POLÍTICA
20/06/2019 01:00 -03 | Atualizado 20/06/2019 08:41 -03

Moro tem saldo positivo no Senado e deve manter estratégia sobre vazamentos

Moro contou com apoio de senadores aliados e deve continuar com o foco sobre a existência de uma conspiração para acabar com a Lava Jato e em ação de hackers.

Adriano Machado / Reuters

No centro de um escândalo sobre sua atuação como juiz na condução da Operação Lava Jato, o ministro da Justiça,Sérgio Moro, articula como seguirá os próximos dias com a iminente ameaça de vazamento de mais diálogos que possam lhe atingir.

A expectativa é que pequenos ajustes sejam feitos, mas que o discurso do ministro siga na linha adotada nos últimos dias. Isso porque, em depoimento na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal nesta quarta-feira (19), Moro confirmou a eficácia da estratégia.

A tática se sustenta em quatro pilares: afirmar que há uma conspiração para acabar com a Lava Jato, ressaltar que foi vítima de hackers criminosos, não negar com veemência o conteúdo vazado e naturalizar os diálogos.

O ministro trata como normal a troca de mensagens atribuída a ele e ao procurador Deltan Dallagnol que sugere uma possível interferência do então juiz nas investigações da operação. Questionado na CCJ, Moro disse estar “absolutamente tranquilo”. 

“Eu não tenho nenhum apego pelo cargo em si. Apresente tudo. Vamos submeter isso, então, ao escrutínio público. E, se houver ali irregularidade da minha parte, eu saio. Mas não houve. Por quê? Porque eu sempre agi com base na lei e de maneira imparcial”, disse.

O ministro, no entanto, se mostrou irritado e teve dificuldade em responder questões nos momentos em que foi mais pressionado. A reação animou deputados da oposição que passaram pelo Senado para acompanhar a sessão. Há uma articulação para convidar Moro a depor também na Câmara.

“O ministro diz que não há nada de anormal, mas reconhece a conversa. Ele fere a Constituição Federal, o Código de Processo Penal e o Código de Ética da Magistratura. O caminho seguinte é uma CPI para investigar o conteúdo e o conluio entre o juiz e o Ministério Público”, disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). 

Na Câmara, poderia haver maior pressão sobre o ministro. Um dos motivos que levou Moro a negociar seu depoimento espontâneo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi o fato de a Casa ser mais controlável. 

Moro também contou com uma vantagem numérica a seu favor. Havia na comissão mais senadores dispostos a defendê-lo do que a atacar. Partidos como PSDB e PP saíram pela tangente. 

Adriano Machado / Reuters
Super-Moro em frente ao Congresso. 

Era esperada uma arguição forte do tucanos. No entanto, no dia anterior ao depoimento, o site The Intercept divulgou mais trechos de conversas do ex-juiz que envolvem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).  Ainda assim, a proteção foi menos aguerrida do que o esperado.

Com muito tempo para “elogios”, as críticas foram esvaziadas. Para a presidente da comissão, Simone Tebet (MDB-MS), o saldo para Moro foi positivo diante do número de senadores que defenderam a Operação Lava Jato.

Ela considerou satisfatórias as respostas do ministro e diz acreditar que não será instalada uma comissão parlamentar de inquérito (CPI). “Teria de vir um fato novo para a CPI ressurgir das cinzas”, afirmou ao HuffPost Brasil.

A contestação sobre a veracidade das mensagens também é um fator que dificulta a instalação da CPI, uma vez que o acesso ao material original não é público. Na audiência, Moro cobrou que o Intercept divulgasse a íntegra das conversas. Ele afirmou que não tem acesso aos diálogos porque não usa o Telegram desde 2017.

O aplicativo informa, em seu site, que “se você sair da conta, manterá todas as suas mensagens na nuvem”, mas “perderá todos os seus chats secretos e todas as mensagens dentro desses chats secretos”.

 

Próximos passos

Além da expectativa do vazamento de mais diálogos e da pressão na Câmara dos Deputados por explicações, há outros movimentos que também podem respingar no ministro.

O parecer do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) sobre o projeto de lei das 10 medidas contra corrupção, no qual deputados incluíram uma proposta de punição de juízes e membros do Ministério Público por abuso de autoridade, será votado na CCJ na próxima quarta-feira (26) e, se aprovado, segue para o plenário.

Foi feito um acordo para que não haja audiência pública sobre o tema, solicitada pela senadora Juíza Selma (PSL-MT).

Há ainda expectativa de depoimento do procurador Deltan Dallagnol. Ele foi convidado, mas ainda não respondeu se aceitará o convite e quando teria disponibilidade para comparecer ao Congresso.