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03/08/2020 18:09 -03

Brasil acumula 94.660 mortes por covid-19, e OMS diz que situação 'continua preocupante'

Cúpula da OMS lembra que pode nunca existir 'bala de prata' contra o vírus e que a solução está em testes, distanciamento e uso de máscaras.

Na semana em que o Brasil se aproxima da marca dos 100 mil mortos pelo novo coronavírus, a cúpula da OMS (Organização Mundial de Saúde) alertou que pode nunca haver uma “bala de prata” contra a doença e que a saída para a pandemia envolve coordenação dos agentes públicos em ampla testagem, além do uso de máscaras, distanciamento social e medidas de higienização.

O total de vítimas fatais da covid-19 chegou a 94.660 nesta segunda-feira (3) no País, de acordo com levantamento do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com registros compilados até 18h. Foram 556 confirmações de domingo para segunda.

Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera o ranking de mortes, com 23.365 registros, seguido pelo Rio de Janeiro, com 13.604, Ceará (7.752), Pernambuco (6.669) e Pará (5.784).

Quanto ao número de casos, de domingo para segunda foram 16.476 novos confirmados. O acumulado é de 2.750.153.

Nesta segunda, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e o chefe de emergências da entidade, Mike Ryan, reforçaram que o caminho para o fim da crise sanitária é longo. “A única saída para países com intensa transmissão comunitária, como o Brasil, é uma parceria forte entre governo federal e estaduais e o engajamento da sociedade”, disse Ryan.

Ao analisar o ranking mundial, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

Os dois países repetem as posições também em relação ao número de diagnósticos. No território norte-americano, foram registrados mais de 4,6 milhões de casos. A diferença das taxas de testagem entre os dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos EUA e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - por sua vez, é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

Na comparação que considera a população de cada nação, de acordo com dados da OMS, o Brasil está na 12ª posição tanto em relação aos óbitos - com 440,17 por milhão de habitantes - quanto aos diagnósticos - com 12.739,41 casos por milhão de habitantes.

O novo coronavírus já causou mais de 690 mil mortes no mundo. São cerca de 18,1 milhões de casos confirmados, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins atualizados nesta segunda.

Vacina contra a covid-19

Ao comentar o desenvolvimento de vacinas, Tedros Adhanom Ghebreyesus ressaltou que há esperança com as iniciativas em fase de testes clínicos - são 6 atualmente - mas ponderou que é preciso cautela. “Muitas vacinas estão na terceira fase de testes clínicos e todos esperamos que haja várias vacinas eficientes que possam ajudar a prevenir que pessoas sejam infectadas. No entanto, não existe bala de prata no momento - e pode ser que nunca exista”, disse.

O diretor-geral da OMS admitiu que há preocupações na comunidade científica de que não haverá uma vacina eficiente “ou que sua proteção possa durar apenas alguns meses”. “Até que terminemos os testes clínicos, não saberemos”, advertiu.

A expectativa mais otimista é que em novembro sejam publicados resultados preliminares do teste clínico da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford. Em 31 de julho, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, e a farmacêutica AstraZeneca, detentora dos direitos de comercialização do produto, assinaram um documento que dará base para o acordo de transferência de tecnologia a fim de viabilizar a produção de 100 milhões de doses para atender os brasileiros.

O Ministério da Saúde prevê um repasse de R$ 522,1 milhões para estrutura de Bio-Manguinhos, unidade da Fiocruz no Rio de Janeiro produtora de imunobiológicos. Outros R$ 1,3 bilhão são referentes a pagamentos previstos no contrato de encomenda tecnológica relativos à finalização da vacina.

Esse acordo deverá ser assinado na segunda semana de agosto e garante o acesso a 30 milhões de doses entre janeiro e dezembro e outros 70 milhões ao longo dos dois primeiros trimestres de 2021.

Amanda Perobelli / reuters
 Ao analisar o ranking mundial, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins.   

Mortes crescem em 4 regiões do País

A semana encerrada em 25 de julho foi uma das mais graves da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Houve um recorde de casos registrados da covid-19, com 319.653 notificações, um aumento de 36% em relação à semana anterior. No mesmo período, foram registradas 7.677 mortes, um crescimento de 5%. Os números são de boletim divulgado pelo Ministério da Saúde na última semana.

média diária de casos registrados na semana epidemiológica 30, encerrada em 25 de julho, foi de 45.665. O número era 33.573 na semana anterior.

Já a média diária de óbitos na última semana analisada foi de 1.029, contra 1.043 da semana anterior e mesmo número na semana 28, encerrada em 11 de julho.

Na comparação entre as duas últimas semanas epidemiológicas analisadas no boletim, no Sul do País, foi registrado aumento de 25% no número de casos e de 18% nas mortes. No Centro-Oeste, houve acréscimo de 63% nos diagnósticos e de 7% de óbitos no mesmo período. No Sudeste, houve acréscimo de 17% nos casos e de 9% de mortes. 

No Nordeste os diagnósticos cresceram 27% nas comparação entre as semanas encerradas em 18 de julho e 25 de julho. Já o número de mortes no período caiu 8%. Na região Norte, os casos cresceram 8% e os óbitos, 13%.

