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26/04/2020 14:00 -03 | Atualizado 26/04/2020 14:00 -03

A cruzada de missionários fundamentalistas na Amazônia e a ameaça de 'genocídio' durante a pandemia

Tribos indígenas brasileiras exigem que grupo de americanos evangélicos fique fora de suas terras. Tensão nas reservas indígenas é crescente desde que Jair Bolsonaro tomou posse.

A pandemia global de covid-19 acirrou uma batalha de mais de uma década entre tribos indígenas e missionários evangélicos nas áreas mais remotas da Amazônia brasileira. Os indígenas afirmam que o coronavírus pode causar um genocídio e querem que os grupos religiosos sejam proibidos de entrar em suas terras.

Na semana passada, um juiz decidiu em favor das tribos, proibindo os missionários de entrar no Vale do Javari, perto da fronteira com o Peru, onde há várias tribos e pelo menos 16 grupos de populações isoladas – ou seja, sem registros conhecido de contato com comunidades externas.

A decisão arrola 3 missionários, bem como a Missão Novas Tribos do Brasil, entidade fundamentalista cristã que existe há 67 anos e que é afiliada de um grande grupo evangélico americano. A Novas Tribos também tem laços próximos com o governo de Jair Bolsonaro, que em janeiro indicou Ricardo Lopes Dias, ex-missionário da entidade, para chefiar o departamento da Funai responsável por populações isoladas.

Tribos no Vale do Javari e de todo o País há muito tempo protestam contra a atuação dos missionários. A preocupação com as atividades da Novas Tribos ganhou mais destaque no início do ano, segundo o The Guardian, graças à pandemia do coronavírus e à compra de um helicóptero pela organização – que seria usado para chegar às tribos mais isoladas da região. A Nova Tribos comprou a aeronave depois de arrecadar mais de US$ 2 milhões em parceria com a Ethnos360, grupo missionário americano que até recentemente era conhecido como New Tribes Mission e do qual a Novas Tribos é afiliada.

FLORENCE GOISNARD VIA GETTY IMAGES
Vista da cidade de Carauari (AM), onde indígenas temem a propagação do novo coronavírus.

A Univaja, grupo de tribos indígenas do Vale do Javari, foi à Justiça depois de uma reportagem do jornal O Globo mostrar que a Novas Tribos continuava sobrevoando a região em fins de março. Segundo o jornal, esses voos desrespeitavam regras das autoridades de aviação e de restrição de contato com populações indígenas durante a pandemia.

A Novas Tribos afirma que os voos foram suspensos e, em declaração ao HuffPost, diz que orientou seus missionários a sair de terras indígenas no final de março. Mas, por causa do histórico da entidade no País, as lideranças tribais afirmam que os missionários representam uma grave ameaça à população indígena — e o mundo deveria entender por que as tribos se opõem a essa intrusão religiosa até mesmo em tempos normais.

“Há muito tempo denunciamos essas organizações religiosas por violações das leis brasileiras, por desrespeitar nossos relacionamentos internos, nosso modo de viver e de pensar sobre o mundo”, afirmou a Univaja em um comunicado emitido depois da decisão judicial. “Agora, esses grupos nos expõem fisicamente a um vírus letal, que está devastando a humanidade... Somos sobreviventes de pestes genocidas do passado. Continuaremos denunciando os missionários, que não são bem-vindos e que ameaçam a nós e as nossas terras.”

O Brasil tem cerca de 60 mil casos confirmados de covid-19, embora o número real provavelmente seja bem maior. Os hospitais de Manaus (AM) já estão sobrecarregados, e os casos entre indígenas triplicaram há duas semanas. Se a doença continuar se espalhando em regiões remotas como o Vale do Javari, as consequências podem ser desastrosas para as comunidades locais – que já estão abandonadas pelo governo federal.

“Se o coronavírus chegar às terras indígenas, será uma tragédia, porque não temos áreas protegidas, não temos investimentos adequados em saúde e equipamentos para proteger a população local”, diz a deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR), que em 2018 tornou-se a primeira indígena do Congresso.

A disputa não envolve apenas um helicóptero e uma organização missionária. Ela também diz respeito ao desmonte da infraestrutura de proteção das tribos indígenas e dos povos isolados atribuído à gestão Bolsonaro. As tribos indígenas têm muito medo dos grupos missionários e do governo atual ― dois inimigos percebidos que estão muito mais próximos desde a indicação de Lopes Dias, às vésperas do surto de covid-19 no Brasil.

