COMPORTAMENTO
30/04/2019 07:25 -03

A startup americana que vende sangue de millennials como 'cura milagrosa'

Jesse Karmazin afirma que consegue combater o envelhecimento. Muita gente quer acreditar e investe nisso.

EMMANUEL POLANCO PARA O HUFFPOST

Jesse Karmazin, 34 anos, é fundador da startup Ambrosia e vende um serviço quase irresistível: ele afirma que é capaz de ajudar a combater o envelhecimento por meio de infusões de plasma sanguíneo.

Doadores de sangue adolescentes, um estudo que aparentava ser sério, um custo de US$ 8.000 por pessoa e o boato de que o empresário Peter Thiel poderia estar interessado no tratamento – tudo isso levou com que a Ambrosia fosse mencionada na imprensa americana por pelo menos 100 vezes nos últimos dois anos.

Em entrevista aos jornalistas, Karmazin explicou que os potenciais do plasma sanguíneo dos mais jovens são surpreendentes. Basta uma infusão “para melhorar dramaticamente a aparência, memória e força física de uma pessoa”, ele disse. Em outra entrevista, afirmou que “quero deixar claro: neste ponto, o método funciona. Ele reverte o envelhecimento.” E ele disse a um terceiro jornalista: “Não estou afirmando que [este método] vai garantir a imortalidade, mas acho que chega bem perto disso”, acrescentando: “É como uma cirurgia plástica de dentro para fora”.

A publicidade gratuita ajudou a Ambrosia a atrair clientes. Karmazin disse ao HuffPost que 104 pessoas já pagaram para receber plasma de doadores na faixa dos 16 aos 25 anos, e aceitaram fazer parte do estudo da empresa, que é financiado pelos próprios participantes.

Porém, apesar de ter declarado o estudo um sucesso e anunciado planos para aceitar novos clientes, Karmazin nunca chegou a mostrar qualquer prova de que as transfusões ajudam as pessoas de verdade.

Na mídia, ele anunciou resultados impressionantes, mas quase um ano após a conclusão oficial do estudo, em janeiro de 2018, ele ainda não divulgou nenhum dos resultados.

Cientistas criticaram o experimento, dizendo que contém falhas, e disseram que o procedimento é medicamente desnecessário e que não é destituído de riscos. Em casos raros, disseram, as complicações decorrentes de transfusões de sangue podem ser até mesmo fatais.

Um dos médicos contratados por Karmazin para liderar a pesquisa havia sofrido medidas disciplinares por parte de um conselho médico estadual, por conduta antiprofissional.

O próprio Karmazin não é legalmente autorizado a praticar medicina em nenhum estado americano, sendo que no Massachusetts ele é explicitamente proibido.

O presidente da Ambrosia deixou a empresa no final de dezembro, o que tornou Karmazin o único funcionário do negócio.

E o único paciente que falou publicamente sobre as transfusões – tratamentos que ele esperava que o ajudassem a chegar à velhice com mais saúde – morreu aos 65 anos após sofrer uma parada cardíaca.

Karmazin não pôde dar informações sobre os seus clientes, mas afirmou que não ocorreram mortes relacionadas ao tratamento durante ou após o teste das transfusões.

As pessoas poderiam literalmente gastar todas as suas economias em um tratamento que não tem nada comprovado.Phuoc Le, médico

Após investigação, o HuffPost descobriu que pelo menos parte do plasma de jovens que são usados por Karmazin vieram de um banco de sangue sem fins lucrativos do Texas que recrutava doadores adolescentes para “salvar vidas”, mas anotava no formulário de consentimento que os componentes de seu sangue também poderiam ser usados “para qualquer outra finalidade médica”.

Segundo um e-mail de um funcionário, depois de ser contatado pelo HuffPost o banco decidiu repentinamente parar de vender o plasma.

A Ambrosia, que se negou a informar se a empresa tem investidores, é apenas uma entre muitas empresas que pesquisam meios de ajudar as pessoas a se sentirem jovens por mais tempo.

