MULHERES
25/06/2019 10:00 -03

Projeto promove formação de mulheres com deficiência e cuidadoras

Iniciativa visa quebrar o ciclo de invisibilidade dessas brasileiras e oferecer ferramentas para uma vida autônoma e independente.

Divulgação/+UM coletivo
Ana Rita de Paula, na cadeira de rodas, é uma das principais porta-vozes da luta de pessoas com deficiência no Brasil.

Apesar de haver cerca de 25 milhões de mulheres com deficiência no Brasil, elas ainda não são devidamente ouvidas e respeitadas. Para quebrar esse ciclo de invisibilidade e dar voz ativa a essa parcela da população, surgiu o projeto Vozes Femininas, com o intuito de formar uma rede de líderes femininas com informação e capacidade de transformar o mundo a sua volta.

A formação foi idealizada por um grupo de ativistas ligados aos direitos das pessoas com deficiência no Brasil. A iniciativa foi viabilizada pelo órgão global Rehabilitation International, com apoio da BRASA, organização focada em promover os direitos humanos, especialmente de pessoas em situação de vulnerabilidade. Mães e cuidadoras de pessoas com deficiência também são convidadas a participar.

“As mulheres com deficiência têm um mundo de questões que vão desde a autoestima até a dificuldade de participar do mundo do trabalho e se formar. Infelizmente nenhum movimento de pessoas com deficiência e nem o movimento feminista dão espaço suficiente para essas questões”, relata a ativista Ana Rita de Paula, uma das idealizadoras do projeto.

De Paula é uma das precursoras na luta pelos direitos das pessoas com deficiência no País. Foi no início dos anos de 1990 que a a ativista mergulhou em questões relacionadas com o universo das mulheres com deficiência, com a publicação da tese de mestrado Corpo e Deficiência, Espaços do Desejo. Reflexões sob(re) a Perspectiva Feminina.

Segundo a especialista, o Vozes Femininas vem ao encontro de outras iniciativas de instituições internacionais. A ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, busca ampliar a presença feminina no comitê de acompanhamento da convenção dos direitos das pessoas com deficiência, um dos principais documentos para a garantia de direitos dessa parcela da população em diversos países. 

O projeto, que foi lançado neste mês, consiste em oito encontros presenciais na cidade de São Paulo até o final do ano para tratar de temas como autoestima, direitos sexuais e reprodutivos, educação e trabalho, política de saúde, reabilitação e vida independente. Por meio de uma plataforma de educação à distância, as participantes também terão acesso a uma série de materiais relacionados à temática feminina e às mulheres com deficiência.

Reconhecimento da deficiência

A designer Joyce Rocha, 26, tem transtorno do espectro autista. Ela passou por um longo processo até se reconhecer como uma mulher com deficiência. “Até um certo momento da minha vida, eu achava que quando uma pessoa se queixava de alguma dificuldade, aquilo era frescura, pelo fato de eu ser negra, ter uma deficiência, ser mulher e da periferia”, conta.

Ela só foi ter uma percepção maior da condição que possuía quando começou a ter mais contato com outras visões de mundo e experiências. Foi nessa caminhada de compreensão e desconstrução de antigas visões que a jovem passou a ouvir outros grupos e chegou ao projeto Vozes Femininas.

Com o projeto, Rocha teve acesso a um mundo de possibilidades e informação antes presentes de forma muito restrita. “Uma das minhas principais dores é pensar na saúde da mulher, algo que eu nunca tinha refletido antes. Eu ainda tenho muita dificuldade em ter acesso a um serviço que me acolha de fato, diante das necessidades que eu tenho enquanto mulher com autismo”, conta.

Para a jovem, portanto, o projeto é uma forma de compartilhar informações, vivências e soluções para problemas relacionados à invisibilidade da mulher com deficiência na sociedade.

Embora tenha uma vivência de vida diferente de Rocha, a psicóloga Paolla Vicentin, 25, também passou a ter contato com a temática recentemente. Ela adquiriu uma deficiência física em outubro de 2013, quando sofreu um acidente em um casamento, depois de pisar em uma claraboia que estourou. Ela caiu de uma altura de cinco metros e ficou tetraplégica. Mas conseguiu voltar a andar meses depois.

A deficiência física persiste na perna esquerda, onde ela usa uma órtese, além de não conseguir executar movimentos finos com o braço esquerdo.

Antes do acidente, ela nunca tinha reparado com atenção em pessoas com deficiência. De classe média alta, foi na faculdade que a jovem passou a ter maior consciência social e política, além de se dar conta da desigualdade de oportunidades.

“A partir de então, eu comecei a me enxergar no papel de mulher com deficiência. Isso começou a me ajudar a ressignificar algumas dores”, diz. Apesar de ter muita autonomia e independência hoje, ela tem muitas limitações e sofre preconceito com frequência.

A dificuldade motora só é percebida quando Vicentin caminha — fato que causa algumas confusões, como ser hostilizada por parar em uma vaga reservada a pessoas com deficiência. Para ela, o grande triunfo do projeto vozes femininas, segundo a jovem, é compartilhar histórias e dores semelhantes com outras mulheres.

Superproteção familiar

A jornalista e especialista em comunicação corporativa Fátima El Kadri acredita que o projeto Vozes Femininas vai mostrar às mulheres com deficiência que elas podem e devem ter uma vida plena e independente. Com uma deficiência motora decorrente de paralisia cerebral, El Kadri conquistou uma maior autonomia de forma tardia.

Segundo ela, um dos fatores que dificultaram sua emancipação foi a superproteção dos pais. “Não é de forma voluntária, mas existe uma superproteção da família. Quando você nasce mulher, já existe uma ideia de que você é frágil e, com a deficiência, essa questão fica ainda mais forte”, diz.

No decorrer do tempo, a jornalista conseguiu mostrar para os pais que era autossuficiente para trabalhar, estudar e se relacionar afetivamente com outras pessoas.