POLÍTICA
09/03/2019 03:00 -03

Alessandro Molon: ‘Governar é mais difícil que postar mensagens agressivas no Twitter’

Líder da oposição na Câmara vê as redes sociais do governo como um entrave para o avanço de propostas.

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Em entrevista ao HuffPost, o líder da oposição, Alessandro Molon (PSB-RJ), destrincha os desafios em relação ao governo.

Antes mesmo de o presidente Jair Bolsonarocompartilhar no Twitter um vídeo com cenas obscenas, o líder da oposição na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (PSB-RJ), já previa que as redes sociais causariam mais desgaste ao governo. Em entrevista ao HuffPost na sexta-feira (1º), Molon disparou: “Governar é muito mais difícil do que se simplesmente postar mensagens agressivas no Twitter”.

Nas duas últimas semanas de fevereiro, as redes sociais já tinham causado influência direta em 2 dos principais debates do governo, a demissão do ex-ministro Gustavo Bebianno e a revogação da indicação da cientista política Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). No primeiro caso, o presidente usou as redes sociais para expor o conflito com o ex-ministro. Já o segundo fato foi gerado por pressão dos comentários negativos em relação à nomeação de Ilona pelo ministro Sérgio Moro.

Nesta semana, no entanto, os episódios do Carnaval elevaram as discussões. “São incondizentes com o cargo que [o presidente] ocupa”, afirmou o líder da oposição.

Também no Twitter, Molon iniciou uma corrente com notícias positivas sobre o Carnaval no Brasil. A estratégia, ao que sinalizou em entrevista ao HuffPost, deverá ser a mesma em relação à reforma da Previdência. A oposição vai usar os mesmos métodos que o governo para mostrar “que existe um outro caminho para o Brasil”.

Para ele, o desafio será “mostrar para todo País as propostas que não são boas para o Brasil e conseguir explicar para a população por que não as apoiamos”.

Molon afirma que a oposição não tem dificuldade de analisar mudanças na Previdência, “desde que esse debate tenha como ponto de partida não reforçar o maior problema para o Brasil, que é a desigualdade social”.

Pessoalmente, o deputado também aponta divergências em relação à Lei Anticrime, carro-chefe do ministro Sérgio Moro na política de combate a crimes graves e à corrupção. Na avaliação dele, a decisão da equipe de Bolsonaro de separar a criminalização do caixa 2 do projeto inicial foi “uma grande decepção para aqueles que acreditaram no discurso de que a sua prioridade era o combate à corrupção”. “Foi um sinal muito ruim dado pelo governo”, acrescentou.

Leia a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: Depois do resultado das urnas, sobrou um País completamente polarizado. Com esse cenário, qual é o maior desafio da oposição? 

Alessandro Molon: De um lado é mostrar para todo o País as propostas do governo que não são boas para o Brasil, conseguir explicar para a população por que não apoiamos aquelas propostas e, ao mesmo tempo, sinalizar para a população quais seriam as propostas alternativas para oferecer ao Brasil um governo melhor. Denunciar aquilo que não é bom e anunciar saídas, horizontes, perspectivas para o País, além de conseguir fazer isso em uma linguagem que seja alcançada e bem compreendida por toda a população.

Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Molon: "Acho que as redes sociais vão continuar sendo um calcanhar de Aquiles do governo e vão dificultar o avanço de uma série de propostas".

Foi eleito um Congresso mais conservador e com apoio popular… 

Acho que esse desafio se dá sobretudo na nossa relação com a sociedade brasileira. Não é um desafio para dentro do Congresso, é um desafio para fora, em conseguir verbalizar isso para o povo brasileiro. Dentro do Congresso, acho que o nosso desafio é mostrar para uma série de partidos e parlamentares que existe um outro caminho para o Brasil. Percebo que existe uma boa parte do Parlamento que não sente nenhuma segurança com o governo e, portanto, podem ser partidos e parlamentares que venham a reforçar as fileiras da oposição para construir uma saída para o Brasil diferente dessa que está sendo oferecida e não é uma boa saída. 

Tivemos alguns episódios nas últimas semanas nos quais a redes sociais foram protagonistas. Qual sua análise sobre o uso dessas mídias pelo presidente e qual será a estratégia da oposição?

