicam que algo pode ser feito para melhorar o cuidado oferecido às mães.

“Sou treinada como enfermeira e para mim é difícil ouvir essas histórias”, diz McLemore. “É difícil saber que tem gente que faça e diga essas coisas.”

Ela afirma que as mulheres podem evitar esse tipo de problemas se tiverem um sistema de apoio. “Seu papel é dar à luz”, disse ela, sugerindo a contratação de uma doula, por exemplo.

Illuzzi acredita que as mulheres podem procurar hospitais que pratiquem um modelo “colaborativo”, ou seja, médicos que trabalham com parteiras e enfermeiras dispostas a ajudar no tipo de parto escolhido pela mãe – dentro do possível.

“Toda mulher tem de ser capaz de dar à luz com dignidade, de tomar decisões informadas e de ter acesso a cuidados de alta qualidade e baseado em evidências, qualquer que seja sua raça, idade ou status socioeconômico”, afirmou Illuzzi. “Acredito que é isso que os autores do estudo estejam dizendo, o que as mulheres estejam dizendo, e acredito que todos os obstetras e enfermeiros concordem com isso. Todos estamos de acordo. Então temos de trabalhar juntos para fazer disso a realidade.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.