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30/10/2019 13:25 -03 | Atualizado 30/10/2019 15:03 -03

Moro quer MPF e PF juntas na investigação da morte de Marielle

Em documento encaminhado à Procuradoria-Geral da República, ministro disse que nome do presidente Jair Bolsonaro pode ter sido envolvido indevidamente.

EVARISTO SA via Getty Images
Caso Marielle envolveu Bolsonaro, Sergio Moro e o procurador-geral da República, Augusto Aras.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, pediu no início da tarde desta quarta-feira (30) ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que o Ministério Público Federal, em conjunto com a Polícia Federal, instaure inquérito para investigar a morte da vereadora Marielle Franco.

No documento, Moro coloca em suspeição as investigações conduzidas no Rio de Janeiro. Ele afirma que há “inconsistências” e “eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do presidente da República [Jair Bolsonaro] no crime em questão, o que pode configurar obstrução de Justiça, falso testemunho ou denunciação caluniosa”. 

A atitude do ministro foi motivada por um pedido do próprio Jair Bolsonaro após uma reportagem no Jornal Nacional veiculada nesta terça (29), segundo a qual porteiro do condomínio Vivendas da Barra, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, afirmou ter interfonado às 17h10 de 14 de março de 2018 para a casa 58, do presidente Jair Bolsonaro, e falado com o “Seu Jair” sobre a entrada de um dos acusados na morte da vereadora Marielle Franco.

Contudo, Elcio Queiroz foi à residência 66, de Ronnie Lessa, o acusado de efetuar os disparos. De acordo com o JN, a Polícia Civil do Rio teve acesso ao livro de visitas do condomínio. 

“A inconsistência sugere possível equívoco na investigação conduzida no Rio de Janeiro ou eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do Presidente da República no crime em questão, o que pode configurar crimes de obstrução à Justiça, falso testemunho ou denunciação caluniosa, neste último caso tendo por vítima o Presidente da República, o que determina a competência da Justiça Federal e, por conseguinte, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. É ainda possível que o depoente em questão tenha simplesmente se equivocado ou sido utilizado inconscientemente por terceiros para essas finalidades”, afirma o ministro Sergio Moro no documento encaminhado a Augusto Aras. 

Moro destaca ainda que as investigações da morte de Marielle já foram alvo de “obstrução de Justiça, com introdução de testemunha que fraudulentamente apontou falsos suspeitos para o crime”. “A tentativa de obstrução da Justiça só foi contornada com a atuação independente da Polícia Federal e que contribuiu para identificação dos reais suspeitos pela prática do crime em questão”, completou o ministro no encaminhamento. A PGR acolheu o pedido.

Os procuradores do Rio de Janeiro que até o momento conduzem as investigações sobre a morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes fizeram uma consulta informal ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli.

Queriam saber se poderiam seguir com o inquérito ou se, a menção do nome de Jair Bolsonaro implicaria inevitavelmente na transferência do caso para as instâncias superiores. De acordo com o JN, Toffoli não respondeu. 

Bolsonaro mencionado nas investigações da morte de Marielle

Do Oriente Médio, Jair Bolsonaro já tinha dito que faria essa solicitação a Moro. “Estou conversando com o ministro da Justiça para a gente tomar, via Polícia Federal, um novo depoimento desse porteiro pela PF para esclarecer de vez esse fato, de modo que esse fantasma que querem colocar no meu colo como possível mentor da morte de Marielle seja enterrado de vez”, disse o presidente ao deixar o hotel onde está hospedado para ir ao evento Davos no Deserto. 

Bolsonaro também afirmou que já sabia desde 9 de outubro sobre a menção a seu nome no inquérito e foi informado pelo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, em um evento no Clube Naval no Rio. 

A reportagem do JN destacou que a guarita do condomínio grava as conversas da portaria e os investigadores tentam, agora, recuperar as informações da data. Ainda de acordo com o jornal da TV Globo, contudo, Jair Bolsonaro estava em Brasília em 14 de março. Há registros da presença dele no plenário da Câmara às 14h e às 20h.