Mas sua capacidade de atrair clientes e os anos de cobertura positiva na imprensa – sem fornecer dados científicos para fundamentar o que defende a empresa – mostra com que facilidade meras promessas podem sobrepor o que diz as pesquisas quando o medo que os americanos têm da morte se alia à busca por dinheiro que é tão típica do Vale do Silício.

“É fácil imaginar uma situação em que uma pessoa que está vulnerável e que não é rica, não tem boa saúde e talvez esteja desesperada pode sentir que não outra opção senão gastar esse dinheiro”, falou o médico Phuoc Le, especialista em saúde que leciona na Universidade da Califórnia em San Francisco.

“As pessoas podem literalmente gastar todas as economias de suas vidas com um tratamento que não é comprovado”, explicou.

 

Quem é o doutor Karmazin

Karmazin nasceu em Palm Beach Gardens, na Flórida, e estudou na Universidade Princeton.

Ele estudou na Escola Stanford de Medicina e participou de laboratórios que tinham como foco a pesquisa em longevidade e a biologia das células-tronco.

Sua experiência como atleta – e da perda de desempenho atlético depois dos 30 anos – influenciou seu desejo de trabalhar com o envelhecimento como se o passar dos anos e as suas consequências fosse uma condição tratável.

Depois de se formar, em 2014, Karmazin iniciou uma residência médica no Hospital Brigham and Women’s, em Boston, com o plano de se especializar em psiquiatria.

Mas, conforme seu relato, não gostou da carga horária pesada de trabalho e sentiu que a residência não lhe deixava tempo para dedicar a seus outros interesses, as transfusões sanguíneas e o envelhecimento, além da clínica geral, por isso abandonou a residência médica em 2016 para fundar a Ambrosia.

Esta história contém um asterisco: no dia 29 de fevereiro de 2016, Karmazin e seu advogado firmaram um acordo voluntário com autoridades do Massachusetts pelo qual ele prometeu deixar imediatamente de praticar medicina no estado.

Karmazin disse ao HuffPost que assinou o documento porque deixara a residência médica antes do final, e que fazer isso era uma opção “bastante rotineira”. 

Até então, Karmazin estava exercendo a medicina sob uma licença limitada. Mas esse tipo de licença perde valor automaticamente se um médico abandona um programa de residência por qualquer motivo, segundo George Zachos, diretor executivo do Conselho de Registro em Medicina do Massachusetts.

Segundo Zachos, o conselho normalmente não firma um acordo desse tipo com um médico somente por ele ter abandonado a residência antes da conclusão. Esse tipo de acordo é usado para proteger a segurança de pacientes. Apenas 12 médicos no Massachusetts firmaram acordos semelhantes no ano passado.

A revisão realizada pelo conselho é confidencial, mas um representante do conselho destacou que as circunstâncias que levaram ao acordo não guardam relação com o trabalho de Karmazin com a Ambrosia ou com o xVitality Sciences, um projeto distinto de “rejuvenescimento” em que ele também trabalhou.

Karmazin, que se apresenta como “Dr. Karmazin”, seguiu adiante com a Ambrosia depois de firmar o acordo. Disse que teve a ideia das transfusões de plasma após ler vários estudos realizados em camundongos jovens e velhos.

Em alguns casos os camundongos mais velhos ficavam temporariamente mais fortes e exibiam pequenas melhoras em sua saúde. Karmazin pensou que esses resultados poderiam ser reproduzidos em humanos.

Talvez o sangue mais jovem contenha fontes secretas de rejuvenescimento humano, mas não há evidências científicas disso.Irina Conboy, pesquisadora que estuda o envelhecimento e rejuvenescimento

Cientistas questionaram a interpretação que Karmazin fez dos dados obtidos com os testes em camundongos.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que realizaram testes similares observaram pequenas modificações positivas nos músculos, no fígado e cérebro dos animais mais velhos. Mas a descoberta mais importante foi o declínio importante na saúde dos animais mais jovens. No caso dos animais mais velhos, o sangue novo foi em grande medida diluído pelo sangue velho.

