NOTÍCIAS
13/08/2020 19:07 -03

As movimentações financeiras de Flávio Bolsonaro e suas contradições

Senador disse não se lembrar que pagou com dinheiro em espécie a compra de apartamentos. Suspeita é que o dinheiro seja oriundo de ‘rachadinhas’.

Ueslei Marcelino / Reuters
A estimativa é que a família Bolsonaro tenha movimentado quase R$ 3 milhões em espécie, em valores corrigidos, em 24 anos.

Nesta quinta-feira (13), veio a público a informação de que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) afirmou não se lembrar de ter pagado com dinheiro em espécie a compra de apartamentos no Rio de Janeiro. A declaração feita em depoimento ao Ministério Público do Rio foi revelada pelo jornal O Globo. A justificativa do senador é mais uma peça no quebra-cabeça que envolve a atípica movimentação econômica da família Bolsonaro e a suspeita de “rachadinha”.

De acordo com os promotores que investigam o caso, há suspeita de que os dois imóveis comprados em 2012 com dinheiro vivo tenham sido registrados abaixo do valor. Isso porque foi identificado um depósito em espécie de R$ 639 mil pelo vendedor em um banco que fica na rua do cartório onde foi lavrada a escritura da compra pelo valor de R$ 310 mil no mesmo dia da transação financeira.

Ao ser questionado, Flávio respondeu que não se recordava. “Se eu não me engano, foi por transferência bancária esse sinal. Cheques. E, no dia, eu paguei as duas salas junto com a minha esposa no próprio cartório”, disse. Os procuradores identificaram os depósitos do cheques do sinal da compra. Houve um de R$ 100 mil e depois outros que somaram R$ 210 mil. No dia da efetivação da transação, os dois cheques e o dinheiro em espécie foram depositados.

Informado sobre o depósito em espécie, Flávio afirmou que não sabia.  “Se o cara tinha esse perfil [de corretor de imóveis], certamente não devia estar fazendo só isso, né?”, disse. Esses imóveis foram revendidos por Flávio um ano depois da compra por R$ 813 mil. Ainda de acordo com O Globo, o senador admitiu que a compra de 12 salas comerciais em 2008 teve parte do pagamento feita em espécie, foram R$ 86,7 mil.

A estimativa é que a família Bolsonaro tenha movimentado quase R$ 3 milhões em espécie, em valores corrigidos, em 24 anos. Este tipo de operação não é ilegal, mas é geralmente usado em práticas de lavagem de dinheiro porque dificulta o rastreamento da origem do dinheiro. Além da compra de imóveis, a família também usou dinheiro em espécie para pagamento de boletos, como mensalidade de escolas e de planos de saúde.

Recentemente foi noticiado que dois desses boletos foram pagos pelo ex-assessor do senador, Fabrício Queiroz. Os boletos somam R$ 6,9 mil e foram quitados em 2018.

A suspeita é que recursos usados para compra dos imóveis sejam oriundo do esquema de “rachadinha”, o qual tem Queiroz como um de seus alvos de investigação. Também nesta semana, procuradores avançaram no detalhamento dos depósitos que abasteceram o esquema. Dados da quebra de sigilo bancário da filha de Queiroz, Nathália, mostraram que ela continuou fazendo repasses à conta do pai mesmo quando empregada no antigo gabinete do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados.

Ela transferiu R$ 150.539,41 entre janeiro de 2017 e setembro de 2018 — equivalente a 77% do salário total que Nathália recebeu. Segundo a Folha de S.Paulo, as transferências eram realizadas na semana em que o salário caia na conta. Os depósitos cessaram quando ela foi exonerada — próximo ao segundo turno da campanha presidencial.  Há uma investigação aberta que apura suspeita de vazamento na informação de que as movimentações atípicas estavam sendo investigadas.

Vale destacar que ao mesmo tempo em que era funcionária no gabinete do então deputado, ela também trabalhava como personal trainer no Rio de Janeiro.

Este mês já havia sido noticiado que Queiroz também depositou R$ 72 mil em contas da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, entre 2011 e 2018. O ex-assessor de Flávio foi preso em junho em Atibaia (SP) na casa de Frederick Wassef, então advogado do senador. Ele ficou detido por três semanas até que lhe foi concedida pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) a prisão domiciliar. Para justificar o benefício, o presidente da corte, João Otávio de Noronha invocou a calamidade originada pela pandemia de coronavírus. Márcia Aguiar, que estava foragida desde a prisão do marido, também recebeu o benefício, apareceu e foi para prisão domiciliar.

A defesa de Queiroz tem afirmado que havia centralização das despesas familiares nas mãos de Queiroz, por isso ele tinha acesso aos recursos. Já os advogados de Flávio negam as suspeitas e afirma que “o patrimônio do senador é totalmente compatível com seus rendimentos e isso ficará inequivocamente comprovado dentro dos autos” do processo sobre a “rachadinha”.