OPINIÃO
20/09/2020 04:00 -03 | Atualizado 20/09/2020 08:36 -03

Na política, mulheres transformam o medo em impulso mobilizador

"Não podemos, de forma alguma, nos deixar paralisar."

Olhe ao seu redor, suas telas, feeds e timelines. Não dá a impressão de que somos testemunhas de um acidente? Está acontecendo neste exato momento, vai se desenrolando à nossa frente, em câmera lenta, lentíssima, frame a frame, mas já sabemos como vai terminar: numa tragédia terrível, com muitas mortes, feridos e traumas. É estranha a sensação de prever o futuro e ainda assim se sentir impotente. Mesmo conhecendo o desfecho, parece que não temos muito a fazer para alterá-lo.

O medo se tornou uma certeza. Aquela sensação que uma vez tivemos de estar avançando na questão dos direitos humanos e evoluindo como democracia foi pouco a pouco se desfazendo. A pandemia e o genocídio, fruto do negacionismo, da incapacidade e da crueldade do governo, reagiram entre si de forma macabra e geram desconfiança e paralisia. A falta de perspectiva passou a dar o tom a nossas vidas privadas e públicas.

Alguns meses atrás, uma pesquisa divulgada pela Pew Research Center mostrou, a partir de um levantamento em 27 países, que a maioria da população está insatisfeita com o funcionamento da democracia. A turma dos descontentes é guiada essencialmente pela frustração econômica, pelo cerceamento dos direitos individuais, pela (in)justiça e pelo descrédito na política. E, no Brasil, essa aglomeração é uma das maiores: mais de 80% se declararam desiludidos.

Como podemos renovar a esperança? Como iluminá-la onde imperam a ameaça e a intimidação? Como lidar com a ideia de um futuro que parece mais sombrio que o passado? De onde tirar forças para caminhar entre o que já é ruína e começar a construir tudo de novo?

Encontrei dezenas de mulheres de que, justamente a partir do medo de viver num ambiente brutalmente machista, criaram coragem para tentar mudar essa realidade.

Do alto dos meus privilégios, sempre me considerei uma otimista incansável. Mas precisei amarrar um barbantinho no dedo para não me deixar abater e lembrar que, na política, o medo e a esperança vão sempre coexistir.

O barbantinho está lá desde 2019, quando fiz uma série de viagens para entrevistar mulheres eleitas para cargos políticos na Argentina, na Bolívia, no Chile, na Colômbia, no México e por todo o Brasil. Alguns desses países têm os maiores índices de feminicídio do mundo, para não falar da onipresente violência política de gênero. Em cada um deles, no entanto, encontrei dezenas de mulheres de que, justamente a partir do medo de viver num ambiente brutalmente machista, criaram coragem para tentar mudar essa realidade. O que as une, não importa o partido ou a linha ideológica, é a esperança – que ali tomou a forma da consciência política de gênero. 

Isso me fez perceber que nossa única esperança de ter esperança é transformar o medo num impulso mobilizador. Não podemos, de forma alguma, nos deixar paralisar.

Confesso que, dia após dia, quando abro aquela rede social do desespero, o amigo Twitter, me sinto angustiada. É tanta informação para digerir, tanta emoção para absorver, tanta barbaridade para combater que fica difícil segurar as pontas e não ser tragada pelo caos. É nessas horas que faço o que posso para dar um cavalo-de-pau e tomar a rota da esperança. A voz da Gal me guia: “É preciso estar atento e forte”. Depois deixo vir também a Clarice: “Eu não lembrara de dizer que sem o medo já havia o mundo”. 

Essas palavras só me dão mais certeza de que o caminho para reencontrar, reaquecer e renovar a esperança está no reconhecimento do medo. É duro, eu sei, um verdadeiro teste de sanidade, mas vivemos um momento de ressignificações: hoje, aqui, a esperança não precisa ser expansiva. Pelo contrário, ela será de reação e contenção dos retrocessos.

Escolher entre o caminho do medo e o da esperança é uma decisão que a política nos obriga a tomar a todo instante.

E as mulheres eleitas não são as únicas a furar a barreira do medo e ousar propor novas referências. Quando milhares de pessoas vão às ruas em plena pandemia para protestar contra atos racistas, juntam o medo de viver numa sociedade violenta à coragem de combater essa herança colonial e escravocrata. Algo muito parecido fizeram os jovens que lideraram a greve climática: admitindo o medo de habitar um planeta em colapso, reafirmaram a coragem de querer lutar pela vida na Terra, mostrando a potência dessa geração.

E mais: se olharmos bem, agora que tem tanta gente começando a ir atrás de informações sobre racismo, fascismo, machismo e tudo o mais, vamos ver outras pontas de esperança por aí. Pode parecer pouco, mas, ao buscar conhecimento, essas pessoas estão fazendo a esperança germinar. 

A esperança recusa um mundo fechado, isolado, imutável. Tem a convicção de que sempre vão existir soluções para impasses aparentemente incontornáveis. E, como bem diz o velho ditado, é a última que morre. Precisamos então insistir, engajar a quem for possível nessa resistência que é nossa única perspectiva de futuro. 

Estamos cansados, todos nós. Talvez eu tenha abusado da sua paciência, mas precisava lembrar que escolher entre o caminho do medo e o da esperança é uma decisão que a política nos obriga a tomar a todo instante. E que, ao seguir pelo caminho da esperança, não vai ser um problema levar um pouquinho de medo na bagagem. A verdade é que ele pode até nos ajudar a chegar lá.

*Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos do site.

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