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03/11/2019 13:31 -03 | Atualizado 03/11/2019 15:13 -03

Após morte de líder, organização indígena afirma que ‘Bolsonaro tem sangue em suas mãos’

O "Guardião da Floresta" Paulo Guajajara, foi assassinado em emboscada feita por madeireiros na região de Arariboia, no Maranhão.

Sarah Shenker/Survival International
Paulo Guajajara, um dos "Guardiões da Floresta" foi morto com um tiro no rosto durante emboscada feita por madeireiros.

Para a Apib (Associação dos Povos Indígenas no Brasil), o “governo Bolsonaro tem sangue indígena em suas mãos”. Por meio de nota, a associação acusa o atual governo de negligência e lamenta o assassinato do líder indígena Paulo Guajajara, morto na sexta-feira (1), após emboscada de madeireiros.

“O aumento da violência em territórios indígenas é resultado direto de seus discursos odiosos e medidas tomadas contra nosso povo”, afirmou a organização, em comunicado enviado à imprensa, ao citar o presidente.

A organização ainda destaca que os povos indígenas “são responsáveis ​​por preservar 80% da biodiversidade, bem como por combater a crise climática, que é um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade no século XXI”.

“Onde há povos indígenas, há florestas. Portanto, um ataque aos nossos povos representa um ataque a todas as sociedades e ao futuro das próximas gerações. Precisamos parar a escalada dessa política genocida contra nossos povos indígenas no Brasil”, pede a organização.

Patrick Raynaud/Apib
″Às vezes, tenho medo, mas temos que levantar a cabeça e agir. Estamos aqui lutando”, disse Paulino em entrevista à Reuters em setembro.

Paulo Guajajara foi morto com um tiro no rosto durante emboscada feita por madeireiros na Terra Indígena Arariboia, na região de Bom Jesus das Selvas, entre as Aldeias Lagoa Comprida e Jenipapono, no Maranhão. Etnias Ka’apor, Guajajaras e Awá-Guajás vivem no local, que faz parte da Amazônia Legal.

Conhecido como Kwahu Tenetehar, ele era integrante de um grupo de agentes florestais indígenas autodenominados “Guardiões da Floresta” que, desde 2012, tentam proteger a região do desmatamento e ações criminosas de grileiros e madeireiros por conta própria e é composto por 180 indígenas.

Na ação que vitimou Paulo, outro líder indígena, Laércio Guajajara, conhecido como Tainaky Tenetehar, que também é “guardião da floresta”, foi baleado, mas sobreviveu ― ele levou tiros nas costas e nos braços, e está em recuperação.

A morte do líder indígena foi confirmada pelo governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular. Ontem, o governo local deslocou equipes para apurar o caso e proteger os ameaçados, junto com a Secretaria de Segurança Pública. 

Na manhã de ontem, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, afirmou em sua conta no Twitter, que a Polícia Federal vai apurar o assassinato. 

“Não pouparemos esforços para levar os responsáveis por este crime grave à Justiça”, disse Moro. Segundo a assessoria de imprensa do ministério, equipe da PF está se preparando para ir ao local onde ocorreu o assassinato.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), disse também pelo Twitter que a “competência para apurar crimes contra direitos indígenas, em face de suas terras, é federal”. Disse ainda que “desde ontem a Polícia do Maranhão está colaborando com investigações sobre crimes na TI Arariboia”.

O presidente Jair Bolsonaro, que teve nome citado em investigação do caso Marielle Franco nesta semana, não se pronunciou sobre o tema até o momento. A coordenadora executiva da Apib, Sonia Guajajara, também por meio de nota, afirmou que o governo está desmantelando agências ambientais e indígenas e deixando tribos para se defender da invasão de suas terras.

Stefano Montesi - Corbis via Getty Images
A coordenadora executiva da Apib, Sonia Guajajara.

“Mais um de nossos guerreiros perde a vida em defesa do Território. Não queremos mais ser estatística. Queremos providências do Poder Público”,disse a ex-candidata a vice-presidência da República pelo Psol. ”É hora de dar um basta nesse genocídio institucionalizado. Parem de autorizar o derramamento de sangue de nosso povo.”

Atualmente, oito líderes indígenas da Apib, entre eles as líderes indígenas Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, estão em viagem pela Europa para denunciar a grave crise de direitos humanos enfrentada pelos povos indígenas do Brasil.