“Estou muito, muito preocupada”, afirma Beatriz de Almeida Matos, antropóloga da Universidade Federal do Pará que estuda culturas indígenas no Vale do Javari. “Sabemos pela História que esse tipo de contato [com missionários] é muito perigoso.”

“Eles acham que estão fazendo o trabalho de Deus”, diz Matos, que também trabalha para o Observatório de Políticas para Povos Indígenas Isolados, uma organização sem fins lucrativos. “Eles não se importam com a doença. Não se importam com o coronavírus. Não se importam com a morte. Eles têm certeza de que estão fazendo o que Deus os enviou para fazer na Terra.”

“Agentes de mudança cultural altamente ativos”

Com sede em Sanford, na Flórida, a Ethnos360 envia missionários cristãos para o Brasil e outras partes do mundo desde a sua fundação, em 1942. Sua principal missão é atingir pessoas em áreas onde não existem traduções da Bíblia. O foco principal da entidade são as comunidades indígenas, e a Ethnos360 afirma ter traduzido o Novo Testamento para 88 “línguas étnicas” (outras 114 estariam em processo de tradução), de acordo com o Ministry Watch, que compila informações sobre instituições de caridade cristãs.

As crenças do grupo são baseadas em leitura literal de textos bíblicos, diz Daniel Everett, um linguista e ex-missionário cristão que teve contato com a Missão Novas Tribos na Amazônia brasileira.

“Trata-se de um grupo evangélico fundamentalista extremamente conservador”, afirma ao HuffPost Everett, que hoje é ateu. “Eles querem converter definitivamente as tribos do Brasil ao cristianismo evangélico, como o conhecem nos Estados Unidos.”

O trabalho da organização é rigoroso: ela construiu uma réplica de uma aldeia indígena brasileira na Pensilvânia para treinar missionários, segundo uma reportagem de 2018 da BBC. Os missionários da Novas Tribos passam anos tentando fazer contato com os povos indígenas, aprendendo seu idioma, traduzindo a Bíblia e convertendo os habitantes locais ao cristianismo. Eles costumam atraí-los com alimentos, remédios e ferramentas básicas aos quais as tribos normalmente não têm acesso, afirma Everett. “Eles são agentes de mudança cultural altamente ativo. E não têm o menor problema com isso.”

A Ethnos360, que não respondeu aos pedidos de entrevistas, é financiada quase inteiramente por doações. Em 2018, a operação nos EUA recebeu quase US$ 60 milhões em contribuições, de acordo com o Ministry Watch.

O grupo mudou de nome depois de uma investigação ampla e muito divulgada sobre acusações de abuso sexual de crianças em suas filiais internacionais.

A Ethnos360 “tem um histórico longo e complicado” na América do Sul, afirma Fiona Watson, pesquisadora brasileira da Survival International, organização sem fins lucrativos que defende a proteção de povos isolados e há décadas faz campanhas contra a Novas Tribos. A Missão da Novas Tribos do Brasil é “provavelmente a mais agressiva e linha-dura de todas as organizações missionárias evangélicas” do País, diz Watson. E a história da entidade é cercada de controvérsias.

Nos anos 1980, missionários da Novas Tribos fizeram contato com os povos indígenas Zo’é, no norte do País. Eles foram finalmente expulsos em 1991, depois da morte de quase um quarto dos membros da tribo por doenças infecciosas, de acordo com a Survival International. Outro representante da Nova Tribos foi preso após colocar povos indígenas em condições análogas à escravidão.

O helicóptero ‘abriria as portas’ para que os missionários chegassem a ‘dez outras comunidades vivendo em isolamento extremo’, diz a Ethnos360 em seu site.

Ainda assim, a Missão Novas Tribos do Brasil acredita não estar avançando no mesmo ritmo de outros movimentos evangélicos  (muitos também apoiados por grupos norte-americanos) nos centros urbanos brasileiros. Os povos indígenas do país falam mais de 180 idiomas, mas “apenas 26 contam com tradução completa do Novo Testamento”, lamenta um texto publicado no site da entidade.

O helicóptero seria essencial o avanço rápido do trabalho no Vale do Javari. Ele “abriria as portas” para que os missionários chegassem a “dez outras comunidades vivendo em isolamento extremo”, diz a Ethnos360 em seu site. Em um vídeo postado no YouTube para promover a campanha de arrecadação de fundos, um missionário americano diz que Vale do Javari contém a “maior concentração de grupos isolados de todo o mundo”. 

“É por isso que precisamos de um helicóptero”, afirma o missionário, que também disse que trabalha para a Ethnos360 no Brasil desde 2006. O grupo ultrapassou a meta de US$ 2 milhões. (Em uma campanha semelhante para o trabalho realizado nas Filipinas, a Ethnos360 se refere ao helicóptero como “destruidor de barreiras”.

Os missionários da Novas Tribos visitaram pelo menos uma aldeia indígena no Vale do Javari no final de fevereiro, pouco antes da confirmação do primeiro caso de COVID-19 no Brasil, segundo líderes tribais locais.

Em 17 de março, quando o surto de coronavírus já estava se espalhando pelo País, os ministérios da Saúde e da Justiça determinaram que os brasileiros não-indígenas evitassem fazer contato com as tribos, para protegê-las do surto. A Missão Novas Tribos do Brasil, no entanto, continuou voando para o Vale do Javari, de qualquer maneira, segundo informou O Globo, na semana passada.

Edward Luz, chefe da Missão Novas Tribos do Brasil, disse inicialmente ao jornal que todos os missionários das Novas Tribos tinham deixado a região no final de fevereiro. O Globo, no entanto, noticiou que pelo menos um missionário havia permanecido até meados de março.

Luz afirmou que o helicóptero fizera um último voo para remover esse missionário, em 19 de março. Depois, Luz fez uma postagem online contestando as reportagens do jornal. Também mudou a data desse último voo, afirmando que ele aconteceu em 23 de março e teve o objetivo de retirar o missionário e duas outras pessoas.

Citando uma fonte não-identificada na região, O Globo informou que o mesmo helicóptero fez pelo menos 3 voos para o Vale do Javari nos últimos dias de março e no início de abril. Um porta-voz da Funai disse ao HuffPost que não tinha conhecimento de nenhuma dessas viagens e que nenhum voo foi autorizado para aquele período.

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Cemitério Parque Tarumã, em Manaus, durante a pandemia de COVID-19, 17 de abril.

Em repostas por escrito ao HuffPost, Eliana Camejo, porta-voz da Missão Novas Tribos do Brasil, nega que tenham ocorrido voos durante esse período. Ela afirma que a viagem em 23 de março foi registrada e aprovada de acordo com os regulamentos brasileiros. Camejo diz que a Missão Novas Tribos do Brasil ordenou que seus missionários saíssem das terras indígenas em 20 de março e que todos cumpriram a determinação. Ecoando Luz, ela afirma que os missionários das Novas Tribos haviam partido antes que as áreas relatassem seus primeiros casos da covid-19

“A Nova Tribos nunca tentou entrar em contato com povos isolados e não o fez no vale do Javari”, diz Camejo. As viagens realizadas foram autorizadas por líderes indígenas locais em uma comunidade com a qual a organização trabalha há 60 anos, afirma a porta-voz. Camejo diz ainda que a organização forneceu essas informações ao jornal antes da publicação da reportagem e que pediu a O Globo espaço no jornal para contestar as informações.

A Ethnos360 e a Missão Novas Tribos do Brasil fizeram parceria para comprar o helicóptero, segundo Camejo. Mas, embora sejam “organizações irmãs” que “compartilham afinidades” e os “mesmos objetivos”, ela disse que as entidades têm administração e financiamento separados. “O MNTB é brasileiro, apoiado quase inteiramente por doações da Igreja Evangélica brasileira”, afirma Camejo.

Como a maioria das tribos indígenas do Vale do Javari é contrária à presença dos missionários, as tribos provavelmente saberiam se a Novas Tribos continuasse com “esforços clandestinos” para entrar em contato com qualquer grupo indígena, apesar das restrições do governo, diz Watson. Mas, segundo ele, os missionários da Missão Novas Tribos também são “especialistas em operar ‘fora do radar’”.

Anos se passaram até que a Funai ou outras organizações externas soubessem que a Novas Tribos havia feito contato com os Zo’é. Só se soube disso depois dos primeiros surtos de doenças que atingiram a tribo, diz Watson.

Em resposta à decisão do juiz, Camejo disse que a Nova Tribos reiteraria à Univaja e à Justiça que não trabalha com povos isolados e que deixou a área em 23 de março.

Se a Missão Novas Tribos do Brasil deixar de trabalhar com tribos isoladas, respeitando a Constituição brasileira, isso significaria uma ruptura com a parceira americana: a Ethnos360, que publicava uma revista chamada “Ouro Marrom”, afirma que seu objetivo é alcançar “até a última tribo, independentemente de onde esteja”.

O governo de Bolsonaro aumenta o perigo 

Tradicionalmente, a Funai é cética em relação aos missionários estrangeiros, mas proteger tribos indígenas e isoladas em uma área tão vasta quanto a Amazônia e em um país tão grande quanto o Brasil é difícil, mesmo na melhor das circunstâncias.

