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29/06/2019 11:55 -03 | Atualizado 29/06/2019 13:01 -03

Procuradores da Lava Jato criticaram Moro por ingresso no governo Bolsonaro, diz Intercept

Para ministro da Justiça, mensagens são passíveis de adulteração e, se fossem verdadeiras, não passariam de "supostas fofocas".

EVARISTO SA via Getty Images
Sérgio Moro trocou comando da Operação Lava Jato por cargo no Executivo de Bolsonaro.

Novas conversas atribuídas a procuradores da Operação Lava Jato divulgadas pelo site The Intercept Brasil na madrugada deste sábado (29) mostram a repercussão do ingresso de Sérgio Moro no governo Bolsonaro. As trocas de mensagem via Telegram, vindas de “fonte anônima”, revelam o incômodo de membros da força-tarefa com a decisão do então juiz, no fim de outubro de 2018, de assumir a pasta de Justiça do governo recém-eleito.

No grupo Filhos do Januario 3, trecho reproduzido pelo Intercept indica queixas em uníssono. Para o procurador-regional da República Antônio Carlos Welter, do Ministério Público Federal no Paraná, a adesão de Moro a Bolsonaro alimentaria a “teoria da conspiração” do PT de que a condenação de Lula foi resultado de perseguição política:

“Como ministro da Justiça, vai ter que explicar todos os arroubos do presidente, vai ter que engolir muito sapo e ainda vai ser profundamente criticado por isso. Veja que um dos fundamentos do pedido feito ao comitê da ONU para anular o processo do Lula é justamente o de falta de parcialidade do juiz. E logo após as eleições ele é convidado para ser ministro. Se aceitar, vai confirmar para muitos a teoria da conspiração. Vai ser um prato cheio.”

Para Welter, assumir a Justiça seria “incompatível com a [postura] de juiz”. “É o fim ir se encontrar com Bolsonaro e semana que vem ir interrogar o Lula”, afirma a procuradora Isabela Groba.

Já a procuradora da República Monique Cheker teria classificado de “inquisitivo” o então juiz. Em conversa com colega, dá a entender que Moro não costuma levar em conta a posição do Ministério Público em suas decisões. “Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, diz, segundo o Intercept.

Outro membro da força-tarefa da Lava Jato, Sérgio Luiz Dias, lamenta que a decisão de Moro ser ministro de Bolsonaro impacte negativamente no legado da Lava Jato.

“Para mim, LJ [Lava Jato], além de ser um símbolo, é um método de atuação das nossas instituições, que nos permitiu, até aqui, surfar juntos em uma excelente onda. Mas será difícil, muito difícil, hoje e provavelmente no futuro, com a assunção de Moro ao MJ, afastar a imagem de que a LJ integrou o governo de Bolsonaro. Vejo, por esse motivo, com muita preocupação esse passo do Moro.”

Já a procuradora Laura Tessler usa apelido jocoso de Bolsonaro para criticar novo passo de Moro. “Já tem gente falando que isso mostraria a parcialidade dele ao julgar o PT, e o discurso vai pegar. Péssimo... E Bozo é muito malvisto; se juntar a ele vai queimar o Moro.”

A posição de Monique Cheker

A procuradora Monique Cheker, que teria chamado Moro de “inquisitivo”, compartilhou hoje pelo Twitter imagens que mostram edição do Intercept. Em tweet de Glenn Greenwald, editor-fundador do site, antes da publicação da matéria, o nome do interlocutor de Cheker é Angelo Goulart Villela. Villela foi preso em 2017 e não conversou com a procuradora em 2018. 

Na versão final, publicada no site, aparece apenas o nome Angelo, que seria do procurador Angelo Costa.

O Twitter confirma que o tweet com o nome incorreto foi deletado por Glenn Greenwald. Glenn explica que foi um erro de edição antes da publicação no site:

 

 

Ao Antagonista, Monique Cheker disse em nota que não reconhece os registros do Intercept. “Com menção a minha pessoa, posso assegurar que possui dados errados e alterações de conteúdo”, completa.

A resposta de Sérgio Moro

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi ao Twitter no início da tarde para falar sobre as novas conversas divulgadas pelo Intercept. Ele ressaltou “trocas de nomes e datas” pelo site. Segundo ele, se o conteúdo fosse verdadeiro, “não passaria de supostas fofocas de procuradores”.

Moro defende que as mensagens não são autênticas e, portanto, “passíveis de adulteração”. “O que se tem é um balão vazio, cheio de nada.”

Interferência de Moro na investigação

De acordo com o Intercept, os diálogos no aplicativo Telegram foram enviados à reportagem por uma fonte anônima e ocorreram entre 2015 e 2018, período em que Moro era responsável pelos julgamentos em primeira instância dos processos relativos à Lava Jato. A Polícia Federal investiga se o conteúdo foi obtido por ataque de hackers.

As conversas do então magistrado com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa de Curitiba (PR), e outros integrantes do Ministério Público, sugerem que Moro pode ter interferido na atuação da Procuradoria.

De acordo com as reportagens, o então juiz sugeriu ao procurador troca na ordem de fases da Lava Jato, cobrou agilidade em novas operações, deu conselhos estratégicos e pistas de investigação.