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25/05/2020 20:10 -03

Ministério da Saúde não vai recuar mesmo após OMS suspender testes com cloroquina

“Até o momento o que nós temos é muita segurança no uso do medicamento”, afirmou a secretária Mayra Pinheiro.

NurPhoto via Getty Images
A defesa do uso amplo da cloroquina é uma bandeira do presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo com a decisão da OMS (Organização Mundial de Saúde) de suspender testes com hidroxicloroquina para covid-19 por preocupações de segurança, o Brasil não vai recuar na ampliação do uso do medicamento. De acordo com a secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, o governo segue “tranquilo e sereno” em relação à nota técnica que orienta o uso da cloroquina no SUS (Sistema Único de Saúde).

“A orientados segue o Conselho Federal de Medicina que dá autonomia para que os médicos possam prescrever para os pacientes que assim se desejarem”, enfatizou. A nota do CFM, no entanto, ressalta que “não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença”.

A secretária defendeu que, com a nota técnica, o ministério respeita a autonomia médica e princípio da justiça ao permitir que o medicamento seja usado em casos leves da doença. Incialmente, o ministério estabelecia o uso apenas para quadros graves. Isto porque o medicamento pode alterar as funções cardíacas e administrado em ambiente hospitalar, os médicos têm melhor controle do impacto no coração.

De acordo com ela, o País tem mais de 216 protocolos de uso de cloroquina e há países como Turquia e Estados Unidos que orientam o uso, inclusive, profilático, ou seja, para prevenir a doença. A secretária também minimizou o maior estudo já publicado sobre a cloroquina que identificou que seu uso não é eficaz contra a covid-19 e ainda aumenta os riscos de morte por problemas cardíacos, como arritmia.

“Não se trata de um ensaio clínico, é apenas um banco de dados coletados em vários países, isso não entra em um critério de estudo metodologicamente aceitável para servir de referência para nenhum país do mundo nem para o Brasil. Nesses estudos, a forma de seleção do paciente não havia dose padrão, duração padrão, medicação padrão para considerar ensino clínico nos faz refutar qualquer possibilidade de citar esse estudo como referência para o Brasil recuar na sua orientação de respeitar a autonomia médica.”

A secretária afirmou, no entanto, que há possibilidade de o ministério recuar, se houver estudo que não comprove eficácia alguma. “Até o momento o que nós temos é muita segurança”, disse.

O protocolo

A defesa do uso amplo da cloroquina é uma bandeira do presidente Jair Bolsonaro. A pressão feita por ele para o ministério mudar sua diretriz em relação ao medicamento foi um dos fatores que levou à saída de Nelson Teich do comando da pasta no último dia 15.

O novo protocolo prevê que o paciente assine um termo dizendo estar ciente “de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina pode causar os efeitos colaterais descritos” e que eles “podem levar à disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente, e até ao óbito”.

O médico também precisa assinar o termo, dizendo que fez as explicações devidas e que “o paciente ou seu responsável, está em condições de compreender o que lhes foi informado”. O medicamente é geralmente usado para tratar malária, artrite reumatoide e lúpus.

A aposta na cloroquina é baseada em um controverso estudo científico publicado pelo infectologista Didier Raoult, do Instituto Hospitalar Universitário (IHU) de Marselha, na França. O documento foi tirado do ar pelos próprios pesquisadores. De acordo com essa pesquisa, 75% de 42 pacientes com covid-19 livraram-se do vírus após 6 dias de tratamento com a substância associada ao antibiótico azitromicina. 

É consenso na comunidade científica que ainda não existe nenhum tratamento comprovadamente eficaz para tratar a covid-19.