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08/07/2020 18:24 -03

Pela 1ª vez, mortes por covid-19 no interior superam total registrado em regiões metropolitanas

Mesmo com subnotificação, casos confirmados da doença chegam a 1,7 milhão no Brasil.

A pandemia do novo coronavírus segue avançando no Brasil. Com 44.571 diagnósticos confirmados em 24 horas, o total de casos de covid-19 chegou a 1.713.160 nesta quarta-feira (8), de acordo com levantamento divulgado pelo Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com dados compilados até às 18h.

No mesmo intervalo, foram contabilizados 1.223 óbitos. O total de mortes é de 67.964. Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera o ranking de vítimas fatais, com 16.788 óbitos, seguido pelo Rio de Janeiro (10.970), Ceará (6.665), Pernambuco (5.323) e Pará (5.169).

Persiste também a interiorização da pandemia no Brasil. Pela primeira vez, os óbitos acumulados no interior superaram os acumulados nas regiões metropolitanas. Isso ocorreu na semana epidemiológica 27, encerrada em 4 de julho, quando 52% das mortes por covid-19 eram do primeiro grupo e 48% no segundo, de acordo com boletim do Ministério da Saúde divulgado nesta quarta.

Segundo a pasta, até 4 de julho, 5.371 (96,4%) dos municípios registraram casos do novo coronavírus e 2.840 (51%) tiveram óbitos. Em 18 de junho, eram 4.590 municípios com casos e 2.165 com mortes.

Ao analisar dados regionais, na Região Sul, o boletim mostra aumento de 36% dos casos confirmados entre a semana 26, encerrada em 27 de junho, e a semana seguinte. Já os óbitos cresceram 27% no período. No Centro-Oeste, o aumento dos caso foi de 18% de uma semana para a outra. Já as mortes subiram 22%.

Na região Norte, houve redução de 5% dos óbitos e 15% no período. No Nordeste, foi registrado aumento de 15% dos casos confirmados de uma semana para outra e estabilidade nas mortes. Já no Sudeste, ambos indicadores aumentaram 1%.

Brasil lidera novos óbitos por semana

Na comparação com outros países, o Brasil lidera o total de óbitos novos na semana encerrada em 4 de julho, de acordo com o boletim. Foram 7.195. Em segundo lugar, aparece os Estados Unidos, com 4.637 mortes no período.

De acordo com o documento, a incidência da doença é de 7.940 por milhão de habitantes no Brasil e a mortalidade é de 318 por milhão. Dessa forma, o País está na 10ª e 12ª posição, respectivamente, em comparação com outras nações.

Na comparação com números absolutos, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

Os dois países repetem as posições também em relação aos diagnósticos. Em território americano, foram registrados 3 milhões de casos. A diferença das taxas de testagem entre os dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos EUA e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - por sua vez, é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

O novo coronavírus já causou mais de 545 mil óbitos no mundo. São cerca de 11,8 milhões de casos confirmados, de acordo com dados atualizados nesta terça.

Reprodução/Ministério da Saúde
Na comparação com outros países, o Brasil lidera o total de óbitos novos na semana encerrada em 4 de julho.

A evolução da pandemia no Brasil

Os gráficos epidemiológicos brasileiros nas últimas semanas assumem aos poucos a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes. A previsão da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) é que o ápice da pandemia no Brasil será em agosto

No boletim divulgado nesta quarta, é possível observar aceleração na média diária de casos confirmados por semana. Na semana epidemiológica 27, o indicador foi de 37.620. Na semana anterior, eram 35.155.

Já a média diária de de óbitos por semana permanece estável e alta desde a 22ª semana epidemiológica, encerrada em 30 de maio. Na semana 27, o indicador foi de 1.028.

Dentro do País, o alerta de especialistas é principalmente para as regiões Sul e Centro-Oeste. A edição mais recente do relatório do InfoGripe, divulgado semanalmente pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), mostra que todos estados no Sul mantiveram o crescimento do número de pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Além disso, todas as regiões do País apresentaram números de casos e de mortes muito altos de hospitalizações por SRAG. A maioria foi confirmada com covid-19.

Segundo o Ministério da Saúde, até 4 de julho, foram registradas 367.207 hospitalizações por SRAG. Desse total, 169.382 (46,1%) foram diagnosticadas como covid-19, 118.525 (32,5%) não têm causa especificada, 74.119 (20,2%) estão em investigação e o restante foi causada por outros vírus respiratórios.

Do total de internados por SRAG, 50,2% eram pessoas acima de 60 anos, 57% do sexo masculino. Quanto à raça/cor, 31,3% era parda, 28,1% branca, 4,6% preta, 0,9% amarela, 0,3% indígenas e 34,7% dos registos não tinha essa informação.

Quanto aos óbitos por SRAG, foram 94.882 em 2020, sendo 61.459 (64,8%) confirmados como covid-19, 28.590 (30,1%) não têm causa especificada, 4.146 (4,4%) estão em investigação e o restante foi causada por outros vírus respiratórios.

O perfil de vítimas fatais da pandemia é de 71,6% acima de 60 anos, 58% masculino e 60% com ao menos um fator de risco. Quanto à raça/cor, 35,5% era parda, 24,8% branca, 4,9% preta, 1% amarela, 04% indígenas e 33,4% dos registos não tinha essa informação.