Intitulada “Sangue indígena: nem uma gota a mais”, a campanha pede às autoridades e líderes empresariais da Europa que respondam à crescente violência e devastação ambiental na Amazônia e em todo o país.

Os Guajajaras, um dos maiores grupos indígenas do Brasil, com cerca de 20 mil habitantes, criaram os Guardiões da Floresta para patrulhar uma vasta reserva. A área é tão grande que uma tribo pequena e ameaçada de extinção, os Awá Guajá, vive nas profundezas da floresta sem nenhum contato com o mundo exterior.

Ueslei Marcelino / Reuters
O líder indígena Paulo Paulino Guajajara sorri para uma foto em um acampamento improvisado na terra indígena de Arariboia, perto da cidade de Amarante, estado do Maranhão, Brasil, 10 de setembro de 2019. Foto tirada em 10 de setembro de 2019.

Paulo Paulino Guajajara, que estava na casa dos vinte anos e deixa um filho, disse à Reuters em entrevista na reserva em setembro que proteger a floresta dos intrusos havia se tornado uma tarefa perigosa, mas seu povo não podia ceder ao medo.

″Às vezes, tenho medo, mas temos que levantar a cabeça e agir. Estamos aqui lutando”, disse, enquanto ele e outros guerreiros se preparavam para atravessar a floresta em direção a um campo de corte de madeira. “Estamos protegendo nossa terra e a vida nela, os animais, os pássaros e até os Awá [pessoas] que também estão aqui”, disse na época. 

A morte do líder indígena ocorre em meio a um aumento nas invasões em reservas por madeireiros e grileiros ilegais desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência e prometeu abrir terras indígenas protegidas para o desenvolvimento econômico.

“Há tanta destruição da natureza acontecendo, boas árvores com madeira tão dura quanto aço sendo cortadas e levadas. Temos que preservar esta vida para o futuro dos nossos filhos”, disse Paulino à Reuters.

Segundo o G1, em setembro, lideranças das etnias que vivem na região denunciaram às autoridades que estavam sendo alvo de ameaças de madeireiros instalados dentro da reserva indígena. 

Nesta mesma época, os “Guardiões da Floresta” realizaram a apreensão de quatro caminhões, duas motos e uma moto serra que estavam sendo utilizados na extração ilegal de madeira das terras indígenas. 

″É fundamental que as autoridades realizem uma investigação completa e independente sobre o ataque, e haja punição dos responsáveis, além de proteção imediata ao povo Tenetehara”, apontou a Human Rights Watch, organização em defesa dos direitos humanos sobre o caso. 

Segundo a organização, o nome de Paulo Guajajara se soma a uma longa lista de mais de 300 pessoas assassinadas durante a última década no contexto de conflitos pelo uso da terra e de recursos naturais na Amazônia – muitas delas por pessoas envolvidas na extração ilegal de madeira – de acordo com dados compilados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

“O Brasil precisa adotar medidas urgentes contra os madeireiros que intimidam, ameaçam, atacam e até matam aqueles que, como Paulo Paulino e Laércio tentam proteger a floresta, que é património de todos os brasileiros”, disse.

Os números da violência contra povos indígenas no Brasil

ASSOCIATED PRESS
Teresa Krinkaty, durante o acampamento Terra Livre, em Brasília. Evento acontece anualmente, no Distrito Federal.

Segundo o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2017, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no último ano foram registrados 109 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio”, enquanto em 2017 haviam sido registrados 96 casos. De acordo com o Cimi, nos nove primeiros meses de 2019, foram contabilizados 160 casos do tipo em terras indígenas do Brasil.

Também houve um aumento no número de assassinatos registrados (135) em 2018, sendo que os estados com maior número de casos foram Roraima (62) e Mato Grosso do Sul (38). Em 2017, haviam sido registrados 110 casos.

Além dos dados, ações recentes do governo federal têm colocado essa questão em pauta. Recentemente, o STF (Supremo Tribunal Federal) manteve a suspensão da medida provisória que transferiu a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. Assim, voltou a ser atribuição da Funai (Fundação Nacional do Índio), ligada ao Ministério da Justiça.

As denúncias de invasão de territórios indígenas têm sido recorrentes desde o início do ano. Em julho, o conselho da etnia Waiãpi denunciou a invasão da Terra Indígena Waiãpi, no oeste do Amapá, e o assassinato  do cacique Emyra Waiãpi no local. Agentes da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública não encontraram a presença de garimpeiros e invasores na região.