POLÍTICA
02/07/2019 21:58 -03

As falas que definem as 7 horas do depoimento de Sérgio Moro na CCJ da Câmara

Ministro deixou a audiência aos gritos de "ladrão" e "fujão", puxados por parlamentares da oposição após um bate-boca com deputados da ala governista.

Adriano Machado / Reuters
"Solicitaria afastamento se fosse demonstrado que eu pratiquei alguma irregularidade", diz o ministro Sérgio Moro. 

As mais de 7 horas em que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, prestou depoimento aos deputados na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados podem ser resumidas em duas declarações: “Alguém com muitos recursos está por trás dos ataques à Lava Jato” e “Quem nunca foi juiz e recebeu um advogado?”

Essas afirmações refletem a estratégia que o ex-juiz da 1ª instância no Paraná adotou para se blindar da acusação de que teria interferido no trabalho de procuradores da força tarefa da Lava Jato. Desde 9 de junho, a conduta de Moro está em xeque por causa da divulgação feita pelo site The Intercept de diálogos atribuídos a ele e a integrantes do Ministério Público. 

Insatisfeitos com as falas do ministro, parlamentares da oposição elevaram o tom. O deputado Glauber Braga (PSol-RJ) chegou a fazer uma comparação entre as atitudes do ministro e de um juiz de futebol. A ala governista reagiu, os dois grupos reagiram, e começaram a bater boca. No meio do tumulto, a audiência foi encerrada e o ministro deixou o plenário aos gritos de “ladrão” e “fujão”. A base tentou reabrir a sessão, mas o ministro já tinha ido embora. 

Estratégia

Em sua fala, ministro insiste que a troca de mensagens foi acessada de maneira criminosa e, na sua avaliação, “por alguém com muitos recursos” com interesse em destruir a operação e “em impedir novas investigações sobre corrupção”.“[São] criminosos que receiam que as investigações possam chegar até eles e estão querendo se servir desses expedientes para impedir que as investigações prossigam.”

A indicação de que há alguém por trás é uma tônica nova no discurso do ex-juiz que foi enfatizada nesta terça-feira (2). A nova diretriz reitera o discurso que o ministro tem adotado de que há apenas duas opções neste caso: ser contra ou a favor da Lava Jato. 

‘Não há nada de errado’

Moro também não nega nem confirma a veracidade das mensagens. Segundo ele, ” há mensagens que podem ser verdadeiras e que podem ter sido adulteradas”. O ministro garante que sempre agiu com correção e aplicação imparcial da lei. 

Ao afirmar que a atividade de um juiz receber um advogado é rotineira, ele afirmou que só não recebeu a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pelo ex-juiz na Lava Jato, porque havia uma “postura beligerante, ofensiva e beirando ofensas”.

Por dizer que sempre agiu corretamente, o ministro afirma estar sereno em relação às publicações do site. “Se não tem alteração de mensagem minha, fico tranquilo”, diz. No entendimento dele, não existe qualquer conluio com o Ministério Público. 

“Solicitaria afastamento se fosse demonstrado que eu pratiquei alguma irregularidade. O que eu tenho visto até agora é um ataque político partidário. (...) Quando se reflete melhor sobre o que está sendo divulgado, o que existe é um balão vazio. Imaginei que teria um escândalo crescente e o que existe é um escândalo fake, já afundando.”

Imaginei que teria um escândalo crescente e o que existe é um escândalo fake, já afundando

A troca de mensagens divulgada pelo Intercept, no entanto, demonstram uma proximidade de Moro com os procuradores da Lava Jato. Em uma das conversas, o então juiz chega a sugerir a Dallagnol que uma pessoa teria informações ligadas a um dos filhos do ex-presidente Lula e poderia colaborar com as investigações.

Nos diálogos, o então juiz orienta o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima a “editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento” dado por Lula no processo do triplex do Guarujá “com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele”. “Por que a Defesa já fez o showzinho dela”, afirmou Moro. No dia seguinte, os procuradores divulgaram uma nota, em que expunham contradições do depoimento de Lula.