NOTÍCIAS
12/05/2020 10:20 -03

Moro, AGU e procuradores se reúnem em 'sessão' na PF para assistir a vídeo de reunião

Dia promete ser tenso em Brasília: às 15h, depõem no Planalto ministros militares sobre acusações contra Bolsonaro; Ministro do STF determina perícia e transcrição do vídeo.

O dia que promete ser um dos mais tensos em Brasília desde que foi aberto um inquérito para apurar possíveis crimes cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro começou com uma sessão para exibir o vídeo da reunião que tem papel decisivo nas investigações. Compareceram à exibição na Polícia Federal o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, o advogado-geral da União, José Levi, e três procuradores designados pelo procurador-geral Augusto Aras para acompanhar o caso.

Moro voltou pela primeira vez a Brasília desde que deixou o posto, justamente para assistir à gravação que ele citou em seu depoimento - e que, segundo o Planalto, foi entregue sem edições na última sexta (8). De acordo com o ex-ministro, na reunião interministerial de 22 de abril, Bolsonaro o pressionou pela demissão do então diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e também pela troca na Superintendência da PF do Rio. 

O presidente também teria dito na reunião que, se não pudesse realizar as substituições, era o então ministro da Justiça quem seria trocado. Ainda nesse encontro, segundo Moro, o mandatário cobrou relatórios de inteligência da PF.

Conforme relatos ouvidos pelo HuffPost, além dos fatos relatados por Moro, o encontro teve divergências entre integrantes da ala econômica — “um bate-boca normal já”, relatou um participante — e um suposto comentário de Abraham Weintraub (Educação) contra o Supremo.

Segundo afirmaram participantes da reunião, teme-se “um constrangimento público do governo”. Procurada pelo HuffPost, a assessoria do Ministério da Educação não respondeu sobre a suposta menção a Weintraub na gravação. 

A AGU chegou a pedir ao STF que fossem entregues apenas trechos do vídeo. Segundo o órgão, naquela reunião, “foram tratados assuntos potencialmente sensíveis e reservados de Estado, inclusive de Relações Exteriores, entre outros”. 

Andressa Anholete via Getty Images
Compareceram à exibição na Polícia Federal o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, o advogado-geral da União, José Levi, e três procuradores designados pelo procurador-geral Augusto Aras para acompanhar o caso.

Nesta segunda (11), o ministro do STF Celso de Mello, que é o relator do inquérito na Corte, autorizou a PF a realizar uma perícia no vídeo para verificar sua “autenticidade” e “integridade”. O decano do STF determinou ainda que a polícia faça a transcrição de todo o vídeo. Segundo o jornal O Globo, a PGR, a AGU e a defesa de Moro também poderão indicar assistentes técnicos para participar da perícia

Por enquanto, o vídeo está sob sigilo - e, inclusive, foi por isso que a exibição da gravação aos envolvidos no caso está sendo presencial, na sede da PF em Brasília. Segundo Celso de Mello, após ler a transcrição, será definido se o conteúdo da reunião permanecerá em sigilo completo ou parcial. 

Enquanto Moro, o advogado-geral da União e os procuradores assistiam ao vídeo na Polícia Federal, Bolsonaro coordenava uma reunião do Conselho de Governo nesta terça, com a presença de ministros e, inclusive, dos ministros militares que, na tarde desta terça também depõem como testemunhas no inquérito.

Três generais como testemunhas 

Às 15h, será a vez de 3 ministros militares palacianos serem ouvidos pela Polícia Federal. Os generais Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) prestarão depoimento como testemunhas no Palácio do Planalto.

A ideia de ouvi-los todos ao mesmo tempo é para que nenhum saiba o que o outro disse à PF e não possa, assim, balizar o que vai falar sobre o depoimento do colega.

A maior preocupação, segundo o HuffPost Brasil apurou, é com o depoimento de Heleno, uma das poucas vozes que Bolsonaro costuma escutar. A inquietação é tamanha porque o general teria aconselhado o presidente sobre os limites dos relatórios de inteligência da Polícia Federal a que Moro acusou Bolsonaro de querer ter acesso.

Como testemunhas não podem ficar caladas em depoimentos em inquérito policial, o general terá que dar sua versão sobre as acusações do ex-ministro da Justiça.

Segundo Moro, os 3 ministros participaram de conversas nas quais Bolsonaro o pressionou pela troca do comando da PF e da superintendência da corporação no Rio. 

Acontece que o general Augusto Heleno, chefe da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), teria advertido o mandatário de que há um limite sobre as informações da Polícia Federal às quais ele poderia ter acesso. Como vítima, por exemplo, ele poderia requerer dados das investigações sobre o ataque a faca que sofreu em setembro de 2018 por Adélio Bispo. Seria legítimo ainda solicitar algo que tangenciasse segurança nacional. Não poderia, porém, requisitar notícias de operações ou investigações sobre terceiros. 

A insistência de Bolsonaro em ter acesso a informações da PF poderia significar tentativa de interferir na corporação, mas ainda não está claro até que ponto constitui crime. É isso que se quer esclarecer com os interrogatórios. 

Outros depoimentos marcados pela Polícia Federal esta terça, às 15h, são: Carlos Henrique de Oliveira Souza (ex-superintendente da PF no Rio de Janeiro), Alexandre da Silva Saraiva (ex-superintendente da PF no Amazonas) e Rodrigo de Melo Teixeira (ex-superintendente da PF em Minas Gerais). 

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost