ENTRETENIMENTO
27/08/2019 03:00 -03 | Atualizado 27/08/2019 03:00 -03

O verdadeiro Mindhunter conta como é ficar cara a cara com serial killers

Conversamos com o ex-agente do FBI John Douglas, que inspirou a aclamada série da Netflix.

John Edward Douglas é um senhor de 74 anos calmo e bom de papo. O tipo de pessoa com quem você trocaria algumas palavras em uma fila no caixa do supermercado ou em uma mesa compartilhada em uma praça de alimentação de um shopping center qualquer.

Porém, quem não conhece sua história nunca acreditaria que Douglas, um dos mais notórios ex-agentes do FBI, passou boa parte de sua vida ficando cara a cara com alguns dos assassinos mais temidos dos Estados Unidos, como Charles Manson, Ted Bundy, Dennis Raider, Jeffrey Dahmer, entre (muitos) outros.  

Fonte de inspiração para o o agente Holden Ford, protagonista da aclamada série da Netflix Mindhunter, Douglas foi um dos responsáveis por uma forma distinta e revolucionária de analisar o comportamento de assassinos, ao traçar perfis psicológicos que ajudariam o FBI a capturar diversos criminosos que ficariam conhecidos como serial killers. O termo foi cunhado por ele e seu antigo parceiro, Robert Ressler, ainda na década de 1970. 

Autor do livro De frente com o Serial Killer - Novos Casos de Mindhunter, co-escrito com o documentarista Mark Olshakerque foi recentemente lançado no Brasil pela editora Harper Collins, Douglas conversou com exclusividade com o HuffPost. Ele falou sobre sua nova obra, dos encontros com os serial killers e o quanto isso o afetava pessoalmente. Também deu sua opinião sobre a série e como ela retrata o seu trabalho.

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Mark Olshaker e John Douglas, autores de De frente com o Serial Killer - Novos Casos de Mindhunter.

HuffPost: Você já entrevistou serial killers famosos como Ted Bundy, Charles Manson, David Berkowitz e Dennis Rader, só para citar alguns. Por que neste livro você escolheu os casos de Joseph McGowan, Joseph Kondro, Donald Harvey e Todd Kohlhep? Não são nomes que têm o mesmo impacto que Bundy ou Manson, por exemplo...

John Douglas: Com base na reação à primeira temporada de Mindhunter na Netflix, que retrata o processo de entrevista na prisão, bem como o interesse de nossos leitores, pensamos que era hora de mergulhar profundamente no processo de entrevista e mostrar como ser capaz de correlacionar o que estava acontecendo na mente do infrator antes, durante e depois do crime, com as evidências na cena do crime, poderia levar a um perfil eficaz e estratégias de investigação proativas. E enquanto mencionamos os casos conhecidos e o que foi aprendido deles, queríamos focar em quatro assassinos predadores, distintamente diferentes um do outro.

Aliás, esse contraste é bem interessante em De Frente com o Serial Killer. Por um lado você tem o caso de McGowan, que matou uma pessoa, mas de forma brutal, e Donald Harvey, que pode ter matado até 100 pessoas, mas seus métodos não eram “violentos”. Há uma diferença entre McGowan e Harvey? 

Há certamente uma diferença entre os dois. McGowan nunca teria se tornado um assassino desapaixonado e quase natural como Harvey era. Ambos manifestaram a vontade de manipulação, dominação e controle, mas por causa das diferenças em suas personalidades e suas reações às suas próprias circunstâncias e como as pessoas os tratavam, seus meios e motivos de morte eram diferentes.

Quando você conversou com McGowan, você diz que assim que tocou no assunto do assassinato de Joan D’Alessandro, até a aparência dele mudou. Como se tivesse ocorrido literalmente uma mudança física. É isso mesmo? Esse tipo de “metamorfose” é recorrente em predadores como McGowan? Como você descreveria esse fenômeno?

Cada indivíduo é diferente, mas o objetivo, através da preparação meticulosa no caso de conhecimento, experiência e gastar a quantidade adequada de tempo com o entrevistado é levá-lo a reviver a experiência à sua frente e voltar a essa mentalidade específica. No caso de Joseph McGowan, isso significava suar e ter uma tensão corporal como ele deve ter experimentado na época.

Estamos muito satisfeitos com a série e com a maneira como [o diretor] David Fincher, sua equipe e os atores [da série] respeitaram o espírito e a mensagem do livro.

Como você diz em seu livro, Ed Kemper acabou se tornando muito importante para a sua pesquisa. O que você aprendeu com Kemper?

Kemper era muito mais esperto do que a maioria dos serial killers, mais introspectivo e mais capaz de articular o que estava sentindo. Portanto, ele foi capaz de dar mais informações sobre seus meios e motivações, bem como sua reação à sua própria família disfuncional. Além disso, ele era extremamente raro na medida em que ele era o único serial killer que se entregou. Ele o fez depois de matar e humilhar sua mãe post-mortem. Ela era o objeto de seu ódio e desprezo.

