MULHERES
15/10/2019 02:00 -03 | Atualizado 15/10/2019 02:00 -03

Por que as indianas optam por casamentos arranjados, apesar de encará-los com desconfiança

“Mamãe e Papai sabem o que é melhor.”

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Representative image.

Desde o início havia sinais de quem nem tudo ia bem. Quando ela tentou contato físico casual com ele, ele recuou. Ela tentou abordá-lo sexualmente; ele deu a entender que ela estava desesperada. Ela se casou com ele mesmo assim. Não demorou para ela chegar ao consultório de Narendra Kinger, psicólogo e terapeuta de casais, em Mumbai. Contou ao psicólogo que foi aconselhada a testar sua compatibilidade sexual com o homem que seus pais haviam escolhido para ela e revelou que a rejeição dele lhe provocou muito constrangimento. Mesmo assim, ela embarcou na ideia de que as coisas melhorariam depois do casamento – só que isso não aconteceu.

Kinger disse ao HuffPost India: “O comportamento dele deveria ter soado o alarme imediatamente, mas ela optou por ignorar os sinais. Graças ao condicionamento social que existe na Índia em relação ao sexo, minha cliente supôs que ele estivesse apenas agindo como cavalheiro. Além disso, ela não conseguia encontrar as palavras certas para transmitir o que estava errado à sua família e ao homem com quem estava de casamento marcado. Agora, poucos meses depois de se casar, ela já está pensando em divórcio.”

As jovens na Índia continuam a optar pelo casamento arranjado, tanto que há mais de 1.500 sites de matrimônio no país. Mas a psicóloga clínica Anindita Chowdhury explica que, apesar da popularidade dos casamentos arranjados, muitas mulheres desconfiam desses relacionamentos. Ela já chegou a ter clientes que contrataram investigadores particulares para descobrir mais sobre seus noivos. Elas têm menos receios do que no passado porque hoje têm voz mais ativa na escolha do noivo do que era comum antes, mas mulheres jovens, com alto grau de instrução e financeiramente independentes continuam a sentir o peso das expectativas culturais e a fiar-se na “sabedoria” dos mais velhos. Veja algumas das razões por que casamentos arranjados (ou semiarranjados) ainda são uma opção tão comum para as indianas.

  1. A mentalidade de que “os pais sabem melhor o que é bom para suas filhas”

As mulheres na Índia sentem mais certeza de que vão contar com o apoio da família se se casam com homens escolhidos por seus pais. “A sabedoria somada dos familiares dá mais segurança à mulher jovem. Se houver algum problema, elas supõem que a família inteira vai se mobilizar para resolvê-lo”, diz a Dra. Nirmala S. Rao, diretora do Aavishkar Centre for Self Enrichment.

Nove anos atrás, quando Sanchita Guha (o nome foi mudado), 34 anos, de Chandigarh, rompeu com o companheiro com quem vivia sem estar casada,  perdeu a fé em si mesma e nos casamentos feitos por amor. “Vivi com aquele homem por um ano e não tinha conseguido enxergar quem ele era de fato. Percebi que eu não era capaz de tomar uma decisão acertada sozinha. Então quando meus pais me pediram para vir conhecer um homem que eles conheciam e de quem aprovavam, eu não hesitei. Sabia que seria o melhor para mim”, diz Guha, hoje bem casada e mãe de dois filhos.

Segundo Rao, as mulheres frequentemente abandonam o homem que amam quando acham que seus familiares têm reservas em relação a ele. Priya Kapoor (o nome foi mudado), 26 anos, de Déli, concorda. Seus pais não eram completamente contra o homem com quem ela estava saindo, mas ela percebeu que eles ficariam mais tranquilos se ela se casasse com alguém de quem eles aprovavam.

“Depois de namorar aquele homem mais de três anos, comecei a sentir que era apenas eu quem se esforçava para fazer o relacionamento dar certo. Quando ele me disse que não estava preparado para se casar, decidi que era hora de seguir adiante sem ele. Conversei com meus pais e falei a eles que eu precisava de um companheiro. Meus pais me conhecem melhor do que eu mesma me conheço. Eu confiava no julgamento deles”, diz Kapoor.

Ela acabou se casando com o primeiro homem que seus pais escolheram para ela. “Namoramos por seis meses, e durante esse tempo eu me senti mais amada do que em qualquer momento do meu relacionamento anterior”, ela conta. “Meu noivo, que hoje é meu marido, respeitava meus pais e me incentivava a correr atrás de meus objetivos profissionais. Eu lhe contei sobre meu ex, mas ele disse que não se importava com meu passado. Estou casada e feliz há seis meses. Evidentemente, meus pais sabiam o que era melhor para mim.”