“Houve muito mais efeito negativo do sangue velho do que efeito positivo do sangue jovem”, disse Irina Conboy, cientista de Berkeley que estuda o envelhecimento e o rejuvenescimento.

Ela comparou as transfusões de sangue jovem com pegar uma penca de bananas podres e jogar uma banana boa por cima. “Talvez o sangue jovem contenha fontes secretas de rejuvenescimento”, ela disse. “Mas não existem evidências científicas disso.”

Mas, mesmo com as críticas, Karmazin foi adiante com seu projeto. No verão de 2016, ele anunciou que cobraria US$ 8.000 de pessoas com 35 anos ou mais por cerca de 2 litros de plasma jovem, como parte do que descreveu como um “ensaio clínico”.

Ele não sentiu a necessidade de passar pelo processo de aprovação de medicamentos pela Food and Drug Administration (FDA, a agência americana responsável pelo controle de alimentos e medicamentos), considerando que transfusões de plasma já eram um procedimento de valor comprovado.

Geralmente, porém, são usados para tratar pacientes com problemas específicos de saúde. Não são realizados para potencialmente fazer pacientes se sentirem mais jovens.

O ensaio clínico promovido pela Ambrosia deslanchou uma cobertura ampla de imprensa que também funcionou como publicidade gratuita e que, em alguns casos, sugeriu incorretamente que as pessoas estariam bebendo sangue de jovens.

Mas o que realmente intensificou as discussões sobre a Ambrosia foi a divulgação de que o bilionário empreendedor de tecnologia Peter Thiel estaria interessado no procedimento.

Em 2016, Karmazin disse a um repórter da revista Inc. que Jason Camm, o executivo chefe da Thiel Capital, o procurara para expressar interesse na Ambrosia. Não ficou claro se Camm fez o contato em nome de Thiel nem até onde foi o suposto contato. Mas a história desencadou uma onda de insinuações comparando Thiel a um vampiro.

Mais tarde, em entrevista à TechCrunch, Karmazin negou completamente ter tido contato com qualquer pessoa da Thiel Capital.

Camm e a Thiel Capital não responderam a pedidos de declarações. Em novembro, na conferência New York Times DealBook, Peter Thiel disse: “Que fique claro: não sou vampiro”. Ele disse também que nunca levou injeções de sangue de pessoas mais jovens.

Karmazin reiterou ao HuffPost que não mantém qualquer contato com Thiel. Perguntado por que seu relato parece ter mudado, Karmazin se negou várias vezes a responder. 

 

O doce plasma de 16 aninhos  

Para lançar seu estudo, Karmazin precisava de plasma (a parte líquida do sangue) de jovens. Precisava de muito plasma. A Ambrosia realizou mais de 150 transfusões de cerca de dois litros cada (alguns clientes teriam voltado para fazer vários tratamentos), segundo Karmazin.

Teriam sido necessários pelo menos 300 litros de plasma jovem – doações no valor de centenas de dólares. Mas havia um problema: os bancos de sangue não costumam separar o plasma por idade e vendê-lo para finalidades de rejuvenescimento. A missão primária deles é fornecer sangue doado a pacientes hospitalares, para salvar vidas.

Quando os bancos de sangue têm plasma excedente, geralmente o entregam a empresas diferentes, para ser usado na fabricação de produtos para o tratamento de condições médicas graves, como hemofilia. A informação é da entidade sem fins lucrativos AABB, que credencia bancos de sangue.

Não foi fácil encontrar um banco de sangue disposto a fornecer o volume inicial de plasma necessário para a finalidade de Karmazin. Este contou que entrou em contato com cerca de 20 bancos de sangue. “Levamos algum tempo para encontrar o parceiro certo”, ele comentou.

Havia interesse, ele disse, mas os bancos não contavam com um processo já existente para lhe conseguir o plasma do qual ele precisava. O HuffPost entrou em contato com mais de uma dúzia de bancos de sangue americanos. Muitos deles citaram preocupações éticas e levantaram dúvidas quanto ao estudo da Ambrosia.

