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08/04/2019 08:39 -03 | Atualizado 08/04/2019 12:10 -03

Ministro da Educação na forca: Relembre o turbilhão de polêmicas dos 3 últimos meses

Ironicamente, foi a postura ideológica demais que custou a cabeça de Ricardo Vélez Rodriguez.

Ueslei Marcelino / Reuters
Bolsonaro anunciou, na sexta, que destino de Vélez seria definido nesta segunda-feira.

Quando o filósofo e teólogo colombianoRicardo Vélez-Rodríguez foi anunciado como futuro ministro da Educação, no fim de novembro, ficou claro que a postura ideológica tinha sido um fator determinante para a escolha.

Vélez era a indicação de Olavo de Carvalho, guru dos filhos do presidente eleito, e mantinha um blog em que criticava o sistema de ensino que, segundo ele, tentava “impor à sociedade uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de ‘revolução cultural gramsciana’”.

A outra opção, que chegou a ser até celebrada como uma boa escolha por grupos não conservadores, era o diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Ramos. A indicação, contudo, foi barrada pela bancada evangélica.

Ironicamente, no entanto, foi a postura ideológica demais que custou a cabeça do ministro nesta segunda-feira (8). 

Pouco antes do meio-dia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que Vélez deixaria o cargo e que, no seu lugar, assumirá o professor Abraham Weintraub. Bolsonaro já havia dito, na última sexta-feira (5), que esta segunda seria “o dia do fico ou não fico” para Vélez.

 

Apesar de parecer ter seguido à risca o que o presidente e Olavo de Carvalho queriam, Vélez perdeu publicamente o apoio dos dois. O último chegou a mandar o indicado “enfiar o ministério no cu” e o chamou de “traiçoeiro”.

Já Bolsonaro, que há menos de 4 meses elogiava a “ampla experiência docente e gestora” de Vélez, disse, na última sexta (5), ser “bastante claro que não está dando certo” e que “está faltando gestão” no Ministério da Educação (MEC). 

Entre as bolas fora dadas sob a batuta de Vélez estão várias decisões de cunho ideológico: pedir que alunos fossem filmados cantando o hino nacional nas escolas; mudar um edital para publicação de livros didáticos suprimindo a orientação para que obras abordassem violência contra as mulheres; e, por último, dizer, em entrevista, que pretendia alterar livros didáticos para ensinar aos estudantes que não houve um golpe militar em 1964.

As decisões incendiaram, principalmente, a ala militar, que considerou as trapalhadas e polêmicas nocivas e desnecessárias ao governo. O que se viu foi uma queda de braço entre “olavistas” e militares no ministério, com a prevalência dos últimos, que hoje ocupam cargos de alto escalão, que antes estavam com seguidores de Olavo.

Mas se você perdeu algum capítulo da novela e do caos que se instaurou no MEC nos últimos 3 meses, não se preocupe. A gente fez aqui um resumo para você. 

 

O ministro cai ou não cai? 

Bolsonaro disse a jornalistas na última sexta-feira (5) que a  previsão era tirar a “aliança da mão esquerda” de Vélez e “pôr na mão direita ou na gaveta” nesta segunda-feira. “Está bastante claro que não está dando certo. Ele é uma pessoa bacana e honesta, mas está faltando gestão, que é uma coisa importantíssima”, disse.

A declaração foi dada menos de 10 dias depois de Bolsonaro “desmentir” a colunista da GloboNews Eliane Cantanhêde, que havia noticiado a decisão do presidente de demitir Vélez. Mais uma vez, na ocasião, ele atacou “a mídia”.

“Sofro fake news diárias como esse caso da ‘demissão’ do Ministro Velez. A mídia cria narrativas de que NÃO GOVERNO, SOU ATRAPALHADO, etc. Você sabe quem quer nos desgastar para se criar uma ação definitiva contra meu mandato no futuro. Nosso compromisso é com você, com o Brasil”, escreveu Bolsonaro. 

Também na sexta-feira, Vélez disse a jornalistas que não pediria demissão. 

No fim de março, em audiência na Câmara, no entanto, Vélez deixou transparecer o sentimento de um ministro na corda-bamba: “Muitos pediram para eu sair, mas não vou sair. Por que é um passeio às ilhas gregas? Não. O cargo é um abacaxi do tamanho de um bonde. Mas topei o convite porque quero devolver ao meu País o que ele fez por mim”.

 

Decisões erradas, recuos e pedidos de desculpa

Uma das principais características do caos que se instaurou no Ministério da Educação nos últimos três meses foram as decisões polêmicas e consequentes recuos da pasta.

O primeiro ocorreu no dia após a posse do novo governo. Um edital publicado em 2 de janeiro mudava as regras de distribuição dos livros didáticos, suprimindo trechos como o compromisso com temas como violência contra as mulheres e promoção das culturas quilombola e dos povos do campo. 

