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09/07/2020 15:03 -03 | Atualizado 09/07/2020 15:41 -03

‘Incomodados’ com desenvolvimento do Brasil poderão impedir seu avanço, diz Mourão

Ao tentar retornar investimentos internacionais, vice-presidente diz que investidores querem recuo no desmatamento.

Andressa Anholete via Getty Images
Mourão: "É importante que a gente tenha consciência da disputa geopolítica hoje".

Vice-presidente e presidente do Conselho Nacional da Amazônia, Hamilton Mourão afirmou nesta quarta-feira (8) que a disputa geopolítica precisa ser levada em conta na hora de interpretar o que dizem os investidores estrangeiros sobre a preservação da Amazônia. Para ele, incomodados com o desenvolvimento do País podem tentar impedir o avanço.

“É importante que a gente tenha consciência da disputa geopolítica hoje. Temos água, luz, terra fértil, temos espaço para avançar e crescer. Seremos em breve a maior potência agrícola do mundo. Aqueles incomodados com o avanço da produção brasileira buscarão impedir que essa produção evolua”, disse.

Aqueles incomodados com o avanço da produção brasileira buscarão impedir que essa produção evoluaHamilton Mourão

Ele fez essa afirmação após reunião com investidores internacionais. Mourão tenta reaver investimentos que estão fugindo do País por causa da política ambiental. O setor privado tem pressionado por posições firmes na preservação da Amazônia.

Instituições financeiras responsáveis pela gestão de mais de US$ 4 trilhões alertaram ao governo que podem retirar os recursos se o País não mudar a política ambiental. Empresas nacionais endossaram a reclamação. Alguns setores enfrentam dificuldade em negociar com o exterior por falta de compromissos com o meio ambiente.

Mourão reconhece que é preciso reduzir o desmatamento. Ele afirmou que o governo vai controlar a irregularidade até que “chegue a um número de desmatamento que seja aceitável”. Segundo ele, os investidores internacionais querem resultado positivo no recuo do desmatamento para investir no País. “Os investidores, os CEOs dos fundos em nenhum momento se comprometeram com financiamento. A nossa avaliação é óbvia, eles querem ver resultados e os resultados que podemos apresentar é que haja efetivamente uma redução do desmatamento”, disse.

No primeiro semestre do ano passado, quando Alemanha e Noruega ameaçaram suspender os investimentos no Fundo Amazonia, o presidente Jair Bolsonaro ironizou a decisão dos países. Recomendou a Noruega pegasse o dinheiro e enviasse para a chanceler Angela Merkel, reflorestar a Alemanha.

Nesta quinta, Mourão afirmou que está tentando retomar os investimentos de países europeus para o fundo. “Estamos aguardando a resposta deles, que também depende do desempenho do desmatamento”, disse.

O fator Ricardo Salles

Para o vice-presidente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem apresentado resultados positivos em relação às queimadas. No entanto, não é esse tipo de resultado que aparece quando se fala sobre o ministro e quando são apresentados os números do País.

YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
Para Salles, a legislação ambiental “irracional" atrapalha investimentos, a geração de empregos e o desenvolvimento do País.

Focos de incêndio na Floresta Amazônica atingiram em junho o mais alto nível em 13 anos. Já o desmatamento aumentou 34% nos cinco primeiros meses deste ano em comparação ao mesmo período do ano anterior — época que também já havia registrado crescimento em comparação a 2018.

O ministro Ricardo Salles é um dos principal alvos dos críticos sobre a política ambiental no País. Ficou como marca da gestão dele a fala de que era para o governo aproveitar a atenção da imprensa voltada para a pandemia de coronavírus para “ir passando a boiada”. Após a declaração ter se tornado pública, o ministro a endossou. Disse que estava defendendo a desburocratização e a simplificação de normas.

Para ele, o regramento “irracional” atrapalha investimentos, a geração de empregos e o desenvolvimento do País. Após a confirmação dos primeiros casos de covid-19, órgãos do Meio Ambiente alteraram ao menos nove vezes as normas ambientais.

No último dia 6, o Ministério Público Federal pediu o seu afastamento do cargo. Os procuradores alegam que a intenção do ministro é desmontar a proteção ao meio ambiente. “A permanência do requerido Ricardo de Aquinno Salles no cargo de Ministro do Meio Ambiente tem trazido, a cada dia, consequências trágicas à proteção ambiental, especialmente pelo alarmante aumento do desmatamento, sobretudo na Floresta Amazônica”, diz o pedido.

A ação afirma ainda que “é possível identificar, nas medidas adotadas, o alinhamento a um conjunto de atos que atendem, sem qualquer justificativa, a uma lógica totalmente contrária ao dever estatal de implementação dos direitos ambientais, o que se faz bastante explícito, por exemplo, na exoneração de servidores logo após uma fiscalização ambiental bem sucedida em um dos pontos críticos do desmatamento na Amazônia Legal”.