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15/08/2020 04:30 -03

Em seu 1º mês, ministro da Educação dispensa olavistas, mas não convence sobre guinada no MEC

'Pode ser que haja diminuição do nível de atrito, mas pode ser também que eles toquem a agenda da guerra cultural de maneira discreta', diz deputado da frente parlamentar de educação.

Isac Nóbrega / Presidência da República
Avaliação é de que o pastor Milton Ribeiro "não tem a mesma disposição que Weintraub para polêmicas".

Quando assumiu o Ministério da Educação (MEC), há um mês, o pastor Milton Ribeiro prometeu diálogo com educadores e o respeito aos “valores constitucionais da laicidade do Estado e do ensino público”. Nos seus primeiros dias à frente da pasta, o quarto ministro da Educação do governo Bolsonaro tirou nomes ligados à ala ideológica representada pelo antecessor Abraham Weintraub, mas o movimento e as palavras de Ribeiro não foram suficientes para convencer quem acompanha o tema de que o ministério caminha para uma efetiva mudança de rumo.

Integrante da Frente Parlamentar Mista da Educação na Câmara, o deputado federal Professor Israel Batista (PV-DF) diz ver com “cautela” o início do mandato de Ribeiro. “Parece que ele não tem a mesma disposição que Weintraub para polêmicas e pode ser que haja diminuição do nível de atrito, mas pode ser também que eles toquem a agenda da guerra cultural de maneira discreta. Weintraub atraía muita oposição”, pondera.

Ainda em julho, o novo ministro exonerou o assessor Sérgio Sant’Ana, seguidor do guru Olavo de Carvalho. Há 10 dias, demitiu Ilona Becskeházy, apoiada por olavistas, da Secretaria de Educação Básica (SEB). Ribeiro a substituiu por Izabel Lima Pessoa, servidora de carreira da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão que faz parte do MEC.

“Convidei para assumir a SEB do MEC a professora doutora Izabel Lima Pessoa (...). Ela aceitou e será a mais nova componente da nova equipe do MEC. Por oportuno, registro em nome do MEC gratidão à professora Ilona Becskeházy pelo seu trabalho nesses últimos 8 meses”, escreveu o ministro no Twitter. Nos bastidores, porém, a informação é de que ele considerava a secretária muito “radical”.

Becskeházy, que é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), não chegou a completar quatro meses no cargo. Ela assumiu em substituição a Jânio Macedo, que se demitiu em abril deste ano por problemas com Weintraub e sua agenda ideológica.

A decisão de Ribeiro de manter, contudo, Carlos Nadalim na Secretaria de Alfabetização levanta suspeitas quanto à sua verdadeira disposição em pautar as políticas do MEC de maneira mais técnica que ideológica. Aluno de Olavo de Carvalho, Nadalim está no cargo desde a gestão de Ricardo Vélez Rodríguez e foi convidado por Ribeiro a permanecer onde estava, mantendo o olavismo em um cargo estratégico.

Nesta sexta-feira (15), Ribeiro esteve ao lado de Bolsonaro na inauguração de uma escola cívico-militar – uma das principais bandeiras do presidente na educação – no Rio. A meta de Bolsonaro é implementar o modelo em 216 escolas em todas as unidades da federação até 2023.

Ministério ‘menos armado’

Relatora na Câmara dos Deputados, da PEC (Proposta de Emenda à Constituição)) que tornou permanente o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), a deputada federal Dorinha Seabra (DEM-TO) diz que, embora não tenha visto muita ação do novo ministro, percebeu nele maior “disponibilidade e cordialidade” no trato com entidades e com o Congresso Nacional.

“O ministério está menos armado. Weintraub parece que tinha um desejo de enfrentamento constante com a educação. A própria equipe se sente mais à vontade tratando, porque quando você tem um ministro que não quer dialogar, os servidores ficam constrangidos e sem autonomia”, afirmou ao HuffPost.

Ela, no entanto, diz que é preciso agilidade. “Ele está tomando pé da situação, mas o problema é que não temos esse tempo. Estamos vendo, por exemplo, a tentativa de estados e municípios retornarem às aulas, e eles precisam ter um atendimento técnico de que tipo de política precisa ser adotada. Não temos tempo para esperar.”

A retomada das aulas em todo o país em meio à pandemia do novo coronavírus é apenas um dos problemas que Ribeiro precisará resolver. Ele também vai precisar organizar a próxima edição do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que já foi afetada pela pandemia de covid-19, tocar programas que ficaram paralisados na pasta, e fazê-la funcionar para além dos embates retóricos sobre pautas ideológicas.

Além da herança complicada deixada por Weintraub e de não possuir experiência em gestão pública, Ribeiro ainda teve mais um obstáculo nesses 30 primeiros dias: foi diagnosticado com covid-19, o que o afastou de trabalhos presenciais por um período.

Até o início da semana, um dos principais interlocutores dos estados com o ministério, a presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Cecília Motta, não havia tido contato com o novo ministro. 

NurPhoto via Getty Images
"Weintraub parece que tinha um desejo de enfrentamento constante com a educação. A própria equipe se sente mais à vontade [com Ribeiro]", disse a deputada federal Dorinha Seabra (DEM-TO).

Pastor, ex-vice-reitor, teólogo e ministro

Assim que Ribeiro foi anunciado para o cargo, um alerta se acendeu, especialmente por sua ligação com o setor religioso, que tem uma agenda ideológica própria para a educação. Ex-vice-reitor do Mackenzie, onde fez mestrado, e doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), o novo ministro é pastor da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração de Santos (SP).

Foi justamente o perfil conservador e religioso que tornou Ribeiro um dos cotados na briga pelo MEC. Apesar da ligação com a igreja, contudo, lideranças evangélicas como o deputado federal Marco Feliciano (Republicanos-SP) e o pastor Silas Malafaia fizeram questão de dizer que não o tinham indicado. Ao tomar posse, Ribeiro ressaltou que, “conquanto tenha a formação religiosa”, manterá seu compromisso com “a laicidade do estado e do ensino público”.

“Sei da responsabilidade da missão. A educação transforma vidas, transforma uma nação. É hora de um verdadeiro pacto nacional pela qualidade da educação em todos os níveis. Precisamos de todos: da classe política, academia, estudantes, suas famílias e da sociedade em geral. Esse ideal deve nos unir”, disse, na sua posse.

Apesar do discurso, seu histórico de declarações não segue a mesma linha. Ribeiro já defendeu que o homem é “o cabeça do lar” e que cabe a ele “impor a direção” de uma família.

Quando o nome de Ribeiro começou a aparecer no noticiário, também ressurgiu uma fala sua de 2016 em que ele dizia que não é possível educar crianças “por meios justos e métodos suaves”. “A correção é necessária para a cura. Não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Talvez uma porcentagem aí muito pequena de criança precoce, superdotada, é que vai entender o seu argumento. Deve haver rigor, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir dor”, disse. Após a polêmica, o vídeo foi excluído do YouTube e ele negou ter defendido a violência física na educação.

Nos moldes das críticas genéricas de seu antecessor, Ribeiro também já disse, em um culto em 2018, que a “linha existencialista” de universidades incentivaria a “prática sem limites do sexo”.

No seu pouco tempo de gestão, o ministro que assumiu prometendo “incrementar a pesquisa científica”, já ingressou voluntariamente em uma polêmica da área. Infectado pelo novo coronavírus, fez questão de ir às redes sociais afirmar ter sido tratado com “hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e vitamina D”, citando medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19 e que são defendidos por Bolsonaro e seus apoiadores. “Agora, cada dia melhor”, completou.