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22/07/2020 18:24 -03 | Atualizado 22/07/2020 19:19 -03

Brasil tem recorde de casos confirmados de covid-19 em 24 horas

Com 67.860 notificações de terça para quarta, total de diagnósticos chega a 2.227.514.

Cinco meses após o primeiro caso do novo coronavírus ser confirmado no Brasil, a transmissão continua descontrolada no País. O total de diagnósticos chegou a 2.227.514 nesta quarta-feira (22), de acordo com levantamento divulgado pelo Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com registros compilados até às 18h.

Foram 67.860 notificações nas últimas 24 horas, um recorde do indicador. O número mais alto até então era de 54.771, em 19 de junho. Após essa data, o Ministério da Saúde alterou os critérios e ampliou a possibilidade de diagnóstico clínico, sem exame laboratorial.

O total de mortes registradas é de 82.771, com 1.284 a mais que no balanço de terça. Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera o ranking de vítimas fatais, com 20.532 óbitos, seguido pelo Rio de Janeiro (12.443), Ceará (7.317), Pernambuco (6.152) e Pará (5.581).

O Brasil é um dos cinco países da América do Sul sem controle da transmissão, segundo relatório divulgado nesta quarta pelo centro de acompanhamento de epidemias do Imperial College, de Londres. Os cálculos dos pesquisadores britânicos são feitos semanalmente. 

Ao analisar o ranking mundial, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

Os dois países repetem as posições também em relação aos diagnósticos. Em território americano, foram registrados 3,1 milhões de casos. A diferença das taxas de testagem entre os dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos EUA e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - por sua vez, é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

O novo coronavírus já causou mais de 617 mil óbitos no mundo. São cerca de 15 milhões de casos confirmados, de acordo com dados atualizados nesta quarta.

De acordo com boletim do Ministério da Saúde divulgado na última semana, a incidência da doença é de 9.359 por milhão de habitantes no Brasil e a mortalidade é de 359 por milhão. Dessa forma, o País está na 10ª e 11ª posição, respectivamente, em comparação com outras nações.

Nesta quarta, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em coletiva de imprensa, voltou a pedir para as pessoas procurarem o serviço de saúde assim que começarem a sentir sintomas da doença. Ele explicou que a orientação de procurar quando sentir falta de ar não trouxe bons resultados.

″É uma doença nova e não se sabia exatamente qual a melhor forma de tratar. A orientação anterior era, tendo os sintomas, isole-se na sua casa e só procure um médico se tiver falta de ar. Esse protocolo, seguindo posicionamento internacional, era o que achava que era a solução. Hoje se verificou que a autoavaliação do sintoma da falta de ar quando vai para o médico já chega de forma grave. Esse paciente vai para o atendimento que é a intubação, a respiração invasiva com respiradores e vai para a UTI. Isso se mostrou ineficaz”, disse.

O platô de casos e de mortes no Brasil

Os gráficos epidemiológicos brasileiros nas últimas semanas assumem a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes. A média diária de casos e de óbitos por semana permanece estável e alta desde a 22ª semana epidemiológica, encerrada em 30 de maio.

Na semana epidemiológica 27, encerrada em 4 de junho, o indicador foi de 1.028. Na semana seguinte, passou para 1.029.

Pela primeira vez, houve queda nos casos registrados por semana, ao comparar os dois últimos períodos com dados disponíveis. Na semana 27, foram 37.620 e na semana 28, foram 37.549, de acordo com boletim divulgado pelo Ministério da Saúde na última semana.

Na comparação entre as duas últimas semanas epidemiológicas analisadas, na região Sul, os casos aumentaram 8% e os óbitos, 36%. No Centro-Oeste, o crescimento de diagnósticos foi de 6% e de mortes, de 26%.

No Sudeste, os casos aumentaram 7% no período e os óbitos subiram 3%. Na região Norte, houve redução de 20% dos óbitos e 9% de casos no período. No Nordeste, foi registrada queda de 8% dos casos confirmados de uma semana para outra e de 4% nas mortes. 

MAURO PIMENTEL via Getty Images
A média diária de casos e de óbitos por semana permanece estável e alta desde a 22ª semana epidemiológica, encerrada em 30 de maio.

Persiste a interiorização da pandemia no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, até 11 de julho, 5.428 (97,4%) dos municípios registraram casos do novo coronavírus e 3.056 (55%) tiveram óbitos. Em 18 de junho, eram 4.590 municípios com casos e 2.165 com mortes.

