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02/06/2020 19:50 -03

Com recorde de 1.262 vítimas por covid-19 confirmadas em 24 horas, mortes ultrapassam 30 mil no Brasil

“Pensem duas vezes antes de flexibilizar o distanciamento social, que continua sendo a melhor forma de conter o coronavírus", alertou diretora da Opas.

A pandemia do novo coronavírus atingiu um novo marco no Brasil nesta terça-feira (2): o total de mortos passou de 30 mil. Os óbitos somam 31.199, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde. Foram 1.262 mortes confirmadas nas últimas 24 horas, um novo recorde — 367 delas ocorreram nos últimos 3 dias.  

Após ultrapassar a Espanha e a França nos últimos dias no ranking de países com mais vítimas da pandemia, o Brasil é o quarto na lista de mortes, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins.

Apenas Estados Unidos, Reino Unido e Itália estão na frente do País no número de óbitos. Como o total de mortes na Itália é de 33.530, segundo dados mais recentes, é possível que o Brasil mude de posição nos próximos dias.

A covid-19 já causou mais de 378 mil óbitos no mundo. São 6,3 milhões de casos confirmados, de acordo com dados atualizados nesta terça.

Na comparação internacional, o Brasil é o segundo país com mais diagnósticos, atrás apenas dos Estados Unidos, que conta com 1,8 milhão de casos.

De acordo com o balanço diário nacional publicado nesta terça, o total de casos confirmados chegou a 555.383, com 28.936 somados nas últimas 24 horas. O maior número de infecções está no estado de São Paulo, com 118 mil casos e 7.994 mortes. Em seguida, aparecem Rio de Janeiro, com 5.686 óbitos, Ceará (3.421), Pará (3.040) e Pernambuco (2.933).

Os dados mais recentes reforçam o agravamento da crise sanitária no País. Por 8 vezes, o total de mortes confirmadas de um dia para o outro foi acima de mil.

A primeira vez em que isso ocorreu foi em 19 de maio, com 1.170 óbitos confirmados em 24 horas. O número também foi um marco na evolução diária da pandemia quando comparada a outros países. Superou o total de 919 mortes confirmadas de um dia para o outro no fim de março na Itália, um dos principais epicentros na Europa da crise sanitária e um dos cenários mais dramáticos da pandemia até então.

Dois dias depois, na quinta-feira (21), foi registrado o recorde de confirmações de vítimas da doença em um intervalo de 24 horas: 1.188. O marco foi superado nesta terça.

Há uma semana, em 25 de maio, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos no registro diário de mortes: 807 novos óbitos confirmados pelo Ministério da Saúde no mesmo dia em que o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) americano incluiu 620 mortes no balanço oficial.

Opas alerta sobre flexibilização do isolamento 

Diretores da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da OMS (Organização Mundial da Saúde) para as Américas, manifestaram nesta terça preocupação com a situação brasileira.

A diretora-geral da Opas, Carissa Etienne, destacou a importância de conduzir processos de reabertura de forma cautelosa. “Pensem duas vezes antes de flexibilizar o distanciamento social, que continua sendo a melhor forma de conter o coronavírus. Precisamos ser cuidadosos. Meu conselho é não reabrir as atividades tão rapidamente, sob o risco de perder a vantagem sobre a epidemia conquistada nos últimos meses”, afirmou em coletiva de imprensa por videoconferência.

Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Amazonas, com altos indicadores de mortalidade, têm iniciado planos de flexibilização.

Etienne ressaltou a importância da testagem para esse tipo de iniciativa. “Nossa recomendação sempre foi testar, tratar, rastrear contatos e isolamento social. O distanciamento diminui a transmissão do vírus”, afirmou.

Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados na última sexta, foram processados 930.013 testes. Dessa forma, a taxa de testagem é de 4.428 exames por milhão de habitantes. Nos Estados Unidos, o indicador é de 37.188 testes por milhão de habitantes.

Questionados sobre os riscos de aglomerações de pessoas devido a protestos, os diretores da Opas recomendaram evitar esse tipo de ato. “Se formos a uma manifestação de massa, sem usar máscaras e desrespeitar o isolamento, vamos continuar disseminando a doença”, disse Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Opas.

O especialista destacou que “em países como o Brasil, continuamos observando um aumento inusitado de casos”. “Na última semana houve um aumento de 44% no número de casos e a mortalidade aumentou, bem como o número de municípios que estão relatando casos”, completou.

MICHAEL DANTAS via Getty Images
“Pensem duas vezes antes de flexibilizar o distanciamento social, que continua sendo a melhor forma de conter o coronavírus", alertou diretora da Opas.

Diretrizes do Ministério da Saúde sobre isolamento

Questionado nesta terça sobre a falta de diretrizes atualizadas e detalhadas para flexibilizar o isolamento social, o secretário-executivo substituto do ministério, Élcio Franco, afirmou que a referência que deve ser usada é o boletim epidemiológico publicado em 17 de abril, um dia após a saída de Luiz Henrique Mandetta do comando da pasta.

“Os gestores locais - prefeitos e governadores - de acordo com o acompanhamento da situação, da realidade econômica que a região vive, da capacidade de resposta que sua estrutura de saúde pode estar oferencendo, a evolução da curva epidemiológica, vão definir maiores ou menores restrições”, afirmou Franco, em coletiva de imprensa.