Seu trabalho sofreu muita resistência no começo? Agentes mais velhos viam sua pesquisa como algo irrelevante? Qual foi o primeiro caso em que você e sua equipe puderam mostrar resultados concretos baseados nas entrevistas com assassinos como Kemper? 

Inicialmente houve resistência dentro da divisão de treinamento porque deveríamos estar ensinando e eu estava transformando uma parte da divisão de treinamento em uma unidade operacional, e a sede do FBI era quem tinha esse papel. O diretor assistente da divisão de treinamento não era um apoiador. Quando ele se aposentou, um jovem diretor-assistente entrou, que me conhecia desde os meus dias como agente nas ruas e no escritório de Milwaukee, e sempre foi um grande apoiador. Sempre havia um grupo muito pequeno de agentes que, por qualquer motivo, queriam que eu falhasse porque eu estava recebendo muitos recursos, tanto dinheiro quanto pessoal. O caso do Assassino de Crianças de Atlanta, conhecido como ATKID dentro do FBI, colocou perfis criminais no mapa nacional e internacionalmente.

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Holden Ford (Jonathan Groff) entrevista o serial killer Jerry Brudos (Happy Anderson), conhecido como "Assassino do Fetiche de Sapatos" ou "Assassino da Luxúria", em cena da 1ª temporada de Mindhunter.

Em Mindhunter, Holden Ford acaba ultrapassando alguns limites e criando uma certa empatia por alguns dos assassinos que entrevista. Mas isso acaba afetando-o profundamente. É claro que Holden Ford é apenas um personagem baseado em você, mas o ambiente que você criava para que esses assassinos falassem com você de uma maneira franca sobre os crimes que cometeram e discutissem seus motivos era algo que te afetava também? Descer tão fundo na psiquê de pessoas capazes de tamanhas atrocidades cobra seu preço? 

Para tirar o máximo proveito de uma entrevista, você tem que parecer não-crítico, até empático, mesmo que você sinta exatamente o contrário. Estar na presença desse tipo de crueldade e mal definitivamente tem um efeito, particularmente desde que você tem que se colocar na mente das vítimas também e sentir o que elas estavam sentindo. Sim, isso o expõe ao lado mais horrível da vida, mas faz você apreciar a beleza da vida e o heroísmo das pessoas comuns. Tudo o que fazemos é, em última análise, para as vítimas.

O que era notável em entrevistar Dennis Rader [O Assassino BTK] era o quão banal e comum ele era, apesar dos assassinatos horríveis e sádicos que ele havia cometido.

Como você se sente ao ver Mindhunter? A série é precisa no retrato de seu trabalho?

Desde o início, entendemos que os personagens dos agentes e investigadores do FBI seriam ficcionados por causa do drama, mesmo baseados em mim [John Douglas], Robert Ressler e Ann Burgess. Nós também entendemos que os criminosos seriam retratados com precisão e sob seus nomes reais. Estamos muito satisfeitos com a série e com a maneira como David Fincher, sua equipe e os atores respeitaram o espírito e a mensagem do livro, permanecendo fiéis ao que consideramos serem os aspectos importantes desses casos e desse trabalho. Assistir à série e ler nossos livros são duas experiências distintas, mas nós definitivamente sentimos que eles melhoram um ao outro.

Na segunda temporada de Mindhunter, dois casos ganharam mais destaque: o do Assassino de Crianças de Atlanta e BTK. Qual foi a sua participação real nesses dois casos? Você chegou a entrevistar Wayne Williams? E Dennis Rader? O que poderia nos contar sobre o encontro com ele?

O Assassino de Crianças de Atlanta foi um dos casos que colocaram o programa de perfis comportamentais do FBI no mapa da aplicação da lei. Quando eu [John] e o agente especial Roy Hazelwood fomos a Atlanta, ela já era uma cidade sitiada. A presunção era que uma organização de ódio do tipo da Ku Klux Klan estava matando essas crianças afro-americanas. Mas, quando Roy e eu examinamos os arquivos do caso, analisamos os locais dos sequestros e despejos de corpos, ficou claro para nós, através de nossa própria pesquisa e experiência, que não se tratava de um terrorista doméstico, mas de um homem afro-americano solitário. Nem todo mundo foi receptivo a essa análise. Quando percebemos que esse assassino desconhecido estava seguindo a cobertura da mídia, fomos capazes de desenvolver técnicas proativas para tentar pegá-lo. Um dessas estratégias era tentar antecipar onde ele iria despejar corpos. E foi dessa forma como ele foi finalmente pego. Tendo dito isso, no entanto, também deixamos muito claro para a força-tarefa de Atlanta que não acreditávamos que Wayne Williams tivesse cometido todos os assassinatos.

