29/11/2019 16:19 -03 | Atualizado 02/12/2019 17:29 -03

Mobilidade feminina: Como as mulheres se deslocam pela cidade e o que isso diz sobre o mundo em que vivemos

Pesquisas investigam a experiência da mulher e levantam insights sobre diferentes rotas e uso de modos de transporte.

GABRIELA BURDMANN/ESPECIAL PARA HUFFPOST
Moradora de Osasco (SP), Marcela Ribeiro, 24, trabalha em Pirituba, na zona norte de São Paulo, e enfrenta um périplo no transporte público.

Vera Lúcia Silva de Oliveira, 42, sempre está viajando. Duas vezes ao dia, exatamente. No entanto, não falamos aqui do tipo de viagem na qual você talvez esteja pensando, o que envolve lazer e descanso. A moradora da Estrada do Pêssego, em Itaquera (zona leste de São Paulo), sai de casa às 4h20 para trabalhar em Pinheiros (zona oeste) como saladeira em um restaurante, no qual ela chega em aproximadamente duas horas. 

Ela caminha dez minutos até um ponto de ônibus no qual pega uma van que a deixa na estação de trem Dom Bosco (Linha 11 — Coral da CPTM). Depois, caminha mais alguns minutinhos para pegar o trem a caminho da estação Luz, em que ela faz a baldeação para ter acesso à Linha 4 — Amarela do metrô. Após 16 minutos, ela desce na estação Faria Lima e anda por cinco minutos para enfim chegar ao trabalho.

“A gente cansa mais no deslocamento do que no próprio serviço”, conta Vera Lúcia em entrevista ao HuffPost. “Chegando o fim de semana, estou morta de cansaço. E nem é pelo trabalho; é mais pelo trajeto.”

Uma vez por semana, às quintas ou sextas, ela incorpora ao percurso trabalho–casa uma passada pelo açougue ou supermercado para fazer uma compra. “Eu sou sozinha, tenho que fazer isso”, explica a mãe solo de três. Este dado faz de Vera Lúcia um exemplo das particularidades que tornam os padrões da mobilidade da mulher diferentes dos padrões do homem.

“A quantidade de viagens que a mulher faz é maior que a dos homens. São viagens mais curtas, mais encadeadas e mais complexas do ponto de vista do objetivo”, explica a pesquisadora Haydée Svab, especialista em mobilidade urbana.

Enquanto homens tendem a ter um deslocamento mais pendular — casa e trabalho, trabalho e casa —, mulheres costumam fazer percursos mais complexos, em que elas incorporam às viagens tarefas de cuidado do lar e da família.

“Ela tem que levar e buscar o filho na escola, acompanhar alguém em uma consulta médica, ir ao trabalho e fazer outras coisas. Isso não cabe no mesmo tempo”, conta Svab. “Há uma tendência de mulheres começarem a fazer isso tudo mais perto de casa por não terem tempo para se deslocar para lugares que ficam muito longe.”

O medo de ser assaltada é constante.Marcela Ribeiro, diretora de arte em SP
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Mulheres reclamam da insegurança no transporte e nas ruas nos grandes centros urbanos.

Segundo a pesquisa Informes Urbanos (2016) feita pelo Metrô de São Paulo, as mulheres usam o transporte público coletivo e andam a pé mais que os homens. Esses dois modos representam 74,6% dos deslocamentos feitos pelas mulheres, enquanto representam 62% no caso dos homens. As mulheres mais pobres são as usuárias mais frequentes do transporte público.

A diferença entre gêneros é mais patente no quesito de direção de automóvel. Apenas 13,7% das viagens são feitas com elas mesmas dirigindo, enquanto quase o dobro, 26,4%, é feita por homens. No recorte das mulheres cuja renda mensal varia de R$ 1.244 a R$ 2.448, 3% das viagens de cada uma são feitas com elas atrás do volante. Entre mulheres cuja renda mensal é maior que R$ 9.330, a proporção sobe para 45%.

Em todos os casos nos quais a mulher está atrás do volante, o principal motivo de deslocamento são trabalho (39%) e estudo (34%). Pela ótica das diferenças de renda, a pesquisa mostra que o grupo mais pobre é o que menos faz viagens cujo destino final é trabalho, enquanto educação é o principal motivo (43,5%), na frente de “assuntos pessoais” (14,4%) e saúde (7,6%).

Uma questão de segurança

Um dos fatores que influenciam nas escolhas de rotas feitas pelas mulheres é a segurança pessoal — muitas consideram deixar de passar nessa ou naquela rua, nesse ou naquele horário, por medo de serem só assaltadas, mas também de assédio e violência sexual.

Vera Lúcia relata que quando os vagões do trem estão lotados — geralmente com muitos passageiros sentados no chão e vendedores ambulantes somando-se às pessoas em pé —, o receio de ser assediada é comum. “Graças a Deus, nunca aconteceu comigo, mas dá medo. Os caras encostam muito na gente e a gente tem que se desviar”, conta. 

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Por conta do computador na mochila, Marcela prefere usar 99 ao transporte público.

Marcela Ribeiro, 24, é moradora de Osasco e trabalha como diretora de arte em Pirituba, zona norte de São Paulo, em uma empresa que há pouco abriu na região. Como anda frequentemente com o computador na mochila, Marcela tem preferido ir ao trabalho e voltar usando 99. De carro, o trajeto dura 18 minutos, e de ônibus intermunicipal, aproximadamente 50.

