POLÍTICA
22/04/2019 09:07 -03

Parlamentares mantêm agenda com ministro do Turismo e silenciam sobre acusações

Acusado por deputada de ameaçá-la de morte e investigado em esquema de candidaturas laranja, Álvaro Antônio recebeu 83 parlamentares desde janeiro.

Geraldo Magela/Agência Senado
Acusado de ameaçar deputada de morte, Marcelo Álvaro Antônio recebeu 83 parlamentares desde janeiro.

Investigado por possível envolvimento em esquema de candidaturas laranja e acusado pela deputada Alê Silva (PSL-MG) de ameaçá-la de morte, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), segue com uma rotina normal em Brasília. Parlamentares silenciam sobre as acusações e têm marcado audiências com o integrante do primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro.

Desde janeiro, 83 deputados federais e senadores encontraram o deputado federal licenciado, de acordo com a agenda oficial do Ministério do Turismo. Os correligionários são os mais frequentes. Foram 16 parlamentares do PSL (19%), seguidos por 12 do PR (14%) e 8 (9,6%) do PSDB. Na lista há também integrantes de partidos de oposição, como o PSB.

Nas visitas, há também uma preferência por parlamentares eleitos por Minas Gerais. Foram 20, o equivalente a 24% do total. Entre eles está o presidente da Comissão de Turismo na Câmara, deputado Newton Cardoso Júnior (MDB-MG), com 4 encontros.

 

A Polícia Federal e o Ministério Público apuram o envolvimento do ministro nos crimes de falsidade ideológica e lavagem de dinheiro quando Álvaro Antônio era presidente do PSL em Minas Gerais.

Em audiência no Senado no último dia 10, o ministro disse que o inquérito “vai ser a melhor oportunidade de provar que não tem absolutamente nenhum problema ou procedimento inadequado”.  

Alguns parlamentares que visitaram o ministro nos primeiros meses de governo não parecem se importar em associar a sua imagem à de Álvaro Antônio, publicando, inclusive, fotos dos encontros em suas redes sociais. Um exemplo é Coronel Chrisóstomo (PSL-RO). O militar da reserva ocupa pela primeira vez um mandato na Câmara.

Candidata do PSL à coordenação da bancada feminia, a deputada Aline Sleutjes (PSL-PR), também registrou a reunião em 14 de março.

 

Em entrevista ao HuffPost Brasil em março, a parlamentar disse que é preciso “avaliar bem a fundo” o que seriam candidaturas laranja porque há casos de dificuldades para mulheres conquistarem votos.

“As que são chamadas de laranja, às vezes, são mulheres sem expressão política. Não tinha voto, está iniciando agora. O processo eleitoral é difícil. Não é para qualquer um chegar lá e fazer 20 mil, 50 mil, 100 mil votos”, disse.

Ela defendeu a cota de 30% do Fundo Eleitoral para candidaturas femininas. Alguns parlamentares tentam derrubar a regra definida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2018 para aumentar a participação das mulheres na política.

a deputada federal Professora Dayane Pimentel (PSL-BA) recebeu o ministro em Salvador em fevereiro e voltou a ser reunir com ele em 4 de abril.

PSL protege ministro do Turismo

Filho de Álvaro Antônio Teixeira Dias, que foi vice-prefeito de Belo Horizonte e deputado federal, Marcelo Álvaro tinha uma carreira política modesta. Em 2014, ele teve 60,3 mil votos pelo PRP. Quatro anos depois, no comando do PSL de Minas, teve um salto. Conquistou 230.008 eleitores e foi o deputado federal mais votado do estado.

Dentro do partido do presidente, há um silêncio sobre as acusações contra o ministro. Manifestações de solidariedade a Alê Silva se limitaram à deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), que cobrou a demissão do mineiro após a deputada de Minas Gerais relatar ameaças.

Em entrevista à Folha de S. Paulo em 13 de abril, Alê Silva disse que Álvaro Antônio a ameaçou de morte em uma reunião com correligionários, no fim de março, em Belo Horizonte, após ela denunciar esquema envolvendo candidaturas laranja.

Deputado federal licenciado e presidente do PSL em Minas Gerias na época da eleição, o ministro nega a ameaça e acusa a correligionária de fazer uma campanha difamatória contra ele em busca de espaço na estrutura partidária no estado.

As acusações de Alê Silva também são vistas com desconfiança por outros integrantes do PSL. ”A deputada falou e tem que provar. A Polícia Federal tem que provar”, disse ao HuffPost Brasil o líder da sigla na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO).

De acordo com o parlamentar, pessoas interessadas no cargo do ministro dentro e fora do partido do presidente têm trabalho para derrubá-lo, especialmente políticos de estados que teriam atividades turísticas mais desenvolvidas, segundo ele. “Quem está no poder, está todo mundo querendo derrubar”, afirmou.

Waldir nega qualquer constrangimento interno sobre a situação. “Nenhum incômodo. Para o presidente do partido e para os parlamentares do PSL, o ministro é amigo nosso”, disse. Ele sustenta que Álvaro Antônio permanece no cargo até que que as investigações sejam concluídas. “Se tiver algo concreto contra o ministro que disser que ele errou, ninguém vai passar a mão na cabeça dele não”, completou.

Questionado sobre a diferença de tratamento dado a Gustavo Bebianno, que perdeu o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência após ser acusado de envolvimento no esquema de laranjas, o líder do PSL aponta para relação com o presidente Jair Bolsonaro.

“O Bebianno vazou áudios do presidente da República. Com o ministro [do Turismo] não houve quebra de confiança pessoal. Ele foi acusado de algo que não foi provado ainda”, disse.

Najara Araujo/Câmara dos Deputados
Deputada Alê Silva (PSL-MG) disse que Álvaro Antônio a ameaçou de morte em uma reunião com correligionários, no fim de março, em Belo Horizonte, após ela denunciar esquema envolvendo candidaturas laranja.

No Senado, também há uma blindagem da base. Em audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) do Senado em 10 de abril, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) foi a única a questionar o ministro sobre as investigações.

O líder do governo, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), e os vice-líderes Izalci Lucas (PSDB-DF) e Eduardo Gomes (MDB-TO) trabalharam para evitar perguntas sobre o tema.

Bolsonaro diz que só decidirá sobre a permanência do ministro após o fim da apuração da Polícia Federal.

 

O que pesa contra Marcelo Álvaro Antônio

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, de R$ 279 mil repassados pelo PSL a 4 candidaturas femininas, ao menos R$ 85 mil foram destinados a 4 empresas de pessoas ligadas a Álvaro Antônio.

A Polícia Federal analisa documentos e colheu depoimentos sobre o caso. Em um deles, Zuleide Oliveira, 42 anos, de Santa Rita de Caldas (MG), disse que o ministro ofereceu R$ 60 mil do Fundo Partidário para sua campanha, desde que ela devolvesse R$ 45 mil. No esquema, as mulheres seriam usadas para cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas.

A aposentada Cleuzenir Barbosa, de 47 anos, por sua vez, entregou ao Ministério Público Federal uma troca de mensagens com um ex-assessor do ministro. Dos R$ 60 mil que recebeu do PSL, ela teria de devolver R$ 10 mil. A candidata que hoje mora em Portugal teve 2.097 votos para deputada estadual, quase dez vezes menos do que o necessário para se eleger.

Álvaro Antônio nega irregularidades e promete que irá provar sua inocência. “Sempre agi estritamente dentro da legislação eleitoral dentro do partido em Minas. Nunca fiz qualquer procedimento inadequado que viesse a macular ou a imagem do partido ou a minha”, afirmou na audiência pública no Senado em abril.