Na semana seguinte, o MEC voltou atrás. Em nota, o ministério disse que Vélez Rodríguez “decidiu tornar sem efeito” a retificação do edital, “tendo em vista os erros que foram detectados no documento cuja produção foi realizada pela gestão anterior do MEC”. Ainda segundo o texto, a revisão havia sido enviada em 28 de dezembro de 2018, ainda no governo Temer. 

A versão foi negada pelo último ministro, Rossieli Soares Silva, e Vélez pediu a abertura de uma sindicância para apurar as responsabilidades. Dois dias depois do recuo, o chefe de gabinete do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Rogério Fernando Lot, que havia sido responsável por autorizar as alterações, foi exonerado, mas o MEC negou que a saída de Lot tivesse ligação com o caso.

Em fevereiro, foi a vez de o MEC mandar um e-mail às escolas públicas e particulares do País pedindo que os alunos fossem filmados cantando o Hino Nacional. Também enviava uma mensagem de Vélez, que deveria ser lida aos alunos, na qual o ministro saudava “os novos tempos” e usava o lema de campanha de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”.

ASSOCIATED PRESS
Bolsonaro, que há menos de 4 meses elogiava a “ampla experiência docente e gestora” de Vélez, disse, na última sexta (5), ser “bastante claro que não está dando certo”.

 

Três dias depois, e sob muitas críticas, Vélez recuou. Em parecer jurídico enviado ao Ministério Público Federal, que havia pedido explicações, a pasta continuou pedindo os vídeos, mas com autorização (e sem a mensagem com o lema de Bolsonaro): “A gravação deve ser precedida de autorização legal da pessoa filmada ou de seu responsável”. De acordo com a segunda mensagem, enviada às escolas, as gravações serviriam para “eventual uso institucional”.

Em audiência na Câmara, no fim de março, o ministro admitiu que foi uma falha. “E toda falha a gente corrige na hora. Causou repercussão negativa e me traria problemas jurídicos, retifiquei imediatamente”, explicou.

Vélez pediu desculpas pelo ato. Aproveitou e pediu desculpas também por ter afirmado que “o brasileiro viajando é um canibal”. “Se é fraqueza pedir desculpa, tenho essa fraqueza, mas fiz isso duas vezes.”

 

Saídas e demissões

Foram tantas exonerações em cargos de alto escalão do MEC nos últimos três meses que já perdemos a conta. Em muitos casos, o posto teve mais de dois ocupantes neste curto espaço de tempo.

Foi o caso do segundo principal cargo do ministério, o de secretário-geral, que foi ocupado por 4 pessoas. Luiz Antonio Tozi, considerado um representante da “ala técnica” do ministério e alinhado a um grupo rival dos “olavetes” foi exonerado em 12 de março após ter sua cabeça pedida publicamente por Olavo de Carvalho. 

Além de Tozi, outros diretores e assessores foram demitidos na época: os militares Eduardo Miranda Freire de Melo, que era adjunto de Tozi, e Claudio Titericz; o chefe de gabinete Tiago Tondinelli, que é ex-aluno de Olavo de Carvalho; Osmar Bernardes Junior, que ocupava o cargo de assessor da Secretaria-Executiva da pasta; o assessor Rodrigo de Almeida Morais; o assessor do ministro Silvio Grimaldo, também ex-aluno de Olavo e Tiago Levi Diniz Lima, que foi exonerado da Fundação Joaquim Nabuco.

No lugar de Tozi, assumiu o engenheiro Rubens Barreto da Silva, que só ficou no posto por dois dias. Em 14 de março, Vélez anunciou pelo Twitter que a nova número 2 do MEC seria a diretora de uma escola batista em São José dos Campos, Iolene Lima.

Assim que Iolene assumiu a secretaria voltaram a circular na internet vídeos nos quais ela afirma que a “educação baseada em princípios é uma educação baseada na palavra de Deus”.

“Onde a geografia, a história, a matemática vai ser vista sob a ótica de Deus. Então o aluno vai aprender que o autor da história é Deus. O realizador da  geografia foi Deus. Deus fez as planícies, Deus fez os relevos, Deus fez o clima”, afirma em uma das gravações. 

Na semana seguinte, foi a vez de Iolene anunciar pelo Twitter que tinha sido demitida do segundo cargo mais importante do ministério. 

“Não sei o que dizer, mas confio que Deus me guardará e guiará! Desejo ao governo Bolsonaro e ao ministro Ricardo Vélez, o melhor!”, escreveu, em um post hoje fechado.

Em seu lugar, uma semana depois, assumiu um militar, o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira, que já ocupou o posto de chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (FAB). Ele era assessor especial da presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) desde fevereiro.

Na última semana, houve mais duas baixas em postos importantes no MEC: foram demitidos o assessor especial do ministro, Bruno Garschagen - muito próximo a Olavo de Carvalho -, e a chefe de gabinete, Josie de Jesus, que foi substituída por mais um nome militar na pasta: Marcos de Araújo, ex-subcomandante geral da Polícia Militar do Distrito Federal e professor da Academia dos Bombeiros de Brasília.