LGBT
25/01/2020 03:00 -03 | Atualizado 25/01/2020 08:30 -03

Dona Hermínia, o fenômeno de Paulo Gustavo que faz rir e transforma com filme pró-gays

"Minha Mãe É Uma Peça 3" já é o filme nacional com maior arrecadação da História. Um brinde ao amor e inclusão, destaca ator ao HuffPost.

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Dona Hermínia e o filho Juliano, interpretados por Paulo Gustavo e Rodrigo Pandolfo.

A sala de cinema está lotada. Como o shopping fica praticamente dentro da estação de metrô, na zona sul de São Paulo, pessoas de diversas regiões acessam o local — e a programação da sétima arte. O resultado: paulistanos dos mais variados estilos, diferentes níveis socioeconômicos, origens e destinos distintos estão lá assistindo à mesma sessão que eu de Minha Mãe É Uma Peça 3, o filme mais badalado deste início de 2020.

Confesso minha surpresa ao notar o engajamento do público. As gargalhadas vão do início ao fim dos 111 minutos. O terceiro da trilogia é o primeiro da minha vida, e eu percebo o quanto estou desconectado do que a maioria dos brasileiros que vai ao cinema quer e gosta. E repete!

Paulo Gustavo é um fenômeno. Não só por cativar milhões de pessoas com sua marcante e hilariante Dona Hermínia, a protagonista que ele vive há 12 anos, desde o teatro. 

Mas esse ator nascido em Niterói (RJ) consegue não apenas fazer rir com a representação de uma mãe tão universal como também traz para a consciência do espectador médio uma questão tabu por séculos e ainda sensível no Brasil de hoje — a vivência do LGBT.

“Acho meu filme totalmente político, totalmente transformador. O foco é no casamento homoafetivo; é um filme pró-gay”, diz Paulo Gustavo, em entrevista ao HuffPost por WhatsApp. 

Ao apresentar a jornada de aceitação da mãe de um filho gay, assim percebido desde a infância, Paulo Gustavo ensina plateias do País inteiro a naturalidade da diferença, a beleza da diversidade.

Dona Hermínia se vê cada vez mais só, ainda mais por se sentir excluída de participar da gravidez da filha Marcelina (Mariana Xavier) e do casamento do filho Juliano (Rodrigo Pandolfo) com Thiago (Lucas Cordeiro).

Ao apresentar a jornada de aceitação da mãe de um filho gay, assim percebido desde a infância, Paulo Gustavo ensina plateias do País inteiro a naturalidade da diferença, a beleza da diversidade.

“Esse filme é um brinde ao amor, à inclusão; a gente ri e transforma ao mesmo tempo. Estou usando a minha arte pra falar desses assuntos [questão LGBT] e fazer as pessoas refletirem e transformarem”, afirma o ator ao HuffPost.

São dezenas de referências ao amor tantas vezes discriminado e excluído. Dona Hermínia encontra um desconhecido na rua, interpretado por Thales Bretas, marido de Paulo na vida real. Ele está passeando com os dois filhos do casal. Fotos da família são exibidas com os créditos do filme.

E, claro, a trajetória de Juliano, o filho gay, dá o contorno fictício à história real de milhares de homossexuais nalgum momento estigmatizados por expressarem sua essência, quem eles são.

Assim é a comovente cena do pequeno Juliano, em uma reminiscência de Dona Hermínia, recusando-se a ir à festa da escola fantasiado de Visconde de Sabugosa. Ele quer ir de Emília. A mãe sabe que o filho será julgado e, mesmo querendo protegê-lo, aceita levá-lo de boneca em público.

“Essa é uma cena que todo mundo fica tocado, se emociona... Eu adoro Emília, realmente me vesti de Emília, realmente teve festa do sítio [na minha infância]. Minha mãe sempre foi tranquila com isso, mas sei que não é realidade de todo mundo”, recorda-se Paulo Gustavo. 

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Mesmo a contragosto, Dona Hermínia peita a sociedade para levar o filho Juliano de Emília em festa da escola.
Do mesmo jeito que a gente é aplaudida, a gente também toma os nossos tomates na mesma intensidade.

Não dá para negar que uma cena assim inspira. Qual é o problema de o menino querer ir de Emília e não de Visconde? Com Dona Hermínia, tudo parece tão de boa, genuíno, tranquilo.

Na sala de cinema, tanta gente diferente. E todos só rindo. Ou suspirando. Não há vaias para o menino que quer se vestir de rosa, ops, de Emília. Não há bullying nem reprovação.

Pode o humor ajudar a furar a bolha da aceitação às diferenças e ao amor LGBT?

Paulo Gustavo diz ao HuffPost que tem recebido muitas mensagens emocionadas como esta: “esse filme é tão importante neste momento que a gente tá vivendo agora; você fazer um filme falando de casamento gay, você sendo gay mostrando sua vida pessoal, seus filhos, seu marido, neste País tão homofóbico e racista, e você com esse tema arrastar tanta gente pro cinema”.

É uma vitória, sem dúvida. É uma evolução.

Mas, ainda assim, o tribunal da internet condena. E transformou Paulo, por alguns dias, num homofóbico sumário.

Em setembro passado, logo depois da censura do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), a um quadrinho com beijo gay na Bienal do Livro da capital fluminense, foi noticiado que o ator teria vetado também uma cena de beijo entre dois homens no filme que ainda estava para ser lançado. 

“Fui atacado por pessoas que não tinham visto meu filme. Me chamaram de homofóbico, de ‘chaveirinho de hétero’, ‘bixa cancelada’. Muita gente raivosa me atacando”, relembra o ator. “Do mesmo jeito que a gente é aplaudida, a gente também toma os nossos tomates na mesma intensidade.”

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Os amados filhos de Dona Hermínia: Juliano e Marcelina.

Curiosamente, quem assiste ao filme — mesmo aqueles como eu, que defenderam ardorosamente o beijo gay em novela global no horário nobre (e até cenas de sexo gay) — não sente falta de um beijo.

Minha Mãe É Uma Peça 3 gira em torno de um casamento gay. A mãe relembra seus entraves internos com o filho mais sensível. Décadas depois, faz um belo discurso em prol da aceitação das diferenças. Tantas emoções recheadas de muita gargalhada e frases celebrando o amor LGBT. 

“Foi injusto eu, que sou uma bandeira ambulante, ser tachado de homofóbico. Vou fazer o quê? Enfim, passou... O filme está aí e é a resposta para tudo”, desabafa Paulo Gustavo ao HuffPost.

E ele tem razão. Assistiram ao filme 9,3 milhões de brasileiros, segundo os últimos números da Rentrak Comscore. A comédia brasileira mais vista da atualidade. A maior arrecadação de um filme brasileiro da História — mais de R$ 147 milhões.

Sim, é a trama de uma mãe e o casamento de seu filho gay liderando as bilheterias de um País que, sabemos, sempre foi muito preconceituoso.

E todos os que estão ali ao meu lado, na sala de cinema, só torcem por um final feliz de Juliano, Thiago, Dona Hermínia, Marcelina.

Entre uma risada e outra, aplaudem o ator Paulo Gustavo.

E aprendem a respeitar as diferentes formas de amar — e de ser.

Sim, é mesmo um filme transformador!

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