  1. Não conhecer o homem certo na hora certa

“Onde podemos conhecer homens interessantes que poderíamos querer como marido?”. A psicóloga e consultora de saúde reprodutiva Anindita Chowdhury, de Kolkata, conta que clientes suas lhe perguntam isso com frequência. Como ela disse ao HuffPost Índia, muitas dessas clientes são mulheres jovens, com alto grau de instrução e financeiramente independentes. A política corporativa às vezes as impede de namorar colegas homens que elas talvez achassem interessantes. Além disso, seus horários de trabalho lhes deixam pouco tempo e oportunidades para conhecer homens fora do trabalho. Os fins de semana muitas vezes passam rápidos, consumidos por tarefas de casa e encontros com amigos e familiares. Sobra pouco tempo para elas ativamente procurarem parceiros com quem possam se casar.

“Quando as mulheres finalmente encontram tempo para se casar, já estão com 30 anos, que é tarde demais segundo os padrões da Índia. Quase todos os homens que elas conhecem já estão casados ou saindo com alguém. É nessa hora que as mulheres pedem a seus pais para lhes encontrarem um parceiro apropriado. Idealmente elas prefeririam se casar com alguém que já conhecessem e amassem, mas elas sentem que não há mais tempo para isso”, diz a psicóloga.

Outra coisa é que as mulheres independentes, que se sustentam com seu próprio trabalho, querem um homem tão bem-sucedido quanto elas, ou mais. Segundo Kinger, os casamentos arranjados funcionam porque geralmente só ocorrem depois de muita investigação do passado pessoal e profissional do homem. A família da mulher pode avaliar seu “caráter, estabilidade financeira, reputação no mercado, condições de vida, origem educacional e ocupacional”.

Muitas mulheres concordam em se casar com uma pessoa que não conhecem depois de passar por um rompimento doloroso. ... Com isso, perdem a confiança nelas próprias e questionam as escolhas que fizeram.
  1. Um coração partido ou um romance que não deu certo

Um relacionamento que não deu certo também pode levar uma mulher a cogitar a possibilidade de um casamento arranjado. Em seus dez anos prestando atendimento clínico, a psicóloga e psicoterapeuta Sahely Gangopadhyay, de Kolkata, já testemunhou essa dinâmica diversas vezes. “Muitas mulheres concordam em se casar com uma pessoa que não conhecem depois de passarem por um rompimento doloroso. Uma coisa que se tornou muito comum em função de escolhas profissionais são os relacionamentos à distância. Infelizmente, poucos desses relacionamentos perduram. Com isso, as mulheres perdem confiança nelas próprias e questionam as escolhas que fizeram”, diz Gangopadhyay.

Sanchita Guha conta que sentiu exatamente isso, e mais. “Eu vivia com um homem sem ser casada, e quando esse relacionamento terminou, me senti uma idiota. Comecei a fazer uma introspecção e percebi que meus casos de amor sempre seguiam o mesmo padrão. Todos os rapazes com quem namorei eram como eu: divertidos e despreocupados.” O homem escolhido por seus pais, que hoje é seu marido, era o oposto –discreto, reservado e respeitoso. Depois de sete anos de casamento feliz e tranquilo. Guha agradece a seus pais por sua sabedoria e por terem feito uma boa escolha.

Para muitas indianas, um casamento arranjado é a melhor maneira de curar um coração partido. “É quase como uma reação a uma decepção amorosa”, diz Gangopadhyay. Para ela, a longevidade e qualidade da união conjugal dependem da capacidade das duas pessoas de se compreenderem e formarem um vínculo mútuo.

  1. A rejeição por outros parceiros potenciais

Na Índia, o valor de uma mulher muitas vezes é medido por seu casamento. A mulher é condicionada a acreditar que ser aceita por um homem a torna mais bela, mais desejável, mais socialmente aceitável e uma pessoa de mais valor. Assim, quando sua família começa a procurar um possível noivo para ela, em vez de examinar o homem e sua família, a mulher quer desesperadamente ser aceita como noiva “apropriada”.

Poorva Zaveri (o nome foi mudado), 34 anos, vive em Kolkata e tinha 26 quando se casou. Ela tinha um bom emprego e estava gostando de viver sozinha em Hyderabad, mas seus pais decidiram que era hora de ela formar sua própria família. “Hoje estou divorciada, feliz e com um filho de 6 anos”, ela conta ao HuffPost.

