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29/05/2020 15:00 -03

Moro sugere que Bolsonaro deixou de vetar trechos no projeto anticrime para proteger Flávio

Em entrevista à revista Crusoé, ex-ministro afirmou que, desde o início das investidas do presidente contra a PF, queria sair do governo, mas se via como um "anteparo".

Andre Coelho via Getty Images
Ex-ministro também disse, em entrevista à Crusoé, que presidente Bolsonaro se aproximou do centrão por medo do impeachment. 

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, sugeriu, em entrevista à revista Crusoé, que dois pontos do projeto anticrime não foram vetados pelo presidente Jair Bolsonaro para proteger o primogênito, Flávio. A limitação de acordos de delação premiada e de prisão preventiva, conforme disse o ex-juiz da Lava Jato, batem diretamente de frente com o discurso por meio do qual o mandatário se elegeu em 2018, de combate à corrupção. 

“Me chamou a atenção um fato quando o projeto anticrime foi aprovado pelo Congresso. Infelizmente houve algumas mudanças no texto que acho que não favorecem a atuação da Justiça criminal. Tirando a questão do juiz de garantias, houve restrições à decretação de prisão preventiva e também restrições a acordos de colaboração premiada”, disse o ex-ministro.

“Propusemos vetos, e me chamou muita atenção o presidente não ter acolhido essas propostas de veto, especialmente se levarmos em conta o discurso dele tão incisivo contra a corrupção e a impunidade. Limitar acordos [de colaboração] e prisão preventiva bate de frente com esse discurso. Isso aconteceu em dezembro de 2019, mesmo mês em que foram feitas buscas relacionadas ao filho do presidente”, completou, referindo-se ao hoje senador Flávio Bolsonaro.

Limitar acordos [de colaboração] e prisão preventiva bate de frente com esse discurso. Isso aconteceu em dezembro de 2019, mesmo mês em que foram feitas buscas relacionadas ao filho do presidenteSergio Moro, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública

O ex-ministro deixou o governo fazendo acusações de que Bolsonaro tentava interferir politicamente na Polícia Federal, que culminaram em um inquérito, atualmente em curso no Supremo Tribunal Federal, nas mãos do ministro Celso de Mello. 

Moro afirmou à Crusoé que pensou em deixar o governo “desde que começou a haver avanços para cima da Polícia Federal”. “Mas a minha percepção era a de que ali dentro eu era um anteparo contra essa interferência. Ainda que ao custo de credibilidade e de um desgaste pessoal muito grande, a minha presença ali era importante. Até a data da minha saída eu tinha conseguido impedir a interferência”, disse. 

Ele acrescentou que se sentia “desconfortável”, contudo, com diversas atitudes do governo: “Pela agressividade contra a imprensa, pelo estímulo à violência, ao ódio e, mais recentemente, pela atuação, ou pela não atuação, ou pela descoordenação completa do governo federal em relação ao combate ao coronavírus”. 

Eu sempre defendi o isolamento. É claro que a gente sabe que isso tem um custo muito grande, sabe que as pessoas não gostam e que isso precisa ser acompanhado de medidas de alívio econômico, mas faltava e ainda falta um plano nacionalSergio Moro

“Eu sempre defendi o isolamento. É claro que a gente sabe que isso tem um custo muito grande, sabe que as pessoas não gostam e que isso precisa ser acompanhado de medidas de alívio econômico, mas faltava e ainda falta um plano nacional”, disse Moro.

O ex-ministro também relacionou a aproximação de Jair Bolsonaro com o centrão ao medo que o mandatário tem de sofrer um processo de impedimento: “Começou antes, pelo receio do presidente de sofrer um impeachment. A motivação principal da aliança é essa.”