Roupa não tem gênero, e entender isso vai te deixar MUITO mais livre

Um papo sobre moda e como abandonar os rótulos de masculino ou feminino pode ser libertador na hora de escolher cada uma das peças de seu armário.
A ideia da moda sem gênero é bem simples: você pode vestir o que quiser e o que te faz sentir confortável sem medo de julgamentos ou olhares tortos.  
A ideia da moda sem gênero é bem simples: você pode vestir o que quiser e o que te faz sentir confortável sem medo de julgamentos ou olhares tortos.  

Moda agênero, genderless, gênero neutro ou unissex. Você certamente já ouviu uma dessas palavras, mas até que ponto refletiu sobre elas?

No universo da moda, os últimos anos representaram um aumento significativo na popularização de marcas de vestuário sem gênero, com peças oversized (largas!) e de modelagem mais democrática.

Mas a moda agênero não se resume a isso. Nem mesmo é limitada a roupas largas, sem cor ou personalidade. O movimento vai além e fala de uma moda feita para pessoas, sem distinções, e que abraça a ideia de que roupa não tem gênero. É o que explica o stylist Gabriel Feriani.

“A moda sem gênero não é sobre colocar uma camisa e uma calça oversized em uma mulher ou um vestido em um homem. É criar modelagens específicas que se adaptam a ambos os corpos, independentemente da peça que está sendo criada. Nada tem que ser obrigatório, mas sim orgânico e sem rótulos”, compartilha Feriani em entrevista ao HuffPost Brasil.

A ideia da moda sem gênero é bem simples: você pode vestir o que quiser e o que te faz sentir-se confortável sem medo de julgamentos ou olhares tortos.

Mas, na realidade, esse debate ainda é um pouco mais complexo. O que os estilistas querem é que a sociedade possa começar a pensar sobre peças agênero como algo normal, afastando essa ideia de um modelo organizacional que ainda faz a segmentação de produtos entre masculino e feminino para quase todos os mercados.

Aqui, propomos algumas reflexões para construirmos uma conversa nesse sentido:

Liberdade de dentro para fora

Adepto de um guarda-roupa livre de rótulos, o paulista Vinícius Vasconcellos, de 28 anos, usa a moda como uma expansão de sua liberdade e personalidade.

“Não penso se uma roupa é feminina ou masculina. Se olhei pra ela, em uma loja ou brechó, vesti e serviu, então essa roupa é pra mim”, compartilha.

Mas nem sempre foi assim. Essa atitude chegou com uma maior maturidade dele e foi resultado de uma série de reflexões sobre a sua própria personalidade.

“A liberdade dos meus looks começou a aparecer há 5 anos quando saí da casa da minha mãe e fui morar na Augusta, no centro de São Paulo. Me entender bissexual, perceber que a minha vida é, de fato, minha e me sentir em um ambiente acolhido foram fatores que contribuíram muito”, afirma.

Segundo Vasconcellos, tudo começou quando ele decidiu ousar mais nas peças e modelagens, montando looks mais livres, mas ainda com aquele pezinho nos tabus relacionados ao guarda-roupa.

“Fui me desenvolvendo, tentando experimentar peças, como as saias. Hoje em dia uso qualquer coisa, de calçados e roupas a acessórios”, explica.

Enquanto a moda para alguns é sinônimo de liberdade, para outros pode ser motivo de deboche. Vasconcellos, por exemplo, diz estar sempre preparado para receber um elogio ou uma crítica muito forte.

“Essa é uma relação que tive que desenvolver com os meus pais porque eles são um pouco conservadores e não entendem muito bem como me visto. Ficam me limitando quando vamos jantar e dizem pra eu ir vestido ‘normal’”, conta.

De acordo com ele, o segredo para não perder o estilo e a liberdade é não colocar limites na roupa de ninguém. “Tenha uma atitude sem gênero. Pegue uma modelagem que nunca vestiu antes. Entre com uma saia no provador e veja se é confortável. Não se esqueça que roupas são basicamente roupas”, aconselha.

O desafio de criar peças livres de rótulos

Por parte dos estilistas, fazer modelagens sem gênero é, ao mesmo tempo, um propósito e um desafio. Isso porque tudo deve ser pensado e calculado para diferentes estruturas corporais. “É muito complicado na hora de projetar um produto porque o ombro de uma mulher mede 11 e o de um homem cerca de 14 ou 15. Essa diferença pede mais liberdade e uma modelagem mais ampla para que ambos possam usar”, explica Airon Martin, criador da marca Misci.

Apesar das diferenças em anatomia, Martin entende que o design deveria ser universal. Assim, uma roupa seria inclusiva e não adaptativa. “Enquanto o mundo enxergar o gênero, ele vai existir. O que eu tento é fazer roupa para gente, para pessoas, independente do sexo”, reflete.

Na marca Anacê, das estilistas Ana Clara Watanabe e Cecília Gromann, alfaiataria, estampas e cores vibrantes dão o tom.

Por lá, criar peças sem gênero foi algo muito natural, visto que cada uma das estilistas já tinha experiência com cada um dos segmentos. “Não acreditávamos mais em uma moda definida por gênero e observamos que as silhuetas estavam cada vez mais fluidas”, explicam elas.

O público da marca transita entre millennials e jovens da geração Z, formando clientes exigentes quanto à qualidade da matéria-prima que estão comprando e atentos aos propósitos de cada um dos produtos da marca.

Entre os benefícios de atuar nesse mercado, as estilistas destacam a potência criativa como um dos principais. “Não precisamos nos prender em questões estéticas e temos mais margem para explorar silhuetas e cores. Além disso, trabalhar com esse segmento é compreender as necessidades do público e trazer um produto muito bem pensado em questão de modelagem para que realmente qualquer pessoa possa usar”, argumentam.

Você pode tudo, acredite

Estar confortável na própria pele é também se permitir arriscar e tentar algo novo. Aqui, reunimos dicas para quem deseja ter um guarda-roupa mais diverso e livre de rótulos ou gênero.

1. Faça uma pesquisa em todos os departamentos das lojas

“Comece a olhar marcas e seções de vestuário do sexo oposto. Aposte em peças mais clássicas que podem ser combinadas com maior facilidade como camisas e blazers. O mais importante é se sentir confortável para experimentar e transitar por roupas que transmitam a sua essência sem se apegar a padrões de corpos”, aconselham Ana Clara Watanabe e Cecília Gromann, da Anacê.

2. Pense no que te deixa feliz

“Vista aquilo que te faz bem e te deixa confortável. Acho que o principal é se permitir e arriscar. Falando para os homens: não precisa já sair usando vestido, mas se permita novas silhuetas, tecidos e caimentos”, orienta Gabriel Feriani, stylist.

3. Comece pegando emprestado de alguém

“O vestuário depende muito do seu objetivo de vida e é bom quando você consegue externalizar aquilo que você é por dentro. Acho que ao invés de comprar algo, peça emprestado para alguém de casa, do sexo oposto, e tente provar. Sente com alguém próximo, entenda o que ela viveu usando aquela peça, tenha uma conversa e prove sem preconceitos”, Airon Martin, da Misci.

Algumas marcas para ficar de olho

Misci

Anacê

Handred

Freiheit

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