Hoje em dia há muito temor de que, com Bolsonaro e Lopes Dias, a Funai nem sequer vai tentar fazer cumprir as leis que protegem tribos indígenas e povos isolados. 

Bolsonaro tem uma longa história de menosprezo pelos indígenas, usando linguagem racista e xenofóbica, e acabar com as agências e regulamentações que protegem a população nativa e a Amazônia são um objetivo central de sua presidência. 

EVARISTO SA VIA GETTY IMAGES
Bolsonaro fala com manifestantes que pediam o fim do isolamento e do distanciamento social, 19 de abril.

Órgãos como a Funai sofreram enormes cortes orçamentários, limitando sua capacidade de fiscalização, e Bolsonaro, que quer abrir a Amazônia e as terras indígenas para a mineração e a agricultura, submeteu a agência a um novo ministério de direitos humanos, liderado por Damares Alves, uma pastora evangélica e ex-missionária. (O Congresso transferiu a Funai de volta ao Ministério da Justiça.) 

O primeiro ano da presidência de Bolsonaro foi o mais mortal em 11 anos para os povos indígenas, e as invasões de mineradores, madeireiros e outros interesses industriais colocam suas vidas e suas terras ainda mais em risco de violência e de doenças infecciosas – antes mesmo da pandemia do coronavírus.

Líderes da Missão Novas Tribos do Brasil comemoraram abertamente a nomeação de Lopes Dias, que trabalhou 10 anos como missionário no grupo. Organizações tribais e pesquisadores, porém, ficaram preocupados.

Lopes Dias é antropólogo de formação, mas “sua única experiência com povos indígenas no campo foi como missionário”, afirma Matos, o antropólogo. “É uma área muito, muito técnica. Você precisa conhecer as realidades específicas dessas pessoas. Nunca tivemos alguém assim ― alguém totalmente contra a política [da Funai] ― nessa posição. E o trabalho missionário é algo totalmente contrário a essa política.” 

Agora todos estão se distanciando socialmente, e é isso que essas pessoas vêm fazendo nos últimos 100 anos. É um extremo distanciamento social baseado em experiências genocidas.Andrew Miller, Amazon Watch

Enfraquecer a Funai ainda mais não seria tão difícil. Basta “fechar os olhos e não fazer nada”, afirma Matos. “Para proteger,  você tem de agir. Você tem de proibir. Você tem de vigiar. Você tem de impedir invasões. Você tem de trabalhar pelas pessoas protegidas. Você tem de agir para proteger a terra.”

Depois de anos de oposição feroz de tribos indígenas e de atuação do governo brasileiro, mineradores, madeireiros e interesses industriais estão se aproveitando do apoio declarado de Bolsonaro: as atividades ilegais continuavam nos estágios iniciais da pandemia, porque as pessoas que “promovem o desmatamento não estão em quarentena”, afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, organização de defesa do meio ambiente. “Eles sabem que o governo e o estado não estão operando durante a pandemia.” 

A nomeação de Lopes Dias, que o Ministério Público Federal tentou cancelar por falta de experiência relevante, gerou temores de que os grupos missionários agora sintam-se à vontade para operar. “Tenho certeza de que [os missionários] se sentem empoderados”, diz Watson. 

O perigo do coronavírus precipitou apelos para que as tribos sejam deixadas em paz ― um desejo que vem de experiências passadas, quando o contato trouxe consigo doenças devastadoras – e para que os missionários e as pessoas que os financiam entendam as razões do isolamento.

“Agora todos estão se distanciando socialmente, e é isso que essas pessoas vêm fazendo nos últimos 100 anos”, diz Andrew Miller, um dos diretores da Amazon Watch, ONG com sede nos Estados Unidos e que trabalha com tribos indígenas no Brasil. “É um extremo distanciamento social baseado na experiência genocida.”

Mas, mesmo que tenham saído das terras indígenas por enquanto, os missionários fundamentalistas provavelmente não verão o surto de coronavírus como uma razão para abandonar suas campanhas de conversão religiosa – pelo menos não por muito tempo.

“A Bíblia diz que buscar os extremos e os isolados se encaixa muito bem nessa definição”, diz o ex-missionário Everett. “As pessoas pensam: ’Bom, estou disposto a esperar um pouco, mas quantas pessoas vão morrer antes de eu chegar? E os que morrerem antes de eu chegar vão para o inferno, então tenho de salvá-los. Se eu tiver de morrer, ou alguns deles tiverem de morrer, bem, é assim mesmo.”

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