De acordo com a pasta, até 11 de julho foram registradas 404.037 hospitalizações por SRAG. Desse total, 191.466 (47,4%) foram diagnosticadas como covid-19, 129.896 (32,2%) não têm causa especificada, 77.348 (19,1%) estão em investigação e o restante foi causada por outros vírus respiratórios.

Do total de internados por SRAG, 50,4% eram pessoas acima de 60 anos, 57% do sexo masculino. Quanto à raça/cor, 31,3% era parda, 28,4% branca, 4,6% preta, 1% amarela, 0,3% indígenas e 34,3% dos registos não tinham essa informação.

Quanto aos óbitos por SRAG, foram 105.129 em 2020, sendo 68.842 (65,5%) confirmados como covid-19, 31.544 (30,0%) não têm causa especificada, 4.011 (3,8%) estão em investigação e o restante foi causada por outros vírus respiratórios.

O perfil de vítimas fatais da pandemia é de 71,8% acima de 60 anos, 58% masculino e 61% com ao menos um fator de risco. Quanto à raça/cor, 35,3% era parda, 25,2% branca, 4,9% preta, 1,1% amarela, 0,4% indígenas e 33,1% dos registos não tinham essa informação.

Flexibilização aumenta transmissão

Estados que flexibilizaram o isolamento social em junho já enfrentam um aumento de casos ou de óbitos por covid-19. Na contramão do que dizem os pesquisadores e sanitaristas, o Ministério da Saúde evita relacionar os fatos. 

A pasta publicou em junho uma portaria com orientações para retomada das atividades. O documento não inclui critérios como ocupação dos hospitais ou situação epidemiológica para decidir flexibilização do isolamento, nem segue orientações da OMS.

Um estudo feito por pesquisadores da Rede CoVida - Ciência, Informação e Solidariedade identificou que houve diminuição da taxa de transmissão maior nos estados que não flexibilizaram o isolamento. De acordo com a pesquisa, os melhores resultados foram observados onde houve adoção do lockdown.

Mais gente ficou em casa nos estados cujas ações governamentais foram mais restritivas, como Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão e Mato Grosso.  

Subnotificação da pandemia

Em junho, houve uma série de idas e vindas na forma de divulgação dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. Após atrasar o horário de envio dos dados, a pasta deixou de informar o acumulado de mortes e diagnósticos em 5 de junho. A divulgação regular só foi retomada em 9 de junho, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

A pasta também chegou a anunciar que adotaria uma nova metodologia, com boletins diários de óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e não confirmados. A mudança, contudo, não foi colocada em prática até agora.

Na prática, ela inviabilizava uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também atrapalharia a comparação dos números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. 

Com a mudança, as “novas mortes” seriam menores. Na prática, a medida também evita notícias negativas sobre recordes de óbitos diários. Integrantes do governo de Jair Bolsonaro, especialmente a ala militar, têm criticado esse tipo de cobertura jornalística.

Há uma atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que essa informação foi confirmada em laboratório que pode ser superior a um mês. Por esse motivo, para fins de entender a curva epidemiológica e viabilizar comparações, os países têm disponibilizado os dados dos óbitos por data de confirmação.

Até o momento, 14 de maio foi o dia com maior mortes ocorridas, com 1.009 registros, segundo boletim mais recente do Ministério da Saúde.

No final de junho, o ministério anunciou que a notificação de casos do novo coronavírus poderia ser feita pelo médico apenas por critérios clínicos, sem esperar o resultado laboratorial. Na prática, a mudança pode ser um incentivo a menos para aplicação de testes RT-PCR (moleculares), forma mais precisa de diagnóstico.

De acordo com painel do próprio ministério, foram distribuídos 4.887.188 testes RT-PCR. Após essa etapa, também há entraves até o resultado do exame. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. Na prática, o exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. A baixa testagem é um dos entraves apontados por sanitaristas para a flexibilização do isolamento social. 

Segundo balanço apresentado na última semana, 2.223.803 exames do tipo moleculares RT-PCR foram realizados, sendo 1.278.201 processados em laboratórios públicos e 945.602 na rede particular. Desses testes, 745.228 tiveram resultados positivos, sendo 477.914 (37,3%) públicos e 267.314 (28,2%) particulares.

Foram feitos outros 2.920.335 exames sorológicos, segundo a pasta. Dessa forma, o total de testes aplicados é de 5.144.138. Os testes moleculares informam se a pessoa está infectada naquele momento. Os sorológicos, se há anticorpos. Segundo o painel do ministério, até 15 de junho, 7,5 milhões de teses rápidos sorológicos foram distribuídos.