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30/06/2020 16:21 -03 | Atualizado 30/06/2020 19:17 -03

Carlos Alberto Decotelli pede demissão do MEC após currículo anabolizado ser contestado

Apenas 5 dias após ser nomeado, ele deixa Ministério da Educação e se torna ministro de permanência mais curta do governo Bolsonaro.

Divulgação
Terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro foi acusado de plágio em dissertação de mestrado.

Antes mesmo de tomar posse, Carlos Alberto Decotelli deixou o Ministério da Educação. Ele entregou a carta de demissão ao presidente Jair Bolsonaro na tarde desta terça-feira (30), após contradições em informações em seu currículo. No lugar da posse, que estava prevista para esta tarde, a saída; ele deixa o cargo apenas 5 dias após seu nome ter sido publicado no DOU (Diário Oficial da União). Ele é o terceiro chefe do MEC a deixar a pasta em um ano e meio de governo. 

Após um encontro com Bolsonaro na tarde desta segunda (29), Decotelli negou que deixaria o ministério, minimizado as contradições em seu CV. O presidente, contudo, não se satisfez com as justificativas que ouviu de seu agora ex-ministro. 

As sequentes dores de cabeça de Bolsonaro com o CV de Decotelli desgastaram o núcleo militar, que bancou a indicação do economista à vaga no MEC. Em especial os ministros militares do Planalto têm sido criticados pelo próprio Bolsonaro por não terem checado os dados do currículo do ex-presidente do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). 

No início da noite, o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, negou em seu Twitter que a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que fica sob o guarda-chuva da GSI, cheque a formação de integrantes do governo, dizendo que isso é responsabilidade de “cada um”. 

Conforme fontes palacianas ouvidas pelo HuffPost nesta terça, integrantes da ala ideológica passaram a defender desde o fim de semana um nome alinhado a eles, como o polêmico ex-chefe da pasta Abraham Weintraub. Segundo informou uma das pessoas com quem o HuffPost conversou, o que se tem dito ao presidente Jair Bolsonaro é que “vale muito mais a pena seguir os conselhos” deste núcleo [ideológico]. 

Um novo nome deve ser anunciado nos próximos dias. Antes, porém, apesar da negativa de Heleno sobre a Abin atuar na confirmação de dados curriculares, Bolsonaro determinou que a agência faça uma devassa em dados de nomes cotados para a vaga. A informação foi passada ao HuffPost por interlocutores do mandatário.

A aposta é que o quarto nome para o MEC possa ter um perfil mais parecido com o de Weintraub, afim aos ideológicos do governo, do que com a ala ponderada, representada pelos militares.

Contudo, voltaram a circular nos corredores do Planalto os mesmos nomes que já em voga antes da nomeação de Decotelli: o secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, e o ex-assessor do MEC Sérgio Sant’Ana.

Polêmicas

Desde que foi anunciado para o cargo de ministro da Educação, na última quinta (25), o ex-presidente do FNDE reescreveu seu currículo algumas vezes. Anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro com exaltação ao CV cheio de títulos, ele foi acusado de plágio na dissertação de mestrado, reconheceu que não finalizou o doutorado e, nesta segunda (29), a Universidade de Wuppertal, na Alemanha, afirmou que Decotelli não fez pós-doutorado por lá.

O desmonte do currículo, que estava público na plataforma Lattes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), acendeu um alerta, especialmente para a comunidade acadêmica. 

Depois que a sequência de “erros” foi anunciada na imprensa, Decotelli alterou o currículo. Ele excluiu a citação do pós-doutorado nesta segunda, após a universidade alemã afirmar que o ministro fez apenas uma pesquisa de três meses em janeiro de 2016 na instituição

Na sexta (26), o reitor da Universidade de Rosário, na Argentina, afirmou que Decotelli não concluiu o doutorado em administração da Faculdade de Ciências Econômicas e Estatística . “Essa tese não foi aprovada e não recebeu um parecer favorável da banca. Portanto, ele não pôde concluir o doutorado que estava realizando na Universidade Nacional de Rosário. E, como consequência, não obteve o título de doutor”, afirmou o reitor da instituição, Franco Bartolacci. 

Decotelli, então, corrigiu o Lattes. Excluiu o título da tese e o nome do orientador. Ao repórter Cesar Tralli, o futuro ministro disse que fez todo o curso, mas não defendeu o trabalho final porque não tinha mais interesse em continuar na Argentina.

Pairam ainda dúvidas sobre seu mestrado. Há suspeita de plágio na dissertação apresentada em 2008. No sábado (27), em nota, a FGV (Fundação Getulio Vargas) anunciou que vai apurar a denúncia. “Caso seja confirmado o procedimento inadequado, a FGV tomará as medidas administrativas e judiciais cabíveis”, diz. À Rede Globo, Decotelli disse que se forem encontradas falhas, ele irá revisar o trabalho. Nesta segunda, a plataforma Lattes ficou instável, e o perfil do ministro no Linkedin estava fora do ar.