OPINIÃO
12/10/2019 04:00 -03 | Atualizado 12/10/2019 04:00 -03

Irmão de sangue de Zé do Caixão, 'Morto não Fala' expõe as tripas da sociedade brasileira

Primeiro longa do gaúcho Dennison Ramalho acerta ao retomar tradição popular do horror nacional.

Mesmo que o Brasil esteja muito bem representado na atual onda de filmes de terror que vem destacando o gênero como o mais aberto a inovações no cinema mundial, filmes como Morto não Fala, que estreou nesta semana no circuito nacional, são raridade por aqui.

Produções como A Sombra do Pai, da baiana Gabriela Amaral Almeida; As Boas Maneiras, da dupla paulista Marco Dutra e Juliana Rojas; e Mate-Me Por Favor, da carioca Anita Rocha da Silveira, são ótimos exemplos de como o horror está em alta no Brasil. No entanto, a essas obras falta - sem nenhum demérito nisso - uma pegada mais popular. Algo que sobra, para o bem e (às vezes) para o mal, em Morto não Fala.

Longa de estreia do gaúcho Dennison Ramalho, o filme baseado em um conto do jornalista policial Marco de Castro é um irmão de sangue de algumas das mais célebres produções de José Mojica Marins. Um universo nada estranho a Ramalho, que é co-roterista de Encarnação do Demônio (2008), a última aparição do Zé do Caixão na telona.

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Stênio (Daniel de Oliveira) não sabe porque, mas consegue conversar com cadáveres.

Na trama, Stênio (Daniel de Oliveira) é o plantonista noturno do IML de uma metrópole não identificada, mas que tem a cara, e um pouco do sotaque, de São Paulo. Ele não sabe porque, mas consegue se comunicar com os mortos e, por conta disso, bate um papo com eles enquanto costurar e limpa seus corpos. Seu casamento com Odete (Fabiula Nascimento) não vai nada bem, e piora ainda mais quando Stênio descobre, por conta de uma dica dada por um morto conhecido, que ela o trai com o dono da padaria local, Jaime (Marco Ricca).

Cheio de ódio, Stênio usa uma informação que o cadáver de um bandido lhe deu para convencer seu comparsa ainda vivo a matar Jaime. Mas as coisas, claro, não saem como Stênio imaginava, e ele e seus dois filhos passam a ser perseguidos por um espírito em busca de vingança.

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Morto não Fala: Quem disse que a vida não é um terror?

O curioso é que essa nova onda do cinema de horror - ridiculamente rotulado de pós-terror - está sempre associada a temas sociais. Característica que sempre fez parte da filmografia de Marins, muito porque seu terror é essencialmente brasileiro e não há como ignorar o abismo social como um aspecto muito importante de suas histórias. Algo impregnado em cada frame de Morto não Fala e seus personagens e ambientação periféricos, mesmo que esse tom social não seja algo tão planejado por Ramalho.

Isso dá uma boa dose de naturalidade para Morto não Fala, por mais fantástica e sangrenta que seja sua trama. O filme expõe bem mais que apenas as tripas de corpos cravados de balas ou rasgados na ponta de uma peixeira, mas também a pobreza e o desespero de uma boa parcela de brasileiros à margem da sociedade.