OPINIÃO
06/02/2020 01:00 -03 | Atualizado 06/02/2020 01:00 -03

A morte de Carlos pelo acaso 'sintetiza toda a alma da novela', diz autora de 'Éramos Seis'

Conversei com Ângela Chaves sobre a morte do personagem e o que isso representa para a trama das 6 da TV Globo.

Victor Pollak/TV Globo
Glória Pires e Danilo Mesquita em cena de "Éramos Seis".

Nesta semana, a novela Éramos Seis entra em nova fase com um marco na trama: a morte do personagem Carlos (Danilo Mesquita), o filho mais velho de Lola (Glória Pires). O entrecho já era aguardado, considerando que aconteceu nas versões anteriores da novela (em 1977 e 1994) e até no romance que as originou.

Conversei com a autora Ângela Chaves sobre a morte do personagem e o que isso representa para a trama. Questionei por que não poupar Lola de mais esse sofrimento, já que a autora tem a liberdade de mudar a história original; do suposto romance entre Lola e Afonso (Cássio Gabus Mendes), que não existe nas versões anteriores; e se Silvio de Abreu (diretor de dramaturgia da Globo e um dos autores da novela original) tem influência sobre seu texto.

A morte de Carlos ocorre no livro em um momento diferente do exibido na novela escrita por Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho em 1977 (morte esta reeditada no remake de 1994). No livro, Carlos luta na Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, mas retorna para casa são e salvo vindo a falecer bem depois, da mesma doença que vitimou seu pai. Por que você decidiu manter a proposta dos autores da novela?

No romance, Carlos é o único filho de Lola que morre, mas morre de doença. Vive infeliz e triste, trabalhando em algo que não gosta, desde que largou a Medicina, e tem uma úlcera. Sílvio de Abreu e Rubens Ewald deram a Carlos uma morte mais heroica e dramática, um dos momentos mais bonitos da adaptação deles. Sintetiza toda a alma da novela, a morte de um homem bom pelo acaso. Carlos está no lugar errado, na hora errada, tentando fazer o que acha certo: impedir o namoro da irmã. Num certo sentido, morre pelo acaso e por sua teimosia, porque só enxerga o que “deve fazer’, e não o mundo à sua volta, assim como Inês e mesmo Alfredo já disseram a ele. É um momento muito triste, mas muito importante, e será mantido como na versão de 1994. Ele é atingido na manifestação que foi o estopim da Revolução Constitucionalista; depois disso os ânimos se tornam mais exaltados e acontece a Revolução.

Na novela, quem vai lutar é Alfredo, como nas outras versões. Alfredo vai por um motivo mais pessoal, porque entende que precisa “vingar” o irmão ou extravasar a dor que sente. A morte de Carlos é necessária para contarmos a história desta família, por mais querido que seja o personagem, por mais injusta que seja a situação, e por mais que me doa mantê-la. A morte do primogênito transforma a vida dos irmãos e da mãe.

“Como ser feliz depois de uma tragédia dessas?”, é o que Lola se pergunta. É o que todos se perguntam! E, no entanto, cada um de seu jeito, encontra uma forma de ir em frente, porque é assim que tem que ser. Éramos Seis é uma novela num estilo diferente do folhetim clássico, é um drama, uma saga familiar, e é este o seu maior desafio e o seu maior encanto. Acompanhamos a vida cotidiana dos personagens, a família em primeiro plano, sem grandes vilões. As escolhas, as decisões e até os momentos históricos definem os destinos, ou então o acaso, o que pode ser trágico. 

Galeria de Fotos Éramos Seis - A morte de Carlos Veja Fotos

Éramos Seis, até o momento, sinaliza para um romance entre Lola e Afonso que não existe nem no livro, nem em nenhuma das outras versões da novela. Se em sua adaptação Lola pode ter esse momento de felicidade, por que não poupar Carlos? A morte de Carlos é realmente imprescindível para a novela?

A morte de Carlos é um marco na história. Assim como foi a morte do pai. Só que a do filho é mais trágica, é absurda. Mas é necessária para contar sobre a vida desta mulher de fibra, que sofre e segue, mesmo após a perda trágica do filho “mais amigo”. O livro tem passagens muito bonitas, pensamentos e diálogos de Lola com a Santa, que serão aproveitadas neste momento.

Como Lola e Inês, as mais afetadas com a morte de Carlos, tentarão superar este trauma? A trama seguirá como nas versões anteriores ou você prepara alguma narrativa que se adeque à contingência e ao público atual?

Lola e Inês serão as mais atingidas, por óbvio. E cada uma à sua maneira viverá o luto. Lola recusando qualquer forma de consolo e vislumbre de felicidade. Inês, perdida em suas dúvidas, sofrendo pelo amor que, embora apresentasse sinais de desgaste, pelo tempo e pelas diferenças entre ambos, representava o seu norte. Também Isabel e Alfredo serão atormentados pela culpa.

"A maior riqueza do romance é o registro que faz da mulher da época, da sua força na família, mesmo no sofrimento."Ângela Chaves, autora da novela "Éramos Seis"

 

O público das redes sociais torce por um final feliz para Lola e pela união dela com Afonso. O que a levou a enveredar-se por esse caminho? Aconteceu ou você já tinha esse entrecho em mente antes da estreia da novela?

Desde a sinopse sinalizei para que Lola tivesse um sopro de felicidade, diante de uma vida tão difícil. Uma mensagem positiva, de recomeço, mesmo após tantas tragédias. E assim não acabasse de maneira melancólica e lamentosa como acaba no livro, como se só lhe restasse olhar para trás, depois do que viveu.

A maior riqueza do romance, para mim, é o registro que faz da mulher da época, da sua força na família, mesmo no sofrimento, na opressão. A força para encarar os dissabores e se manter firme. Mas, depois de tudo, por que não ter a chance de recomeçar como tantas, mesmo da época, fizeram? A felicidade está na família, mas os laços de amizade também formam uma família, e aqui me aproximo de uma visão mais atual da mulher e da família, mais positiva. Portanto, desde sempre penso num outro final, mas nada está decidido. A torcida do público me deixou feliz.

Qual a gerência de Silvio de Abreu sobre Éramos Seis? Ele aprova as adaptações e alterações ou mal faz comentários?

Sílvio dá total liberdade, mas está sempre aberto para debater se houver dúvidas, para bater bola, aconselhar. Desde sempre o remake é uma adaptação da novela de 1994, feito com muito critério a partir do script original. Eu e os demais autores que trabalham comigo - Bernardo Guilherme, Daisy Chaves e Juliana Peres - seguimos este trilho, nos debruçamos sobre o texto original.

Algumas alterações foram imprescindíveis, não só por conta do ritmo narrativo, como para adequar à atualidade e ao meu olhar. Com o tempo, é natural que as versões se distanciem porque os personagens vão ganhando nova vida. Clotilde, Almeida, Olga e Zeca cresceram muito, por exemplo, e se tornaram bem diferentes das versões anteriores.