Zaveri disse que durante o período de namoro, ela ignorou todos os sinais de que nem tudo estava indo bem. “Estava na cara que éramos incompatíveis, mas fui adiante com o casamento assim mesmo. A razão disso foi minha insegurança, depois de ter sido rejeitada por dois outros rapazes a quem meus pais me apresentaram antes dele. Quando meu ex-marido me aceitou como noiva, me senti validada. Eu era jovem e tolinha. Não tinha aprendido a me amar e me aceitar incondicionalmente”, ela explica.

Zaveri diz que se uma mulher concorda em fazer um casamento arranjado, precisa aceitar as rejeições sem se deixar abalar e entender que cada homem terá suas preferências, que não constituem um reflexo do valor da mulher.

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Silhueta de homem e mulher furiosos um com o outro.
  1. As meninas são desencorajadas a fazer perguntas desde a infância

A maioria das famílias na Índia ensina as meninas a aceitar o que seus familiares lhes dizem. As meninas não são incentivadas a questionar os mais velhos, especialmente não os homens da família. Quando uma garota é aconselhada a não andar na companhia de meninos, ela obedece. Quando lhe dizem que ela não pode trabalhar para uma empresa porque talvez precise trabalhar até mais tarde da noite, ela abaixa a cabeça. Quando a família lhe pede para se casar com um homem que ela nem sequer conhece, a mulher segue o roteiro que seguiu desde sempre e concorda. Ela diz a si mesma que sua vida até agora deu bastante certo. Então por que deveria ser diferente se ela agora terá que viver com um homem que seus pais escolheram para ela?

Separada depois de oito anos casada, Poorva Zaveri reflete que deveria ter compartilhado seus receios com sua família, em vez de simplesmente pressupor quais seriam as reações de seus pais. “Eu fui adiante com o casamento apesar dos sinais que me diziam que não deveria, porque meu pai já havia investido muito dinheiro na cerimônia e nos preparativos. Imaginei que se eu cancelasse o casamento, meus pais morreriam de vergonha e ficariam em maus lençóis financeiros. Hoje estou vivendo com eles de novo, com meu filho junto, e eles me dizem que nada era mais importante para eles que minha felicidade. Eu queria ter sabido disso antes.”

Essa incapacidade de questionar as decisões ou motivações de outros não muda nem mesmo após o casamento. Kinger nos conta de um casal que o procurou para uma consulta. Quando ele perguntou ao marido por que se casara com aquela mulher, ele disse que tinha visto cem garotas antes de escolher aquela. A esposa sabia disso e ficou bem impressionada pelo fato de ele ter rejeitado tantas outras candidatas antes de optar por ela. Kinger comenta: “Eu disse a ele que, se ele a escolhera no meio de tantas outras mulheres, devia ter identificado algo de excepcional nela. A resposta dele me chocou. Ele disse: ‘Não havia absolutamente nada de especial nela’. Disse que estava cansado depois de entrevistar tantas mulheres e não queria ser obrigado a passar por todo o processo de seleção mais uma vez. Ele repetiu que não enxergou nada de excepcional nela. A mulher ficou arrasada. O ideal teria sido ela perguntar a ele já de início por que motivo ele queria se casar com ela.”

  1. O casamento entre pessoas de religiões ou castas diferentes é estigmatizado

Muitos meninos e meninas na Índia são doutrinados para acreditar que sua própria religião, casta e comunidade são superiores a todas as outras. As famílias proíbem os relacionamentos ou casamentos entre pessoas de castas ou religiões diferentes, e as crianças crescem com esse viés.

“Casar-se com uma pessoa da mesma casta ou comunidade é visto como algo de importância maior”, disse Kinger ao HuffPost Índia. “Teremos que esperar mais algumas décadas antes de essas restrições serem derrubadas pelos casamentos entre pessoas de religião e classe social diferente.”

Swati Rai (o nome foi mudado), 29 anos, de Mumbai, estava tendo um relacionamento à distância com um homem de outra casta. O homem estava disposto a conhecer a família dela, mas Rai diz que não tinha coragem de falar com seus pais sobre isso. “Quando meus pais quiseram que eu me casasse com um homem que eles tinham escolhido, eu aceitei. Aquilo partiu meu coração e o de meu ex, mas eu sabia que minha família jamais me deixaria casar com ele. Eu podia encarar viver minha vida sem ele, mas não sem meus pais”, ela explicou.

Em última análise, para muitas indianas contar com o apoio da família é mais importante do que qualquer vínculo que elas possam formar por conta própria.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost India e traduzido do inglês.