Profissionais de saúde contaminados

De acordo com o Ministério da Saúde, até 4 de julho, foram notificados 786.417 casos de profissionais de saúde com síndrome gripal. Desse grupo, 173.440 (22%) foram confirmados para covid-19, sendo 59.635 (34%) técnicos ou auxiliares de enfermagem; 25.718 (15%) enfermeiros; 19.037 (11%) médicos; 8.030 (5%) agentes comunitários de saúde e 7.642 (4%) recepcionistas de unidades de saúde.

Também de acordo com a pasta, foram notificados 1.219 casos de SRAG entre profissionais da saúde. Desse grupo, 697 (57%) foram confirmados para covid-19, sendo 248 (36%) técnicos ou auxiliares de enfermagem; 150 (22%) médicos e 130 (19%) enfermeiros. Quanto aos óbitos, foram registrados 138, sendo 58 de técnicos ou auxiliares de enfermagem, 24 médicos e 13 enfermeiros.

Os dados contrariam informações anteriores. Em 14 de junho, a pasta informou que 169 profissionais de saúde morreram vítimas da covid-19. De acordo com a assessoria do ministério, é possível que as diferenças sejam por correções feitas pelos estados.

Os números também são inferiores a levantamentos feitos pelas categorias profissionais. De acordo com dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), há 23.485 casos reportados de enfermeiros infectados e 240 mortes só dessa categoria.

Flexibilização aumenta transmissão

Estados que flexibilizaram o isolamento social em junho já enfrentam um aumento de casos ou de óbitos por covid-19. Na contramão do que dizem os pesquisadores e sanitaristas, o Ministério da Saúde evita relacionar os fatos. O secretário de Vigilância diz que não é possível afirmar categoricamente que o aumento de casos é “reflexo direto de uma decisão do gestor local [por reabertura das atividades econômicas]”. 

A pasta publicou em junho uma portaria com orientações para retomada das atividades. O documento não inclui critérios como ocupação dos hospitais ou situação epidemiológica para decidir flexibilização do isolamento, nem segue orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde). 

Um estudo feito por pesquisadores da Rede CoVida - Ciência, Informação e Solidariedade identificou que houve diminuição da taxa de transmissão maior nos estados que não flexibilizaram o isolamento. De acordo com a pesquisa, os melhores resultados foram observados onde houve adoção do lockdown.

Mais gente ficou em casa nos estados cujas ações governamentais foram mais restritivas, como Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão e Mato Grosso.  

Ueslei Marcelino / Reuters
A previsão da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) é que o ápice da pandemia no Brasil será em agosto.

Subnotificação da pandemia

Em junho, houve uma série de idas e vindas na forma de divulgação dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. Após atrasar o horário de envio dos dados, a pasta deixou de informar o acumulado de mortes e diagnósticos em 5 de junho. A divulgação regular só foi retomada em 9 de junho, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

A pasta também chegou a anunciar que adotaria uma nova metodologia, com boletins diários de óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e não confirmados. Na prática, ela inviabiliza uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também atrapalha a comparação dos números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. A mudança, contudo, não foi colocada em prática até agora.

Há uma atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que essa informação foi confirmada em laboratório que pode ser superior a um mês. Por esse motivo, para fins de entender a curva epidemiológica e viabilizar comparações, os países têm disponibilizado os dados dos óbitos por data de confirmação.

Até o momento, 14 de maio foi o dia com maior mortes ocorridas, com 988 registros, segundo boletim do Ministério da Saúde divulgado nesta quarta.

Com a mudança de critério pelo governo federal, as “novas mortes” serão menores. Na prática, a medida também evita notícias negativas sobre recordes de óbitos diários. Integrantes do governo de Jair Bolsonaro, especialmente a ala militar, têm criticado esse tipo de cobertura jornalística.

No final do mês, o Ministério da Saúde anunciou que a notificação de casos do novo coronavírus poderia ser feita pelo médico apenas por critérios clínicos, sem esperar o resultado laboratorial. Na prática, a mudança pode ser um incentivo a menos para aplicação de testes RT-PCR (moleculares), forma mais precisa de diagnóstico.

De acordo com painel do próprio ministério, até 2 de julho, foram distribuídos 3,8 milhões de testes RT-PCR. Após essa etapa, também há entraves até o resultado do exame. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. Na prática, o exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. A baixa testagem é um dos entraves apontados por sanitaristas para a flexibilização do isolamento social. 

Segundo balanço apresentado nesta quarta, 2.124.223 exames do tipo moleculares RT-PCR foram realizados, sendo 1.179.116 processados em laboratórios públicos e 945.107 na rede particular. Desses testes, 705.232 tiveram resultados positivos, sendo 437.918 públicos (37,1%) e 267.314 particulares (28,2%).

Foram feitos outros 2.671.618 exames sorológicos, segundo a pasta. Dessa forma, o total de testes aplicados é de 4.795.851. Os testes moleculares informam se a pessoa está infectada naquele momento. Os sorológicos, se há anticorpos. Segundo o painel do ministério, até 15 de junho, 7,5 milhões de teses rápidos sorológicos foram distribuídos.