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15/06/2019 13:02 -03 | Atualizado 15/06/2019 13:14 -03

Moro sugeriu a procuradores nota contra 'showzinho' da defesa de Lula, diz site

Novas mensagens divulgadas pelo Intercept indicam proximidade do ex-juiz com acusadores do ex-presidente.

Reuters
The Intercept Brasil divulgou novas mensagens atribuídas a Sérgio Moro nesta sexta-feira (14).

Novos trechos de conversas atribuídas ao então juiz Sérgio Moro e a procuradores da Operação Lava Jato foram publicadas pelo site The Intercept Brasil na noite desta sexta-feira (14). A suposta troca de mensagens mostra que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, sugeriu aos procuradores do MPF (Ministério Público Federal) a divulgação de uma nota que rebatesse a defesa de Lula após depoimento do ex-presidente à Lava Jato em 2017.

De acordo com o site, às 22h04 do dia 10 de maio de 2017, data do depoimento, Moro digitou uma mensagem para o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima perguntando o que ele havia achado do depoimento de Lula no processo do tríplex do Guarujá.

Santos Lima respondeu: “Achei que ficou muito bom. Ele começou polarizando conosco, o que me deixou tranquilo. Ele cometeu muitas pequenas contradições e deixou de responder muita coisa, o que não é bem compreendido pela população. Você ter começado com o tríplex desmontou um pouco ele”.

“A comunicação é complicada pois a imprensa não é muito atenta a detalhes”, respondeu Moro.

Às 22h12, de acordo com o Intercept, Moro aconselhou: “Talvez vcs devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele”.

Um minuto depois, Moro completou: “Porque a Defesa já fez o showzinho dela.”

“Podemos fazer. Vou conversar com o pessoal. Não estarei aqui amanhã. Mas o mais importante foi frustrar a ideia de que ele conseguiria transformar tudo em uma perseguição sua [de Moro]”, respondeu o procurador.

De acordo com o site, na sequência, Santos Lima copiou o diálogo que teve com Moro em chat privado e colou em outro chat privado, com o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol.

O Intercept também publicou mensagens de Santos Lima escritas em outro chat com os procuradores da força-tarefa que já discutiam a possibilidade de abordar publicamente o depoimento de Lula.  

Nesse grupo, Santos Lima alertou Dallagnol que havia enviado uma mensagem privada para ele. Ele se referia às mensagens que trocara com Moro. Em seguida, o coordenador da Lava Jato defendeu a publicação da possível nota:

“Temos que avaliar os seguintes pontos: 1) trazer conforto para o juízo e assumir o protagonismo para deixá-lo [Sergio Moro] mais protegido e tirar ele um pouco do foco; 2) contrabalancear o show da defesa. E o formato, concordo, teria que ser uma nota, para proteger e diminuir riscos. O JN [Jornal Nacional] vai explorar isso amanhã ainda. Se for para fazer, teríamos que trabalhar intensamente nisso durante o dia para soltar até lá por 16h.”

Em um outro grupo com membros da assessoria de imprensa do MPF, segundo o Intercept, Dallagnol mandou um mensagem também justificando a publicação da possível nota.

“As razões para eventual manifestação são: a) contrabalancear as manifestações da defesa. Vejo com normalidade fazer isso. Nos outros casos não houve isso. b) tirar um pouco o foco do juiz que foi capa das revistas de modo inadequado.”

Um dos assessores, que não teve o nome divulgado, chegou a rebater: “Mudar a postura vai levantar a bola pra outros questionamentos”.

Os procuradores divulgaram no dia seguinte a nota na qual expunham o que julgavam ser as contradições de Lula, como teria orientado Moro. No final desse mesmo dia, segundo o Intercept, Dallagnol enviou outra mensagem a Moro dizendo:

“Informo ainda que avaliamos desde ontem, ao longo de todo o dia, e entendemos, de modo unânime e com a Ascom [assessoria de comunicação], que a imprensa estava cobrindo bem contradições e que nos manifestarmos sobre elas poderia ser pior.”

De acordo com o Intercept, o coordenador da Lava Jato seguiu: “Decidimos fazer nota só sobre informação falsa, informando que nos manifestaremos sobre outras contradições nas alegações finais.”

Outro lado

Em nota divulgada em seu perfil nas redes sociais, o procurador regional da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos Lima afirmou desconhecer “completamente as mensagens citadas” e tachou as reportagens do Intercept de “rodada de mentiras”.

“Creio que o ‘órgão jornalístico’ deve uma explicação de como teve acesso a esse material de origem criminosa, e quais foram as medidas que tomou para ter certeza de sua veracidade, integridade e ausência de manipulação”, criticou Santos Lima.

Veja o texto na íntegra:

O Intercept afirma que procurou a assessoria do ministro Sérgio Moro na sexta (14) e apresentou com antecedência as conversas destacadas na reportagem. Em resposta, recebeu uma nota dizendo:

“O ministro da Justiça e Segurança Pública não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas, especialmente sem análise prévia de autoridade independente que possa certificar a sua integridade. No caso em questão, as supostas mensagens nem sequer foram enviadas previamente.”