O que era notável em entrevistar Dennis Rader era o quão banal e comum ele era, apesar dos assassinatos horríveis e sádicos que ele havia cometido. Ele era um ninguém na vida real que teria gostado de ter sido um oficial da lei pelo poder e prestígio que teria proporcionado a ele, mas ele não era bom o suficiente para isso. No entanto, apesar desse exterior banal e da vida normal de homem casado e com filhos que ele vivia, ele estava pensando em fantasias sádicas o tempo todo. Elas eram a coisa mais importante em sua vida.

Mesmo que ele não pudesse revelar sua identidade, ele não resistia e promovia sua própria imagem à mídia e à polícia. Foi isso que levou à sua queda. E mesmo que ele nunca saia da prisão para machucar mais ninguém, não há dúvida em minha mente que ele passa muito do seu tempo fantasiando e revivendo suas torturas e assassinatos. O que também foi fascinante sobre esse indivíduo comum de uma perspectiva investigativa foi descobrir por que havia grandes lacunas de tempo entre alguns de seus assassinatos. Isso nos deu muitas informações que serão úteis em futuras investigações.

Qual foi a entrevista que mais te marcou profissionalmente e pessoalmente? De tantos serial killers, famosos ou não, qual é o que até hoje causa um frio na espinha só de pensar nele?

Lawrence Bittaker, também conhecido como “Alicate Bittaker”, estuprou e matou adolescentes depois de cumprir pena de prisão por estupro. Ele e Roy Lewis Norris, seu colega de cela nos anos em que ficou preso, registravam os estupros e as torturas desses jovens que eles sequestraram. Eles ficaram conhecidos como os “Assassinos da Caixa de Bonecas”.

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Dos casos que já li sobre entrevistas que você fez, o mais aterrorizante, pelo menos para mim, foi o de Gary Heidnik [que inspirou o serial killer ficcional Buffalo Bill, de O Silêncio dos Inocentes] . Poderia nos contar como foi sua experiência com Heidnik?

Gary Heidnick acreditava que ele tratava muito bem suas vítimas, embora as colocasse em um buraco que ele cavava em seu porão e depois de enchê-los com água, passava uma corrente elétrica através da água como uma forma de tortura. Ele explicou isso exibindo pouca ou nenhuma emoção. A única vez que ele expressou agitação foi quando nós falamos sobre seu relacionamento com sua mãe. Ele começou a chorar e arrancou o microfone de sua camisa. Ele amava e odiava sua mãe.

Falando nisso... A figura da “mãe dominadora” parece ser um dos maiores denominadores comuns entre os serial killers. É correto dizer isso? De todas as muitas entrevistas que você fez, quais são os cinco aspectos mais presentes nos relatos desse tipo de assassino?

Nem sempre é uma mãe dominadora, mas geralmente é um abuso psicológico ou físico e em muitos casos, negligência e abandono. Na infância dessas pessoas é comum vermos casos de crueldade animal, que é um fator importante na previsão de comportamento violento futuro. Os criminosos que estudamos foram vítimas de bullying na escola ou foram o valentão. Também vemos relações interpessoais ruins com os outros e baixo desempenho em diversas atividades. Eles são geralmente narcisistas, mas esse narcisismo é uma fachada para sentimentos profundos de inadequação e inferioridade.

Felizmente, não há Hannibal Lecters na vida real.

Baseado em sua experiência, o quanto esse tipo de assassino tem de inato, que faz parte de sua natureza, e o quanto é construído no ambiente em que ele cresceu para que ele se torne em um serial killer?

A questão da natureza versus criação é um dos principais temas de De Frente com o Serial Killer, e podemos ver como ele funciona em cada caso individual. No geral, diríamos que todos esses fatores juntos em várias proporções é que criam um serial killer. Raramente encontramos um predador que não é uma combinação de genética, educação, experiência de vida e influências sociais.

Você não acha que, por mais fascinante que sejam, filmes e séries sobre serial killers não acabam romantizando a figura deles? A própria Netflix manifestou seu repúdio quando muitas mulheres jovens estavam comentando dizendo o quanto tinham achado Ted Bundy interessante e até sexy no lançamento do documentário Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes...  

Há sempre o risco de que as obras ficcionais - seja nos livros ou na tela - romantizem os serial killers. Temos o cuidado de nunca fazer isso. Ted Bundy era bonito e superficialmente charmoso, uma das técnicas usadas para atrair suas vítimas. Mas o “sexy” rapidamente dá lugar ao mal com esses personagens. As vítimas, suas famílias e os investigadores e advogados que trabalham em seu nome são os verdadeiros heróis. E felizmente, não há Hannibal Lecters na vida real.