Aquilo que nos move

Precisamos de estímulos para persistir em tarefas criativas e desafiadoras. Mas aqueles focados em ganhos financeiros e materiais são menos eficazes que recompensas baseadas na compreensão e conexão humana.
Conexão e influência mútua motivam mais do que ambições pessoais.
Conexão e influência mútua motivam mais do que ambições pessoais.

Ao longo de uma década, pesquisadores da Universidade de Harvard coletaram dados de um diário eletrônico de profissionais de diversas empresas. Descobriram, a partir de 12 mil registros diários, que nos dias em que as pessoas se sentem mais felizes elas também estão mais produtivas e apresentam as suas melhores ideias. Ao contrário do que se acredita, em dias de muita pressão, os participantes acabam produzindo menos.

Segundo o estudo, as pessoas sentem-se desmotivadas e frustradas em um terço dos dias de trabalho – justamente naqueles em que rendem menos. Há evidências de que nesses dias a produtividade cai consideravelmente. Em períodos de estresse, nosso desempenho cognitivo é 50% inferior. Temos problemas de memória, dificuldade para processar a linguagem, raciocínio lógico mais lento e nos distanciamos de qualquer solução ou ideia criativa.

Portanto, para sermos mais produtivos, precisamos estar bem. E buscar qualidade de vida não significa apenas ter tempo livre, férias e momentos de descanso.

Pesquisadores chegaram à conclusão de que a visão daquilo que nos motiva em geral é pouco producente – como, por exemplo, focar os estímulos em recompensa material e objetivos apontados especialmente e ganhos financeiros.

Apesar de serem os primeiros a serem considerados, os incentivos como remuneração têm influência bem menor no sentimento de realização pessoal e profissional do que aqueles que se encontram no âmbito da comunicação humana e conexão social.

Inúmeros estudos nas últimas décadas mostram que caminho para a realização está dentro de nós e pouco tem relação com aquilo que gera ambição. Com objetivos tangíveis, voltados para o desenvolvimento pessoal, transmissão de exemplos e valores, envolvimento em um trabalho significativo, alcançamos resultados mais gratificantes e criativos.

Essa motivação que vem de dentro não nasce sozinha; ninguém acorda sentindo-se surpreendentemente motivado. O propulsor dessa energia criativa é o meio social: tudo o que carrega propósito é feito, direta ou indiretamente, para os outros, por causa dos outros. Somos dependentes de reconhecimento e de compreensão e, ao mesmo tempo, responsáveis por agir como motivadores das pessoas que nos cercam – valorizando, escutando, buscando conexão e influência mútua.

Agraciados por esse sentimento inquieto vindo de fora, ganhamos a estrutura emocional necessária para construir a bomba interna que passa a pulsar a cada tarefa que passamos a considerar como gratificante por ela mesma e não pelo impacto que irá gerar. É num movimento de fora para dentro que alcançamos a motivação intrínseca, essencial para persistimos na busca de qualquer objetivo.

Além da motivação gerada pelos valores que nós trazemos para nossas ações, uma importante via para a realização está no exercício da gratidão. Não se trata de um sentimento que surge sem ser convocado e sim uma ação, uma decisão, um hábito conscientemente formado, que pode envolver reflexão, meditação, escrita, comunicação e outras ações.

Somos programados para dar muito mais importância aos sentimentos negativos por uma questão de sobrevivência. Nossa natureza favorece o constante estado de alerta como uma forma de nos proteger. E assim, as preocupações que nem se concretizam nos consomem tanta energia que raramente paramos para enxergar o que está certo, o que merece admiração e contemplação.

Portanto, ocupar a mente com problemas, mesmo que sejam apenas possibilidades, é, de uma forma geral, nosso modo operante. Nossa mente é uma máquina de resolver problemas e, quando não há nenhum concreto, ela cria. Mudar a perspectiva e passar a buscar o que deve ser valorizado exige um certo esforço – como qualquer prática que trazemos para a a vida diária.

Enxergar valor naquilo que temos no lugar de nos preocupar com o que não temos desperta outros sentimentos positivos, que levam a uma postura proativa e influenciam atitudes movidas por ela. Desde a Antiguidade, pensadores salientam a importância da gratidão para uma transformação nas nossas vidas, que começa de dentro, mas pode influenciar de forma poderosa os relacionamentos e os acontecimentos que compõem nossos dias.

Em uma reflexão sobre essa prática, o monge David Steindl-Rast coloca a gratidão no centro não apenas do nosso próprio bem-estar, mas do funcionamento harmônico da sociedade:

“Se você é grato, você age com um senso de suficiência e não um senso de escassez e você está disposto a compartilhar. Se você é grato, você aprecia as diferenças entre as pessoas, e você respeita a todos e isso altera a pirâmide do poder sob a qual vivemos. Um mundo grato é um mundo de pessoas alegres.”

Referências:

AMABILE, Teresa e KRAMERSEPT , Steven. Do Happier People Work Harder? Harvard Business Review, 2011.

HOFFELD, David. The Science of Motivating Sales People. Hoffeld Group. Extraído de www.hoffeldgroup.com

STEINSL-RAST, David. Quer Ser Feliz? Seja Grato. Ted Talks www.ted.com. Nov. 2013.

*Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.