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10/06/2019 08:42 -03 | Atualizado 10/06/2019 10:46 -03

Moro discutiu Lava Jato com procurador, mostram conversas privadas divulgadas por site

The Intercept publicou supostas mensagens nas quais o então juiz estaria colaborando com Deltan Dallagnol; MPF diz que membros são vítimas de 'ação criminosa de hacker'.

Montagem/ Associated Press e AFP/Getty Images

O site The Intercept Brasil publicou na tarde de domingo (9) trechos de supostas mensagens privadas trocadas entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol, que mostram Moro colaborando com o membro do Ministério Público.

O conteúdo, segundo o Intercept, foi recebido de uma fonte anônima, e faz parte de um pacote de troca de mensagens privadas e de grupos da força-tarefa da Lava Jato no aplicativo Telegram entre os anos de 2015 e 2018.

“Em diversas conversas privadas, até agora inéditas, Moro sugeriu ao procurador que trocasse a ordem de fases da Lava Jato, cobrou agilidade em novas operações, deu conselhos estratégicos e pistas informais de investigação, antecipou ao menos uma decisão, criticou e sugeriu recursos ao Ministério Público e deu broncas em Dallagnol como se ele fosse um superior hierárquico dos procuradores e da Polícia Federal”, diz o texto do Intercept.

Em um dos trechos divulgados, o então juiz Moro, hoje ministro da Justiça, teria passado informalmente uma pista sobre o caso Lula para que Dallagnol investigasse.

“Então. Seguinte. Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodado por ter sido ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transferências de propriedade de um dos filhos do ex-Presidente. Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou então repassando. A fonte é séria”, diz a mensagem atribuída a Moro.

O procurador responde que “fará contato” com a pessoa. Pouco depois, diz que a pessoa não quis falar e que estava pensando em “fazer uma intimação oficial até, com base em notícia apócrifa”. “Melhor formalizar então”, diz Moro. 

Diante da publicação pelo site, Moro disse, em seu perfil no Twitter, que as “supostas mensagens” foram “obtidas por meios criminosos de celulares de procuradores da Lava Jato”.

Em nota oficial, ele disse lamentar “a falta de indicação de fonte de pessoa responsável pela invasão criminosa de celulares de procuradores”. “Assim como a postura do site que não entrou em contato antes da publicação, contrariando regra básica do jornalismo”, escreveu Moro.

O site disse, em editorial, que “não solicitou comentários de procuradores e outros envolvidos nas reportagens para evitar que eles atuassem para impedir sua publicação e porque os documentos falam por si”.

Ainda na nota, Moro diz que nas mensagens que o citam “não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato”.

Dallagnol, por sua vez, apenas tuitou trechos da nota oficial da força-tarefa da Lava Jato que fala que a “atuação sórdida daqueles que vierem a se aproveitar da ação do ‘hacker’ para deturpar fatos, apresentar fatos retirados de contexto e falsificar integral ou parcialmente informações atende interesses inconfessáveis de criminosos atingidos pela Lava Jato”. 

Além da troca de mensagens entre Moro e Dallagnol, o site também publicou trechos de conversas ocorridas em um grupo de Telegram de procuradores da Lava Jato. Num desses trechos, os membros do Ministério Público se queixam do pedido de entrevista feito pela Folha de S. Paulo ao ex-presidente Lula, preso em Curitiba, pouco antes do primeiro turno da eleição de 2018.

As mensagens mostram a preocupação dos procuradores de que a entrevista, que havia sido autorizada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski, fosse pender a balança a favor do PT nas eleições. “Sei lá…mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad”, escreveu a procuradora Laura Tessler, segundo o site.

A conversa que se segue chega a ter sugestões de alternativas para que a entrevista à Folha se tornasse uma coletiva de imprensa com Lula para o “circo ser menor armado” e “com a chance de, com a possível confusão, não acontecer”. Um dos procuradores sugere “vazar uma eventual petição para veículos de imprensa”.

Nenhuma das sugestões aparentemente se desenvolve, e os procuradores se mostram aliviados quando, horas depois, o ministro do STF Luiz Fux concede uma liminar contra a entrevista, atendendo ao pedido do Partido Novo.