Quando assumiu o Ministério da Saúde, Nelson Teich prometeu novas diretrizes, mas elas nunca foram publicadas.

O documento citado pelo secretário prevê 5 cenários de risco, que vão desde o bloqueio total (lockdown) ao distanciamento social seletivo básico, que prevê, por exemplo, isolamento de grupos específicos, como pessoas com mais de 60 anos.

Um dos indicadores que deve ser avaliado é a ocupação de leitos. Por exemplo, uma cidade com ocupação de leitos originais inferior a 50%, 100% dos leitos adicionais livres, com respiradores e EPIs (equipamentos de proteção individual) disponíveis, poderia flexibilizar o isolamento. 

De acordo com dados do censo hospitalar desta terça, 7.190 dos 15.492 leitos clínicos para covid-19 estão ocupados, o equivalente a 46,41%. Quanto a leitos de UTI para pacientes da doença, 4.617 de 5.061 estão ocupados, o equivalente a 91,23%.

Os dados foram informados por 789 estabelecimentos. O que significa que a informação é limitada, uma vez que há 5.352 estabelecimentos cadastrados.

Ministério da Saúde esvaziado

Indagado sobre a falta de titulares no ministério há semanas, Élcio Franco minimizou o esvaziamento da pasta. “Todas as funções do ministério têm nomeados eventuais substitutos. Isso não faz a máquina parar de funcionar”, disse. De acordo com ele, secretários estão em fase de entrevista para definição e futura nomeação porque precisam preencher requisitos. Ele não informou quais os pré-selecionados.

O empresário Carlos Wizard Martins foi convidado pelo ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, para assumir o cargo de secretário de Ciência e Tecnologia. A secretaria é responsável por ações como o uso de medicamentos no SUS (Sistema Único de Saúde). Wizard afirmou à Folha de S. Paulo que pretende ampliar o uso da cloroquina. Não há comprovação científica do uso do remédio para tratar o novo coronavírus, e a droga aumenta o risco cardíaco.

Nesta terça, o Ministério da Saúde informou que gastou R$ 1 bilhão para habilitar leitos de UTI exclusivos para tratar pacientes com covid-19. Segundo a pasta, 7.441 leitos de UTI foram habilitados. De acordo com o balanço, outros R$ 2 bilhões foram destinados ao setor filantrópico. A pasta informou que entregou 2.651 ventiladores pulmonares até o momento.

Segundo a apresentação, R$ 7,7 bilhões foram repassados pelo governo federal a estados e municípios para enfrentar a pandemia. Também de acordo com o balanço, 3.700 profissionais de saúde do programa Mais Médicos foram alocados em 6 estados: Roraima, Mato Grosso do Sul, Piauí, Espírito Santo, Paraná e Maranhão.

O Ministério Público Federal determinou nesta terça a abertura de um inquérito civil público para apurar a baixa aplicação de dinheiro público do governo federal em ações voltadas à pandemia.

De acordo com os procuradores, de R$ 11,74 bilhões disponibilizados para execução direta, pelo Ministério da Saúde, somente R$ 2,59 bilhões haviam sido empenhados e apenas R$ 804,68 milhões foram efetivamente pagos até 27 de maio, o que significa que apenas 6,8% dos recursos disponíveis haviam sido gastos.

70% dos municípios atingidos pela pandemia

Segundo informações divulgadas pelo ministério nesta sexta, 3.936 (70,7%) dos municípios brasileiros registraram casos de covid-19 e 1.645 (29,5%) confirmaram óbitos causados pela doença. Na terça-feira passada, eram 3.771 cidades afetadas e, em 28 de março, apenas 297.

Até sexta passada, foram contabilizadas 192.8011 hospitalizações por SRAG (síndrome respiratória aguda grave), sendo 65.758 confirmadas para covid-19. Outras 56.535 estão em investigação e o restante se refere a outros vírus respiratórios.

Do total de internações por SRAG, 41.621 evoluíram para óbito, sendo 22.543 confirmados por covid-19. Outras 4.245 mortes estão em investigação, e o restante foi causada por outros vírus respiratórios. 

O ministério não divulga informações atualizadas das mortes ocorridas no dia, apenas mortes confirmadas no dia. Segundo dados divulgados pela pasta nesta terça, 5 de maio é o dia com maior número de óbitos em um único dia: 608. Essas informações são constantemente atualizadas, então há variação dos dados.

Subnotificação da pandemia

A expectativa é que o número atual de óbitos causados pela covid-19 no Brasil seja ainda maior do que os balanços divulgados diariamente devido à demora no resultado dos exames. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Essa demora também se reflete no número de contaminações no País. Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. O exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. Desde o início da pandemia no País, a orientação tem sido para que apenas pacientes com sintomas severos procurem o sistema de saúde.

De acordo com o ministério, todas as análises de mortalidade são feitas a partir do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), em um fluxo que começa na secretaria de saúde municipal, passa pela secretaria de saúde estadual e segue para o ministério.

Apesar de o prazo legal ser de 60 dias, em geral leva de 15 a 30 dias para o ministério receber essa informação, de acordo com o diretor de análise da Secretaria de Vigilância em Saúde da pasta. Além do SIM, o ministério usa o SIVEPGripe para coletar informações sobre óbitos.