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08/06/2020 19:15 -03 | Atualizado 08/06/2020 20:00 -03

Brasil ultrapassa 700 mil casos de covid-19; 37 mil morreram pela doença

Ministério da Saúde explica como será a mudança de metodologia no registro de dados do novo coronavírus, mas números de hoje consideram modelo vigente até agora.

O total de mortes causadas pela covid-19 no Brasil chegou a 37.134 nesta segunda-feira (8), de acordo com informações enviadas pela assessoria de imprensa do Ministério da Saúde a jornalistas com dados até as 18h. São 679 óbitos a mais do que os informados pela pasta na última atualização, referente ao domingo (7).

Segundo o novo boletim, nesse intervalo de tempo, foram confirmados 15.654 casos infectados, de modo que o acumulado de diagnósticos é de 707.412 até o momento. De acordo com a assessoria, os números seguem a metodologia vigente até então, de óbitos confirmados nas últimas 24 horas, e não ocorridos nas últimas 24 horas, conforme devem ser os próximos.

Atualmente, o Brasil é o epicentro da pandemia no mundo. Enquanto todos os países a partir do 50º dia após o início da contaminação mostraram desaceleração, nós seguimos na direção contrária. A partir do 54º dia, o Brasil é o país com a maior taxa de crescimento de casos confirmados, de acordo com dados analisados pelo grupo Covid-19 Brasil. 

A iniciativa reúne cientistas de universidades brasileiras e de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Na comparação internacional, o Brasil é o segundo país com mais diagnósticos, atrás apenas dos Estados Unidos, que conta com 1,9 milhão de casos, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins.

A diferença das taxas de testagem dos dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos Estados Unidos e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

Quanto ao total de mortes, o Brasil é o terceiro país na comparação mundial, atrás dos Estados Unidos e do Reino Unido. A posição foi alcançada na semana passada, após superar a Itália, que foi um dos principais epicentros na Europa da crise sanitária e um dos cenários mais dramáticos da pandemia até então.

O novo coronavírus já causou mais de 404 mil óbitos no mundo. São 7 milhões de casos confirmados, de acordo com dados atualizados nesta segunda.

TARSO SARRAF via Getty Images
A ocultação de dados provocou uma reação tanto no meio político quanto jurídico. Parlamentares de oposição apresentaram uma ação no STF em que pedem a divulgação diária, sem manipulação, de dados completos.

Mudança inviabiliza comparação 

Até á última quinta-feira (4), o Ministério da Saúde enviava aos jornalistas, por meio de uma rede de transmissão via WhatsApp, um boletim com o total de casos e de óbitos confirmados nas últimas 24 horas, assim como o acumulado dos dois dados.

Após atrasar a divulgação desses boletins diários, na última sexta-feira (5) a imagem informava apenas os casos e óbitos confirmados nas últimas 24 horas, sem o acumulado. O total de diagnósticos e de mortes também deixou de estar disponível no site covid.saude.gov.br.

No fim de semana, o Ministério da Saúde informou que adotaria uma nova metodologia, com boletins diários de óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e não confirmados. Na prática, ela inviabiliza uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também não permite mais comparar os números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. 

Na coletiva de imprensa desta segunda, os integrantes do Ministério da Saúde não explicaram o motivo de adotar uma metodologia que causará esse tipo de prejuízo.

O secretário-executivo da pasta, Élcio Franco, disse que o número acumulado de infectados e mortos não irá mudar, mas isso só será possível se o ministério garantir que vai atualizar progressivamente as informações de mortes que tiverem a confirmação laboratorial após a data do óbito. Em nenhum momento essa garantia foi dada.

“O total vai continuar sendo o total. O que mudaria talvez seria a configuração da curva, pela quantidade. Mas a informação do morto não vai mudar. Seria a data da ocorrência do óbito e não a data de notificação. Se houver uma represamento de óbitos ocorridos na sexta, no sábado e no domingo, que era carregado efetivamente na segunda-feira, na curva não vai aparecer esse pico”, disse o militar.

Questionado se as mudanças foram ordem do presidente Jair Bolsonaro, o secretário-executivo da pasta disse que “não houve interferência de ordem alguma nesse trabalho, que é um trabalho técnico”. O militar que ocupa o segundo cargo mais importante da pasta não tem formação em saúde, assim como o ministro interino, general Eduardo Pazuello.

