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15/10/2020 02:00 -03

7 mitos sobre o Black Lives Matter que precisam ser derrubados

Estas ideias erradas sobre o movimento não são apenas mal-entendidos.

Diante da violência policial contra George Floyd, Breonna Taylor, Jacob Blake e muitas outras pessoas negras, o movimento Black Lives Matter voltou a estar em evidência nos Estados Unidos. No entanto, com tanta confusão e desinformação, ninguém entende muito bem o que é e como funciona esse movimento.

Os mitos sobre o Black Lives Matter reduzem o apoio popular, mas também podem desacreditar o movimento e o trabalho antirracista de seus membros.

“Para mim, essas ideias que algumas pessoas consideram mitos na verdade são ferramentas usadas por outros grupos para prejudicar o movimento, evitar mudanças e manter as coisas como estão”, afirma Richard M. Cooper, professor assistente na Widener University, que trabalha com questões de raça e justiça social.

Em outras palavras, os mitos não caem do céu, eles são criados. “Os mitos são uma ferramenta para desinformar, incitar o medo e fazer as pessoas entenderem mal uma questão para evitar mudanças estruturais”, explica Cooper.

Confira algumas das inverdades mais prejudiciais em relação ao movimento Black Lives Matter, que precisam sair de circulação.

1. O movimento é novo.

A expressão “Black lives matter” (as vidas negras são importantes) começou a ser usada depois do assassinato de Trayvon Martin, quando foi citada pela escritora e ativista Alicia Garza em um post do Facebook, que foi reproduzido por muitas outras pessoas. No entanto, essa ideia já faz parte da militância há centenas de anos.

“É uma continuação do legado da luta das pessoas não brancas, especialmente as negras, pelos direitos civis e pela justiça social.... Só que agora esse movimento ganhou o nome de ‘Black Lives Matter’”, conta Cooper.

Ele também explica que as únicas coisas que realmente mudaram foram o acesso dos ativistas às plataformas, especialmente on-line, e a velocidade com que as pessoas recebem as informações, mas o foco continua sendo um grupo étnico que sempre teve que lutar para ter alguma influência social e direitos humanos em uma sociedade que constantemente encontra novas maneiras de impedir o acesso a essas condições essenciais.

2. O movimento é desorganizado.

A organização Black Lives Matter tem três fundadores conhecidos, incluindo Garza, mas o movimento geral, com o mesmo nome, é descentralizado. É uma iniciativa da sociedade civil que abrange várias regiões, demografias e veículos de comunicação. Por isso, alguns críticos afirmam que falta liderança e um objetivo claro. No entanto, para Cooper, esse mal-entendido é geracional.

As gerações mais velhas estavam acostumadas com outro modelo de luta pelos direitos civis, com um líder nacional ou regional que servia de porta-voz, organizava protestos, ocupações e outros tipos de manifestações, liderando o movimento de mudança.

Por outro lado, o movimento Black Lives Matter existe em todo o país (e no mundo). Não existe um “jeito certo” de transmitir a mensagem, e os membros das divisões hiperlocais e outras organizações utilizam vários métodos diferentes, inclusive manifestações, campanhas em redes sociais e poesias.

SETH HERALD via Getty Images
O grito "Black lives matter" é ouvido em manifestações em todo o país, inclusive nesta, realizada em Detroit em 29 de maio, poucos dias depois do assassinato de George Floyd pela polícia em Mineápolis.

De acordo com Cooper, essas críticas demonstram uma falta de entendimento das características específicas dos organizadores e suas estratégias, que sempre foram bastante inteligentes e orgânicas.

“Para quem está de fora, pode parecer desorganizado. No entanto, assim como em outras manifestações do passado, como o boicote aos ônibus em Montgomery, Alabama na década de 1950, foram tomadas muitas decisões estratégicas, pelas quais as pessoas não brancas não recebem crédito. O Black Lives Matter demonstra um nível de sofisticação e compreensão de nuances e diferenças regionais muito maior que o de outros movimentos”, diz Cooper.

3. O movimento incentiva a violência.

Cerca de 93% das mais de 10.600 manifestações pela justiça racial realizadas nos Estados Unidos no segundo trimestre deste ano foram pacíficas. Segundo os pesquisadores, aquelas que se tornaram violentas envolveram agressões da polícia ou de manifestantes de outros grupos extremistas. No entanto, casos isolados de ataques, roubos e manifestantes agressivos foram mencionados para sugerir que o movimento Black Lives Matter utiliza e tolera a violência.

“É absurdo porque nossas manifestações são justamente contra a violência. As pessoas precisam diferenciar manifestantes de oportunistas, que só querem provocar tumultos”, comenta Michelle Saahene, uma das fundadoras do grupo ativista From Privilege to Progress.

A dura verdade é que sempre existem pessoas que se aproveitam desses momentos tensos. Também há roubos e tumultos durante furacões, eventos esportivos e em outras situações terríveis. Isso não é desculpa para a violência relacionada às manifestações do Black Lives Matter, mas é importante entender que as ações desses indivíduos não estão alinhadas à missão do movimento.

Além disso, às vezes a violência é estratégica. Por exemplo, os tumultos que aconteceram em Mineápolis depois do assassinato de George Floyd pela polícia foram incitados por um defensor da supremacia branca. Em uma manifestação do Black Lives Matter em Kenosha, Wisconsin, no mês passado, duas pessoas foram assassinadas e um médico foi ferido por um adolescente branco com um fuzil semiautomático.