As redes sociais certamente vão continuar fragilizando o governo. Governar é muito diferente de fazer campanha. Uma coisa é passar alguns meses no Twitter falando qualquer coisa sem o compromisso de transformar aquilo em uma política pública, sem o desafio de governar um País do tamanho e da complexidade do Brasil. Governar é muito mais difícil do que se simplesmente postar mensagens agressivas no Twitter. Acho que as redes sociais vão continuar sendo um calcanhar de Aquiles do governo e vão dificultar o avanço de uma série de propostas, como a reforma da Previdência. 

As redes sociais certamente vão continuar fragilizando o governo. Governar é muito diferente de fazer campanha.

O PDT e PSB foram convidados pelo presidente para dialogar sobre a reforma e recusaram o convite. Será essa a postura da oposição em relação à reforma?

A oposição estará disponível para debater com o governo quaisquer temas que digam respeito aos interesses do povo brasileiro. Agora, nós não vamos aceitar convites que tenham como objetivo dividir a oposição e fragilizá-la. Estamos bem conscientes do nosso papel e do nosso desafio de organizar e liderar a oposição brasileira. Não vamos aceitar qualquer medida que fragilize e divida a oposição. 

O que a oposição defende no texto da reforma da Previdência e quais são as críticas? 

A proposta do governo tem muitos problemas, desde aqueles que passam por medidas regressivas, portanto, medidas que afetam sobretudo aos que ganham menos, como as mudanças no BPC (Benefício da Prestação Continuada), até mudança do sistema de contribuição solidária para sistema de capitalização, cujo custo de transição para o Brasil, segundo alguns, poderia chegar a um PIB, como o próprio ex-presidente Fernando Henrique já anunciou. 

É uma proposta muito mal formulada. Não há menor dúvida — e nós temos muita tranquilidade para fazer esse debate — de que a medida em que a estrutura etária de uma população vai mudando, ela vai ter que fazer um debate sobre os ajustes necessários para essas mudanças geracionais. Não temos dificuldade de analisar e pensar os desafios para sustentabilidade da Previdência, desde que esse debate tenha como ponto de partida não reforçar o maior problema para o Brasil, que é a desigualdade social. Isso a gente não aceita. 

Como a oposição interpretou o projeto de Lei Anticrime, do ministro Sérgio Moro? 

Ainda vamos fazer um debate da oposição em relação ao projeto como um todo. Nós começamos nossos debates com a reforma da Previdência, mas também vamos analisar o pacote anticrime. No entanto, falando em nível pessoal, a criminalização do caixa 2 foi uma grande decepção para aqueles que acreditaram no discurso do governo de que a sua prioridade seria o combate à corrupção, quando o próprio governo separa o pacote em pedaços, sinalizando claramente que permite que um pedaço seja rejeitado enquanto o outro, o governo vai tentar aprovar. 

Foi um sinal muito ruim, como uma espécie de liberação para que a sua base no Parlamento derrotasse o caixa 2. Eu, pessoalmente, defendo a criminalização do caixa 2 e rejeito essa estratégia do governo de separar o tema. 

Por outro lado, há medidas preocupantes nesse pacote do governo, como o tratamento que se tenta dar à suposta legítima de defesa de agentes do Estado, que parece uma espécie de autorização, liberação para matar. Isso é inaceitável. Não podemos compactuar com esse tipo de postura. Já temos no Brasil uma série de crimes praticados por agentes do Estado. A civilização aponta em outra direção, no uso moderado e equilibrado da força, e não em uma autorização para que os agentes do Estado matem sem qualquer controle. 

Como ficou a relação da oposição com o PT?

Estamos organizando o funcionamento dos partidos de oposição de forma a permitir que todos contribuam para a oposição com suas visões, sua experiência, seus pontos, seus quadros, de forma que não haja ninguém excluído nem hegemonizando. Inclui todos os partidos, não se refere a um especial. Todos têm uma contribuição a dar e nenhum deve preponderar sobre os demais. Todos devem estar articulados para oferecer o melhor para o Brasil, com seriedade, responsabilidade, compromisso com o País.