Nos últimos dias, o Brasil chegou a ser excluído do mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins, referência internacional. O país voltou a aparecer nesta segunda-feira.

Na noite deste domingo (8), o Ministério da Saúde enviou uma nota a jornalistas em que afirmava que em um novo site poderiam ser conferidos os “extratos da plataforma em desenvolvimento referentes ao Brasil, regiões nacionais, estados, capitais/regiões metropolitanas, com os respectivos gráficos de evolução diária dos novos registros”.

Em conjunto, foram enviados arquivos com capturas de tela do conteúdo que estaria nessa nova plataforma que entraria no ar “nos próximos dias”. De acordo com informações desta segunda, o novo site estará disponível até o fim da semana.

Inicialmente uma das imagens enviadas domingo dizia que havia 37.312 mortes acumuladas por covid-19 e 1.382 “novos óbitos”. Pouco tempo depois, os dados foram alterados para 525 “óbitos novos” e o acumulado passou para 36.455 mortes causadas pela doença. Em nota enviada nesta segunda, a pasta afirmou que a mudança ocorreu devido a uma correção. Não foi esclarecido se as novas mortes eram confirmadas ou ocorridas nas últimas 24 horas.

De acordo com a base de dados das secretarias estaduais de Saúde, havia 36.151 óbitos confirmados no domingo, de acordo com números coletados até as 16h30 do mesmo dia.

Ainda no domingo, a pasta enviou uma segunda nota a jornalistas em que afirmava que o “novo modelo de divulgação de informações sobre a covid-19 abordará o cenário atual da doença, com análise de casos e mortes por data de ocorrência”. 

Como antes o ministério divulgava as mortes confirmadas (e não ocorridas) em 24 horas, com a nova metodologia, não será mais possível saber o acúmulo de casos. Desde domingo, a pasta também deixou de enviar aos jornalistas pela rede de transmissão via WhatsApp o boletim no formato anterior.

Evolução da pandemia no Brasil

Os dados mais recentes evidenciam mais uma vez o agravamento da crise sanitária no País. Em 19 de maio, foi registrada pela primeira vez a confirmação de mais de mil mortes em 24 horas: foram 1.170 óbitos confirmados no dia.

O número também foi um marco na evolução diária da pandemia quando comparada a outros países. Superou o total de 919 mortes confirmadas de um dia para o outro no fim de março na Itália, um dos principais epicentros na Europa da crise sanitária e um dos cenários mais dramáticos da pandemia até então.

Outro marco foi na semana seguinte. Em 25 de maio, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos no registro diário de mortes: 807 novos óbitos confirmados pelo Ministério da Saúde no mesmo dia em que o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) americano incluiu 620 mortes no balanço oficial. 

Segundo dados apresentados na última quinta pelo ministério, o Brasil ocupa a 34ª entre as taxa de incidência do vírus no mundo e a 21ª maior taxa de mortalidade. Ambos os indicadores consideram a população das nações.

São 2.779 casos por milhão de habitantes no País e 155 óbitos por milhão de habitantes. Os indicadores variam dentro do território, sendo que a região Norte está na situação mais crítica. São 333 óbitos por milhão de habitantes. 

Também de acordo com a pasta, até a última quinta, 4.222 (75,8%) dos municípios brasileiros registraram casos de covid-19 e 1.821 (32,7%) confirmaram óbitos causados pela doença. Em 28 de março, apenas 297.

Subnotificação da pandemia

Além da falta de transparência, a subnotificação também prejudica uma compreensão real do cenário da crise sanitária no País. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. O exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. 

Segundo balanço apresentado na última quinta, 1.085.891 exames do tipo moleculares RT-PCR foram realizados, sendo 556.094 processados em laboratórios públicos e 529.797 na rede particular. Na rede pública, 74,1% são analisados em até 5 dias, de acordo com o ministério.

O levantamento inclui ainda outros 748.916 testes rápidos, que identificam se a pessoa tem anticorpos para o novo coronavírus. Os testes moleculares informam se a pessoa está infectada naquele momento.

A baixa testagem é um dos entraves apontados por sanitaristas para a flexibilização do isolamento social. Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Amazonas, com altos indicadores de mortalidade, têm iniciado esse tipo de medida.