De acordo com boletim mais recente do InfoGripe, com dados de internações por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) até 25 de julho, o cenário nacional mostra tendência de crescimento, com ocorrência de casos semanais muito alta. O levantamento é publicado pela Fiocruz.

Interiorização da epidemia

Apesar de ter sido observado certo arrefecimento nas grandes capitais, como Manaus (AM) e São Paulo, a crise sanitária continua grave em boa parte do País. Quando olhamos os dados acumulados, os gráficos epidemiológicos brasileiros assumiram a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes acumulados. Por outro lado, os casos e óbitos diários, que indicam o ritmo da epidemia, não estabilizaram.

De acordo com o pesquisador Domingos Alves, do grupo Covid-19 Brasil, na análise de casos e óbitos diários, não há platô. “No número de novos casos e de novos óbitos o conceito é atingir o pico e não atingimos o pico. Quando você olha o número de novos casos, a partir de 20 a 22 de julho, o número de novos casos no Brasil começou a aumentar de novo”, afirma o professor do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo). 

Em 22 de julho, foram registrados 67.860 novos casos. O recorde foi superado nesta quarta, com 69.074 registros. “Não tem estabilidade. Quando você olha a média móvel, existem períodos, como entre 6 e 17 de junho ou de 29 de junho até 17 de julho em que o número de novos casos não cresceu tanto. Mas entre 19 de junho e 28 de junho teve um aumento importante e mais recentemente, essa outra alta”, aponta Domingos Alves.

O grupo Covid-19 Brasil reúne cientistas de universidades brasileiras e de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins (EUA).

Monitoramento Covid-19 Brasil
Em 22 de julho, foram registrados 67.860 novos casos. O recorde foi superado nesta quarta, com 69.074 registros.

Houve uma inversão de comportamento ao longo do tempo, com a interiorização da epidemia. Segundo boletim mais recente do Ministério da Saúde, 5.475 (98,2%) dos municípios têm casos confirmados de covid-19 e 3.476 (52,4%) cidades registraram mortes causadas pela covid-19. A curva de casos acumulados das capitais está diminuindo, e a dos interiores está aumentando, mas a segunda ainda não ultrapassou a primeira.

Na análise do pesquisador da USP, os casos do interior e de regiões até então menos afetadas pelo vírus, como o Sul e o Centro-Oeste, “vão começar a ser mais importantes do que os números das capitais”, e, por consequência, devem elevar a média diária de óbitos até a próxima semana. “Há um crescimento médio por dia ainda observável e mantendo uma média de mil óbitos por dia. Essa tendência de estabilidade da média móvel nas últimas 3 ou 4 semanas vai mudar. Isso vai voltar a crescer”, alerta.

Subnotificação da pandemia

Em junho, houve uma série de idas e vindas na forma de divulgação dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. Após atrasar o horário de envio dos dados, a pasta deixou de informar o acumulado de mortes e diagnósticos em 5 de junho. A divulgação regular só foi retomada em 9 de junho, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

A pasta também chegou a anunciar que adotaria uma nova metodologia, com boletins diários de óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e não confirmados. A mudança, contudo, não foi colocada em prática até agora.

Na prática, ela inviabilizava uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também atrapalharia a comparação dos números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. 

Com a mudança, as “novas mortes” seriam menores. Na prática, a medida também evita notícias negativas sobre recordes de óbitos diários. Integrantes do governo de Jair Bolsonaro, especialmente a ala militar, têm criticado esse tipo de cobertura jornalística.

Há uma atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que essa informação foi confirmada em laboratório que pode ser superior a um mês. Por esse motivo, para fins de entender a curva epidemiológica e viabilizar comparações, os países têm disponibilizado os dados dos óbitos por data de confirmação.

De acordo com boletim do Ministério da Saúde, 12 de maio é o dia em que mais mortes por covid ocorreram de fato. Foram 1.098 óbitos, de acordo com boletim divulgado nesta quarta.

O mês com mais mortes por data de ocorrência é maio (30.199), seguido por junho (24.059) e julho (16.443), com dados até 27 de julho. 

No final de junho, o ministério anunciou que a notificação de casos do novo coronavírus poderia ser feita pelo médico apenas por critérios clínicos, sem esperar o resultado laboratorial. Na prática, a mudança pode ser um incentivo a menos para aplicação de testes RT-PCR (moleculares), forma mais precisa de diagnóstico.

De acordo com painel do Ministério da Saúde, foram distribuídos 5.192.852 testes RT-PCR. Após essa etapa, também há entraves até o resultado do exame. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. Na prática, o exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. A baixa testagem é um dos entraves apontados por sanitaristas para a flexibilização do isolamento social. 

De acordo com o Ministério da Saúde, 2.678.927 exames moleculares haviam sido processados até 25 de julho, sendo 1.548.507 na rede pública e 1.130.420 na rede privada. A taxa de positividade era de 37,7% nos laboratórios públicos e de 28,5% nos particulares.

De acordo com painel da pasta, outros 8.004.080 testes rápidos sorológicos foram entregues. Segundo o boletim, 4.398.066 testes sorológicos (rápidos e laboratoriais) foram feitos e a positividade foi de 32,2%. Os testes moleculares informam se a pessoa está infectada naquele momento. Os sorológicos, se há anticorpos no organismo.