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27/01/2020 17:56 -03 | Atualizado 27/01/2020 20:47 -03

'Esqueceu a ética e a moral', diz Mourão sobre Witzel após divulgação de vídeo

Governador do RJ gravou conversa por telefone com presidente em exercício sem avisar. No Planalto, divulgação foi vista como tentativa de autopromoção.

Adriano Machado / Reuters

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, protagonizou mais uma polêmica com o governo federal. Desta vez, foi com o vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Ele gravou - sem avisar Mourão - e divulgou em suas redes sociais um telefonema entre os dois no qual pede ajuda a cidades cariocas atingidas pelas chuvas. 

Mourão está como interino na Presidência da República enquanto o presidente Jair Bolsonaro está fora do País - ele retorna amanhã de visita à Índia. No vídeo, Witzel chama o vice várias vezes de “presidente”. 

Confira a conversa:

Witzel: Senhor presidente, boa tarde!

Mourão: Boa tarde, governador, tudo bem?

Witzel: Tudo bem! Presidente, estou aqui em Porciúncula, uma região muito afetada, Porciúncula, a região de Itaperuna...

Mourão: Estamos cientes, estamos cientes, governador.

Witzel: O maior problema, agora, presidente, é água. Estou com uma grande quantidade de água lá no Rio de Janeiro e precisava trazer para cá. E, realmente, a população aqui de Porciúncula é de 15 mil pessoas sem água. Estou indo para uma outra região daqui, Bom Jesus (de Itabapoana), também sem água porque as bombas da Cedae estão submersas, está a metade da cidade submersa. Nós já pedimos para o Ministério da Defesa para fazer o protocolo e aí estou passando para o senhor essa nossa necessidade.

Mourão: Vou falar com o ministro Fernando para intensificar isso aí. O ministro Canuto está lá em Minas Gerais e no Espírito Santo. Aí, qualquer coisa a gente apoia mais alguma coisa aí no Rio de Janeiro, governador. Fica tranquilo.

Witzel: Obrigado, presidente! Vou avisar os prefeitos que estão aqui comigo. Vou comunicar a eles. Obrigado! Agradeço o apoio do senhor e da União! 

Ao chegar ao Planalto esta manhã, após a postagem do vídeo, Mourão disse que Witzel “esqueceu a ética e a moral”. Pouco depois, destacou ter conversado com Jair Bolsonaro. “O presidente só disse que é uma coisa que não é ética. É óbvio. Se você vai gravar alguém, você diz: ‘Olha, vou te gravar aqui, porque vou te botar para o povo do Rio de Janeiro, para saber que eu estou atuando’. Ok, beleza, 100%”, completou o vice-presidente. 

Bolsonaro também se pronunciou, ainda na Índia, neste sentido. “Pelas imagens, ele está no seu carro e um assessor filma. E ele liga para o presidente em exercício. Acho que não é usual alguém fazer isso. Eu não gostaria que fizessem comigo qual seja o assunto. O que se trata por telefone, tem que ser reservado”, disse.  

Frente à repercussão, a assessoria do governador divulgou uma nota, na qual pondera a atitude e diz que o vídeo teve “a intenção de tranquilizar os moradores de cidades do noroeste do estado, fortemente atingidas pelas chuvas”.

“A informação de que os governos estadual e federal estarão juntos para atender demandas básicas da população da região não tem qualquer outra conotação que não demonstrar união num momento de necessidade do povo. Por isso é importante e de interesse público”, destaca o texto. 

Witzel ainda postou mais um vídeo nas redes alegando ter feito a primeira gravação como um apelo por “união”. 

Internamente, no Palácio do Planalto, a postura do governador carioca foi encarada como uma tentativa de “autopromoção”. Witzel e Bolsonaro são adversários políticos. O presidente e sua família, inclusive, acusam o governador, recorrentemente, de perseguição contra o clã. Em 24 de dezembro, em uma entrevista ao programa do Datena, o mandatário chegou a insinuar que Witzel se valeria da Polícia Civil do estado para plantar provas falsas contra um de seus filhos

Nesse jogo de inimigos, Mourão tem feito o papel de mediador. No ano passado, não só Witzel, como vários outros governadores considerados adversários políticos do presidente - que, aliás, não tem o costume de receber os chefes dos estados - foram recebidos e tiveram causas intermediadas pelo vice-presidente.

Mourão é considerado “político” e mais “ponderado”, e, apesar de ter ficado “muito incomodado”, não se acredita que o ocorrido tenha “implodido pontes”. Fontes palacianas disseram ao HuffPost, no entanto, que “talvez Witzel passe por um período de geladeira”. Mas a avaliação também é que não se pode “virar as costas” definitivamente para o governador, especialmente por conta da população do estado.