Para lideranças petistas, a divulgação dessa parte das conversas e de outra em que Dallagnol diz a um colega que tinha dúvidas sobre parte da acusação a Lula dias antes de apresentá-la são “provas” para anular o processo que condenou o ex-presidente em duas instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro. 

Em 9 de setembro de 2016, Deltan Dallagnol enviou uma mensagem a um grupo de procuradores, batizado de Incendiários ROJ, na qual ele diz que “falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”.

Ainda sobre a dúvida em relação ao tríplex, Dallagnol se escora em uma reportagem publicada pelo jornal O Globo em 2010. A reportagem não cita a OAS nem a Petrobras, afirma “apenas que a falência da cooperativa que construía o prédio poderia prejudicar o casal Lula”. O procurador sugere aos colegas irem atrás da repórter que assina a matéria para descobrir mais informações e a fonte dela. 

Antes mesmo de falar com a repórter, ele já se diz mais tranquilo. “Vcs não têm mais a mesma preocupacção que tinham quanto ao imóvel, certo? Pergunto pq estou achando top e não estou com aquela preocupação.”

Para a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, “o Intercept traz as provas do que sempre denunciamos: Moro e Dallagnol atuaram combinados, com parcialidade e motivações políticas, para impedir a vitória eleitoral de Lula e do PT”. “Forjaram a acusação sobre provas e armaram farsa jurídica contra Lula. Esse processo tem de ser anulado”, escreveu Gleisi em seu perfil no Twitter.

De acordo com as mensagens, Moro e Dallagnol também discutiram o vazamento de áudio entre Dilma e Lula. “A decisão de abrir está mantida, mesmo com a nomeação, confirma?”, pergunta Dallagnol. Em outro momento, Moro diz: “Não me arrependo do levantamento do sigilo. Era a melhor decisão. Mas a reação está ruim”.

O Intercept diz em seu editorial que decidiu publicar o conteúdo recebido “pelas consequências incomparáveis das ações da Lava Jato em todos esses anos de investigação” e cita o caso de Lula como determinante.

“O mais relevante: a Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível (...). Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro. A importância dessa reportagem aumentou ainda mais depois da nomeação de Moro ao ministério da Justiça.”

Em nota divulgada na madrugada, o Ministério Público Federal no Paraná disse que a força-tarefa “apenas oferece acusações quando presentes provas consistentes dos crimes”.

“Antes da apresentação de denúncias são comuns debates e revisões sobre fatos e provas, de modo a evitar acusações frágeis em prejuízo aos investigados. No caso Triplex, a prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro foi examinada por nove juízes em três instâncias que concordaram, de forma unânime, existir prova para a condenação.”

O MPF, no entanto, indica que o conteúdo publicado pelo Intercept não é isento. ”É digno de nota o viés tendencioso do conteúdo até o momento divulgado, o que é um indicativo que pode confirmar o objetivo original do hacker de, efetivamente, atacar a operação Lava Jato”.

Um dos três fundadores do Intercept é o jornalista Glenn Greenwald, marido do deputado de oposição David Miranda (PSol-RJ), o que se tornou motivo de críticas entre os filhos do presidente Jair Bolsonaro. 

 

Invasão de telefones

As reportagens do Intercept foram publicadas 5 dias depois de o ministro Sergio Moro ter tido o celular hackeado. O site, no entanto, afirma que recebeu o conteúdo antes da invasão. Destaca ainda que seu único papel foi o recebimento do material por meio de uma fonte, que os “contatou há diversas semanas e nos informou de que já havia obtido todas as informações e estava ansiosa para repassá-las a jornalistas”. 

De acordo com o Estadão, há mais de um mês a Polícia Federal investiga ataques feitos por hackers a telefones de procuradores da força-tarefa da Lava Jato. As ações ocorrem em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. 

Uma fonte do Ministério Público que conversou com a reportagem do Estadão recriminou o uso do Telegram para troca de mensagens. Segundo a fonte, há “uma rede oficial e segura do MPF para esse fim”. Ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio de Mello também criticou o uso do aplicativo ao jornal. “A troca de mensagens entre juiz e Estado acusador tem de ser no processo, com absoluta publicidade. A internet é sempre perigosa”, disse.