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29/12/2019 08:40 -03

Mourão, um vice no avião: foram 50 viagens no 1º ano de governo

Vice-presidente tentou apaziguar ânimos com China e Argentina e teve vários encontros com empresários. Viagens nem sempre agradaram Bolsonaro.

Reprodução/@GeneralMourao
Vice-presidente embarca para Argentina para participar da posse de Alberto Fernández.

Em busca de protagonismo no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão encontrou seu espaço neste primeiro ano da gestão Jair Bolsonaro viajando. Foram 50 viagens até o dia 27 de dezembro. É quase como se, a cada semana de 2019, ele tivesse saído de Brasília para uma nova empreitada. Destas viagens, seis foram internacionais. 

O levantamento realizado pelo HuffPost leva em conta as vezes em que o vice-presidente embarcou no avião da Força Aérea em Brasília, sem considerar todas as cidades nas quais ele esteve - se assim fosse, o número seria bem maior, uma vez que houve deslocamentos em grande parte das jornadas. 

O que chama mais a atenção na agenda deste primeiro ano são os encontros com empresários. Vários. Não apenas nas peregrinações do vice-presidente Hamilton Mourão pelo País e também pelo exterior, como também na agenda interna, em seu gabinete. Ele tem sido elogiado, nos bastidores, por parte da equipe econômica e por setores empresariais pela articulação, pela capacidade de comunicação e pela diplomacia.  

Em entrevista ao HuffPost no dia 12 de dezembro, Mourão disse que suas movimentações servem para levar “as ideias” do governo “para determinados grupos”. “Eu trabalho para auxiliar o desempenho do governo do presidente Bolsonaro. Então, [faço isso] dentro da via de acesso que ele me deu, dos limites que ele me concedeu para eu realizar o meu trabalho, uma vez que o vice-presidente não tem nenhuma tarefa definida pela Constituição, né? São grupos mais restritos. Vamos dizer que é um trabalho de propaganda e de conquista de corações e mentes para as reformas que temos que realizar”, disse.

Na verdade, as viagens são parte do espaço que lhe é permitido exercer. “O Vice-Presidente da República, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o Presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais”. É o que diz a Constituição. 

 

Andanças

Algumas viagens foram para compromissos militares. Assim como o presidente Jair Bolsonaro, o vice, militar da reserva, participa de muitas cerimônias das Forças Armadas. Em 30 de maio, por exemplo, Mourão esteve em Manaus para a Marcha da Saudade e para a formatura do Dia do Guerreiro de Selva. Em 10 de agosto, participou da entrega do sabre Max Wolf aos alunos da turma Centenário da Missão Francesa no Brasil da Escola de Sargento das Armas, em Três Corações (MG). 

Ele também recebeu medalhas de mérito e cidadão honorário de algumas cidades, como Piauí, Rio e Salvador. 

Sua agenda, porém, já desagradou muitas vezes Jair Bolsonaro. Em setembro, por exemplo, em uma das vezes nas quais Mourão assumiu interinamente a Presidência da República - foram 11 em 2019 -, viajou a Natal, onde se encontrou com a governadora do estado, Fátima Bezerra (PT). Participou também do Encontro Econômico Brasil-Alemanha. 

Na ocasião, Bolsonaro havia acabado de passar por sua última cirurgia para correção de uma hérnia em decorrência do ataque com faca do qual foi vítima em setembro de 2018. A expectativa então era de que o mandatário ficasse de repouso por mais dois ou três dias, mas ele decidiu retornar ao exercício de suas funções no dia seguinte, em 17 de setembro. 

No mês anterior, quando a floresta amazônica estava em chamas, o presidente teve um desentendimento com a chanceler alemã, Angela Merkel, por conta do Fundo da Amazônia. “Pegue este dinheiro e refloreste a Alemanha, tá ok?”, disse em meados de agosto, quando a Alemanha suspendeu investimentos em projetos de proteção na região em função das elevadas taxas de desmatamento. A participação de Mourão no evento com empresários do país desagradou e o vice até foi orientado a não participar. 

Este é apenas um exemplo das vezes em que Bolsonaro e Mourão estiveram de lados opostos. A dupla não tem andado em seu melhor momento e chegou a se reunir, no início de dezembro, para combinar que se tratariam com o mínimo de cordialidade. 

Antes deste encontro, o mandatário havia dito por aí que “casou errado” - referindo-se a Mourão - e que, em 2022, queria o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ao seu lado. Recentemente, porém, passou a adotar um discurso mais ponderado. 

GREG BAKER via Getty Images
Mourão com o vice-presidente chinês, Wang Qishan, durante cerimônia de boas-vindas no Grande Salão do Povo em Pequim, em maio de 2019.

Conquistador de corações e mentes

Logo no início do ano, em abril, foi de Mourão a missão de apaziguar o incômodo provocado na relação com a China a partir de comentários feitos por Bolsonaro na campanha, quando afirmou que o país “não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil”. Sua atuação foi considerada essencial para a retomada da amizade existente entre antigos parceiros. 

 

 

Viagens internacionais

 

Fevereiro - Colômbia - reunião do Grupo de Lima 

Abril - EUA - encontros com empresários e com o vice-presidente dos EUA, Mike Pence

Maio - China - encontros com o presidente, Xi Jinping, e com o vice-presidente, Wang Qishan 

Outubro - Roma - canonização de Irmã Dulce

Outubro - Peru - encontro com o presidente, Martin Vizcarra; encontro empresarial Brasil-Peru

Dezembro - Argentina - posse do presidente recém-eleito, Alberto Fernández

 

Foi também o vice-presidente o enviado brasileiro à Argentina mais recentemente, no início do mês, para representar o País na posse de Alberto Fernández. Bolsonaro fez campanha para o adversário, Mauricio Macri, e desferiu críticas contundentes ao presidente argentino recém-eleito. 

Mas a postura tem um peso no bolso: em 2018, as vendas para a Argentina renderam ao Brasil R$ 15 bilhões. Mourão foi então no lugar de Bolsonaro para tentar acenar uma postura pragmática para com o país. Já articula um encontro de Bolsonaro com Fernandez, ainda sem data definida. 

Ainda no âmbito internacional, coube a Mourão prestigiar a canonização de Irmã Dulce, em Roma, e encontrar o Papa Francisco, em outubro. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é evangélica e, de acordo com informações nos corredores do Planalto, este teria sido um dos motivos que fez Bolsonaro não ir ao Vaticano. Além disso, no mesmo mês, a igreja deu início ao Sínodo dos Bispos, que fez duras críticas à devastação na Amazônia. 

O presidente Bolsonaro havia se comprometido, porém, em comparecer à missa em homenagem à canonização da santa na Bahia, que ocorreu na Arena Fonte Nova, em Salvador, mas cancelou por pressão do núcleo evangélico.

 

Conversas com jornalistas

Desde o início do ano, a agenda do vice-presidente conta também com uma extensa lista de jornalistas recebidos em seu gabinete. Em alguns dias, mais de um. Em abril, ele abriu as portas para um café da manhã com a imprensa. 

Todo esse jogo de cintura desagradou o chefe. Tanto que, no segundo semestre, esses encontros caíram para menos da metade. Mas o vice-presidente, ainda assim, não deixa de ser receptivo.