MULHERES
09/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 09/08/2019 22:58 -03

Mulheres indígenas fazem vaquinha online para garantir marcha inédita em Brasília

Fórum Nacional das Mulheres Indígenas começa nesta sexta-feira (9), data em que é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas.

CARL DE SOUZA via Getty Images
1ª Marcha das Mulheres Indígenas ocorre em Brasília na próxima semana.

Pela primeira vez, mulheres de diversos povos indígenas do Brasil se reunirão em Brasília para um fórum e uma marcha de “resistência”. O evento está marcado para começar na capital federal nesta sexta-feira (9), data em que é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, e segue até o dia 13.

Com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”, a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas pretende trazer à tona discussões como direito a território, políticas governamentais, violência de gênero, machismo e homofobia.

Para garantir a presença de mulheres de cinco regiões do Brasil, a organização da marcha criou uma vaquinha virtual com a intenção de arrecadar fundos para a infraestrutura do evento, hospedagem e alimentação.

A meta da arrecadação é de R$ 50 mil. Até a noite desta sexta-feira (8), cerca de 72% já estava batida. De acordo com estimativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), é esperada a participação de duas mil mulheres.

“No momento que a gente está vivendo, em que um governo que é totalmente contra as nossas organizações, ficou muito mais difícil conseguir recursos. E a vaquinha vem para isto: garantir a participação e a ajuda de quem estiver disposto”, diz Maura Arapiun, 23, membro do Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns e uma das organizadoras da marcha.

Adriano Machado / Reuters
Sônia Guajajara, que foi candidata à vice-presidência, ao lado de Joênia Wapichana, primeira deputada indígena eleita no Brasil.

Segundo Arapiun, a ideia da marcha não é nova, mas floresceu durante conversas com outras mulheres durante o Acampamento Terra Livre (ATL), que aconteceu em abril deste ano, também em Brasília.

“A gente começou a fazer nossos fóruns, nossos grupos de conversa, e este ano se intensificou a discussão de nós, enquanto mulheres indígenas, ocuparmos o nosso espaço e qual seria a nossa importância nesse processo.”

Protagonismo da mulher indígena e outros temas serão debatidos no fórum de quatro dias que precederá a marcha e está previsto para acontecer na Funarte. Ele será realizado de hoje, sexta-feira, até 12 de agosto. Em seguida, dias 13 e 14, as indígenas se juntam à Marcha das Margaridas (leia mais abaixo).

Divulgação/Apib
Marcha divulga programação oficial do evento.

“A gente acredita que tem um papel muito importante na defesa do nosso território. E o que é esse território? É tudo que cabe aos nossos povos, é a nossa cultura. E hoje se torna mais necessário de mostrar que nós, mulheres, estamos nesses territórios que estão ameaçados”, afirma Arapiun.

Paulo Whitaker / Reuters
Mulheres indígenas marcham no Dia Internacional da Mulher.

Cerca de 448 mil mulheres indígenas vivem no Brasil, entre 305 povos espalhados pelo território nacional, segundo dados de 2010 do IBGE

Segundo a organização, até o momento, 1500 mulheres de várias aldeias e povoados distintos estão confirmadas. Nesta sexta e sábado, começam a chegada de algumas delegações de todo o País; cerca de 32 são esperadas. 

Célia Xacriabá, 30, uma das organizadoras da marcha e representante da Apib, considera que, além de um significado político, a marcha pretende ser um espaço de troca e criar um processo curativo para essas mulheres.

Nossa expectativa é de que essas trocas de narrativa, de história, da memória, possam fortalecer.Célia Xacriabá, representante da Associação dos Povos Indígenas (Apib)

“Nossa expectativa é de que essas trocas de narrativa, de história, da memória, possam fortalecer, ser um alimento para que elas voltem fortalecidas, que pensem no processo de gestão do território; no seu ser professora, parteira, raizeira, que essa troca de possa servir como conhecimento e cura”, diz.

Já no dia 14, duas forças de mobilização se encontram: a Marcha das Mulheres Indígenas se junta à Marcha das Margaridas, realizada desde 2000 pelas mulheres do campo — quilombolas, ribeirinhas, trabalhadoras rurais e que combatem a mineração e seus efeitos. São esperadas 100 mil mulheres.

Esta será a sexta vez em que as “margaridas” marcham - e a primeira vez ao lado das indígenas. Neste ano, o tema escolhido pela organização foi “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”.

A marcha é uma homenagem à sindicalista Maria Margarida Alves, assassinada em 12 de agosto de 1983, a mando de latifundiários de Alagoa Grande, na Paraíba. Na época, ela presidia o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

1ª Marcha das Mulheres Indígenas e Marcha das Margaridas

Fórum Nacional das Mulheres Indígenas

Data: Data: 9 a 12 de agosto 

Local: Funarte

1ª Marcha das Mulheres Indígenas + Marcha das Margaridas

Data: 13 e 14 de agosto