“O medo de ser assaltada é constante”, diz. “Algum tempo atrás, eu estava em um bar no Largo da Batata com amigas e tinha lá dois caras me encarando. Eu estava com o computador da empresa na bolsa, então tive que me esconder. Não tinha um segurança ali. Se eu tivesse que caminhar até a estação de metrô do Largo, com certeza teria sido roubada ou abusada. De dentro do bar, pedi carro [da 99] e, quando chegou, saí correndo para entrar no carro”, relata.

Pedir transporte por aplicativo, conta a diretora de arte, é a alternativa mais segura para voltar para casa dos bares e baladas que frequenta na capital paulista aos fins de semana. “Além disso, minha volta de carro é algo que já está dentro do que espero gastar na festa.” Atualmente, 60% dos usuários da 99 são mulheres.

A professora de História do ensino fundamental e doutoranda em educação Adriana de Carvalho Alves Braga, 38, passa por situações semelhantes quando viaja por causa dos estudos e precisa sair cedinho de casa. Em vez ir caminhando até o ponto de ônibus, ela pede 99 para ir direto ao aeroporto. “Geralmente está muito escuro e eu posso sofrer alguma violência pelo caminho. E, no aeroporto, o preço do estacionamento é abusivo”, diz a moradora do Morro Grande (zona noroeste da capital paulista), bairro da Freguesia do Ó. 

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O uso do app de mobilidade urbana contribui com o melhor acesso à cidade para as mulheres.

O acesso à cidade para as mulheres

Embora tenha carro próprio, Adriana de Carvalho usa metrô e trem para ir até o campus da universidade em que cursa o doutorado, complementando o deslocamento com transporte pedido por aplicativo. É a solução que a professora encontrou para percorrer os mais de dez quilômetros entre sua residência e o campus, situado na zona sul de São Paulo, em dias de rodízio de placas e para evitar os altos preços dos estacionamentos da região.

“Não tem metrô aqui perto de casa; a obra da estação está parada há quase três anos”, conta. “Uma vez que estou na estação de trem, consigo me deslocar para outras regiões da cidade. A questão é que eu moro muito longe do trem, tem esse dificultador.”

A pesquisa Acesso de Mulheres e Crianças à Cidade (2018), do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês), mostra semelhanças com as realidades apontadas pela especialista Haydée Svab e pelo estudo feito pelo Metrô da capital paulista — mas com foco em crianças e mulheres negras e periféricas de Recife e sua respectiva região metropolitana.

“A cidade sempre foi planejada para o homem adulto hábil e saudável. Na medida em que você planeja [a cidade e o transporte] achando que esse homem adulto dá conta de tudo, você está ignorando todas as nuances”, afirma Clarisse Cunha Linke, diretora do ITDP, referindo-se a crianças, idosos e transgêneros.

O planejamento sistemático das cidades, mostra o estudo do instituto, reforça a desigualdade de classe, raça e gênero, além de limitar a convivência e circulação de pessoas com mobilidade reduzida.

“Existe uma crença de que o planejamento da cidade é neutro, de que planejar um sistema de transporte neutro dá conta de demandas de forma igual”, analisa. “Os semáforos de São Paulo consideram que todos são homens, adultos e hábeis para atravessar a rua naquela velocidade”, completa.

No caso das mulheres negras, além de incorporar às rotas e modos de deslocamento as tarefas do dia a dia, elas lidam com o agravante da qualidade da infraestrutura dos locais que percorrem. Condições adversas de ruas, calçadas e escadarias, iluminação e violência urbana também são fatores considerados na formulação de rotas e escolha de transporte.

Os semáforos de São Paulo consideram que todos são homens, adultos e hábeis para atravessar a rua.Clarisse Cunha Linke, diretora do ITDP
GABRIELA BURDMANN/ESPECIAL PARA HUFFPOST
Especialista critica planejamento das cidades, inclusive dos sistemas de transporte, que reforçam a desigualdade.

“No Recife, a gente vê a nossa experiência no Brasil. Principalmente por meio da mulher da periferia, onde ela não tem uma série de serviços e equipamentos”, explica Linke. “Ela precisa levar a criança à creche, não fica perto de casa, tem que se deslocar e encadear isso às outras tarefas além de ir ao trabalho.”

Linke reflete que todo esse cenário, além de mostrar desequilíbrio na distribuição de tarefas dentro das famílias — o que se encontra tanto no contexto urbano quanto rural —, exemplifica como os cuidados com a casa foram naturalizados como responsabilidade da mulher e minimizados.

“A mulher negra sempre trabalhou. A africana que veio escravizada sempre trabalhou e continuou trabalhando. Quando a mulher branca da classe média entra no mercado, aí o debate começa. Mas, ainda assim, o assunto sempre foi abafado na sociedade brasileira”, conta.

Linke propõe que uma diversidade de mulheres participe de criação de políticas públicas de urbanismo e transporte — e também marque presença nos poderes Executivo e esferas privadas tomando decisões e gerindo processos. A diretora do ITDP defende que haja multidisciplinaridade temática, além da paridade de gênero.

“Precisa ter socióloga, antropóloga, historiadora [na formulação do planejamento urbano] para conseguirmos reinventar os sistemas. É um processo muito mais aprofundado e é fundamental motivar isso em todas as esferas”, diz.