“Como há muito repúdio aos negros, e a supremacia branca busca se proteger a qualquer preço, as pessoas fazem de tudo para que o movimento pareça violento. É preciso pensar um pouco melhor sobre o que o Black Lives Matter realmente representa e o que busca combater. A violência não faz sentido”, conta Saahene.

4. O movimento é contra a polícia.

O histórico da polícia com os negros americanos é no mínimo preocupante. As pessoas negras são muito mais detidas, presas e assassinadas por policiais do que as brancas, e muitos desses casos de violência acontecem depois de ligações para o serviço de emergência por questões rotineiras.

No entanto, o movimento Black Lives Matter não tem a intenção de retaliar ou acabar com a polícia. Em vez disso, a ideia é examinar a estrutura da aplicação da lei e como ela pode atender melhor às comunidades, especialmente as formadas por pessoas negras.

O corte de verbas para a polícia é uma parte importante desse objetivo. Muitas pessoas têm medo dessa proposta porque não entendem o que isso quer dizer. Cortar a verba não significa acabar com a polícia. “A ideia é analisar como os departamentos de polícia recebem verba para desempenhar funções que não deveriam ter que desempenhar e que não fazem bem, necessidades que seriam melhor atendidas por outros grupos, com outros tipos de treinamentos e recursos”, comenta Cooper.

Por exemplo, incidentes de violência doméstica ou crises de saúde mental poderiam ser melhor resolvidos por assistentes sociais ou profissionais de saúde do que por policiais armados. “Uma arma pode ser motivo para agravar ainda mais esse tipo de situação, mesmo se o policial tiver boas intenções”, diz Cooper. O objetivo seria acalmar esse tipo de situação sem usar a força e, possivelmente, salvar vidas.

5. O movimento é racista.

A ideia da expressão “Black lives matter” não é fomentar a desunião. Ainda, assim, ela incomoda certas pessoas (brancas). Algumas chegam ao ponto de dizer que priorizar as vidas negras é uma forma de racismo reverso (que, aliás, não existe).

“Como as nossas vidas são tratadas como se não fossem importantes, precisamos afirmar especificamente que são. A ideia da frase é apenas explicar que ter a pele negra não significa que uma pessoa mereça ser tratada de forma diferente e menos ainda que a vida dela possa ser interrompida”, explica Saahene.

“Não estamos dizendo que as vidas negras são mais importantes, mas sim que também são importantes. A ideia não é que uma pessoa tenha mais e outra tenha menos, mas sim criar uma situação em que todos tenham os mesmos privilégios”, completa Melissa DePino, que fundou a From Privilege to Progress junto com Saahene. 

6. O movimento é uma fachada para financiar os democratas.

Saahene conta que existe um conceito equivocado de que o movimento Black Lives Matter surgiu com a finalidade de ganhar controle político.

Essa ideia provavelmente surgiu por causa de um post no Facebook, já excluído, que afirmava que as doações para o Black Lives Matter na verdade eram encaminhadas para um “Supercomitê democrata”.

Essa afirmação se baseava em um vídeo que circulou nas redes sociais, mostrando um usuário que tentava fazer doações no site do Black Lives Matter e era redirecionado para outro site, chamado ActBlue. Depois, o vídeo mostrava uma página do OpenSecrets.org que rastreava os gastos do ActBlue, destacando contribuições de milhões de dólares para campanhas de candidatos presidenciais do Partido Democrata, como o Senador Bernie Sanders (Vermont) e o ex-vice-presidente Joe Biden.

O que não fica claro no vídeo e no post do Facebook é que o ActBlue é apenas uma plataforma de processamento de doações. Apesar de ser bastante usado por políticos democratas e organizações sem fins lucrativos progressistas, o site funciona de forma similar ao PayPal ou outros sistemas de pagamentos on-line. O ActBlue não armazena as doações nem decide como elas são alocadas, ou seja, as doações feitas para o Black Lives Matter vão para o Black Lives Matter.

“Apesar de buscar mudanças nas leis e nas políticas que prejudicam as pessoas negras, o movimento não é político. Os membros são ativistas, como eu”, afirma Saahene.

7. São os membros negros do movimento BLM que precisam acabar com o racismo.

Para as pessoas brancas, é fácil esperar que os amigos e colegas negros expliquem sobre racismo e apontem onde as discriminações acontecem, mas, na verdade, não é obrigação das pessoas negras acabar com o racismo. Já é difícil o suficiente enfrentar o racismo no dia a dia, então a última coisa que os aliados brancos devem fazer é aumentar essa carga.

“No movimento antirracista, as vítimas não podem fazer todo o trabalho sozinhas. As pessoas que têm as vantagens históricas e estruturais também precisam arregaçar as mangas”, comenta Cooper.

DePino concorda que o racismo não é “problema dos negros” e diz que as pessoas brancas precisam estudar história, reconhecer e entender os preconceitos, e pensar como podem deixar de prejudicar as pessoas não brancas, mesmo quando não é intencional. “Esse é o trabalho que precisamos fazer, não podemos prestar atenção somente quando alguém é assassinado. Precisamos estar atentos o tempo todo e integrar essa ideia no dia a dia”, ela conclui.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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