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09/06/2020 18:43 -03 | Atualizado 09/06/2020 18:59 -03

Governo volta a divulgar total de mortes por covid-19, mas novo método prejudicará compreensão da pandemia

Ministro interino da Saúde disse nesta terça-feira (9) que será feita atualização retroativa dos óbitos. Metodologia que será adotada dificulta comparações com dados anteriores e de outros países.

Após a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes de obrigar o governo a divulgar os dados da covid-19 na íntegra, os números totais de casos e mortos pela doença no Brasil voltaram a ser publicados no painel de informações do Ministério da Saúde na tarde desta terça-feira (9).

Desde a última sexta-feira (5), o governo vinha escondendo esses dados — o que compromete a transparência de informações de saúde pública e a compreensão da transmissão do novo coronavírus no Brasil. 

O HuffPost Brasil passou a utilizar os dados coletados pelas secretarias estaduais de Saúde, via Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), para informar os leitores. Jornais como Folha de S.Paulo, Estadão e organizações Globo se uniram em iniciativa inédita para fazer uma apuração paralela e buscar as informações que passaram a ser omitidas.

Apesar de o governo estar seguindo a determinação do STF, a questão do horário da divulgação das informações não está resolvida. Isso porque a decisão de Moraes exige que a comunicação dos números ocorra “exatamente conforme realizado até o último dia 4 de junho”. Nesse dia, os boletins já estavam sendo divulgados às 22h, depois dos telejornais noturnos.

Além disso, uma nova metodologia de contagem de dados será adotada pelo governo Bolsonaro. Em vez de divulgar as mortes confirmadas nas últimas 24 horas, o Ministério da Saúde só vai comunicar os óbitos ocorridos nas últimas 24h. O problema é que pode haver um atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que a causa da morte foi confirmada em laboratório. O tempo pode ser superior a um mês.

Com a mudança de critério pelo governo federal, o indicador de “novas mortes” será menor. Na prática, a medida também evita notícias sobre recordes de óbitos diários. Integrantes do governo de Jair Bolsonaro, especialmente a ala militar, têm criticado esse tipo de cobertura jornalística.

Essa nova metodologia inviabiliza uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também prejudica a comparação dos números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. 

O doutor em Ciência da Computação pela Vrije Universiteit em Amsterdã Eric Fernandes Araújo, professor da UFLA (Universidade Federal de Lavras), fez uma modelagem gráfica comparando as curvas da covid-19 no Brasil, se o método anterior — utilizado no mundo inteiro — for mantido ou se for adotada a metodologia almejada pelo governo Bolsonaro:

Em verde (clique na imagem acima para visualizar), está a curva de mortes ocorridas em 24 horas, que faz parte do novo método. Em vermelho, a curva de óbitos notificados em 24 horas, que é o modelo atual. Em preto, o número real das vítimas da doença.

“Os que morreram antes e só tiveram seus resultados divulgados agora vão sumir das estatísticas”, escreve o professor especializado em contágio social, redes sociais e computação aplicada à saúde.

Os integrantes do Ministério da Saúde não explicaram o motivo de adotar uma metodologia que causará esse tipo de prejuízo de análise. Só é possível continuar comparando o total de óbitos se o ministério atualizar progressivamente as informações de mortes que tiverem a confirmação laboratorial após a data do óbito.

Nesta terça, em reunião ministerial com o presidente, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, disse que será feita atualização retroativa. “Quando você bota no cálculo diário, você vê que é acumulado nos dias de registro. O que eu coloco como proposta é que a gente use os mesmos números, mas nos dias do óbito (…) e vai corrigindo os anteriores aí você passa a observar exatamente a curva”, afirmou. O general passou a tarde de terça defendendo o novo modo de contagem a uma comissão externa da Câmara dos Deputados.

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