O diretor médico e científica da Vitalant, entidade sem fins lucrativos que distribui sangue para mais de mil hospitais americanos, disse ao HuffPost que sua liderança contatou todos seus centros de doação depois de ouvir sobre o projeto da Ambrosia para confirmar que nenhum deles tinha cooperado com a empresa. O estudo da Ambrosia não parecia ser um ensaio clínico legítimo, disse o Dr. Ralph Vassallo. Por isso a Vitalant não deveria vender plasma à startup.

Karmazin disse que ele acabou localizando dois bancos de sangue que se dispuseram a lhe fornecer plasma jovem “excedente” para uso em seu estudo. Karmazin se negou a informar quais eram.

EMMANUEL POLANCO PARA O HUFFPOST

No coração do Texas

Um de seus parceiros no ensaio clínico da Ambrosia foi o Centro de Sangue e Tecido do Sul do Texas (STBTC), uma subsidiária da entidade sem fins lucrativos BioBridge Global, com sede em San Antonio.

O STBTC lamentou a falta “crítica” de sangue e convidou jovens a fazer a doação. A empresa envia ônibus de coleta de sangue para as escolas da região e, em seu site na internet, pergunta aos estudantes: “Vocês estão dispostos a salvar vidas?”

O centro promove um concurso de doações em escolas, intitulado “Geração Doadora”, com prêmios máximos no valor de US$750, e já ofereceu a doadores incentivos como ingressos gratuitos para cinemas e parques de diversão.

Estudantes que acabam de doar seis ou mais produtos sanguíneos “fizeram uma diferença na vida de mais de 18 pacientes hospitalares”, diz o STBTC em seu site. Os estudantes em questão ganham um cordão vermelho especial para usar em sua cerimônia de formatura do ensino médio.

A executiva operacional chefe do STBTC, Elizabeth Waltman, disse em comunicado que a missão principal do banco de sangue é fornecer sangue a cerca de cem hospitais e clínicas.

Mas, acrescentou, “depois de atendidas as necessidades da comunidade, e para garantir que nenhum sangue doado seja desperdiçado, fornecemos sangue onde ele é necessário, incluindo para apoiar pesquisas que promovam o avanço da medicina”.

Segundo Waltman, o estudo da Ambrosia satisfez as exigências do STBTC quanto à utilização de seus componentes sanguíneos em pesquisas médicas.

O STBTC não comentou se vendeu doações de sangue recebidos através do programa Geração Doadora como sendo plasma da juventude. Mas seus formulários de consentimento para doadores de sangue citam claramente que as doações serão usadas para fomentar “finalidades clínicas e de pesquisas”, disse Waltman.

O HuffPost examinou uma cópia do formulário de consentimento do STBTC para estudantes, um texto de 1.200 palavras que requer que os jovens e seus pais reconheçam que o sangue doado poderá ser usado para ajudar pacientes “ou para qualquer outra finalidade médica”. O formulário elogia os estudantes por “darem a dádiva da vida”.

 

O teste clínico

No outono de 2016, Karmazin estava preparado para lançar seu estudo.

A Ambrosia disse aos participantes do ensaio clínico que “dados abundantes” obtidos de estudos com camundongos sugeriam que infusões de plasma jovem poderiam ajudar com o “rejuvenescimento”, mas a empresa disse que não podia garantir resultados específicos aos participantes, como por exemplo que as infusões combateriam alguma doença.

Em vez disso, observou no formulário de consentimento informado que não há “melhorias conhecidas” diretamente relacionadas à infusão de plasma jovem. Na realidade, o formulário continha “uma ausência chocante de explicações detalhadas sobre quais deveriam ser os efeitos reais dessa intervenção”, segundo Alta Charo, professora de direito e bioética na Universidade de Wisconsin-Madison que analisou o formulário da Ambrosia a pedido do HuffPost.

Karmazin contratou médicos para realizar as transfusões de plasma em clínicas em San Francisco, Monterey (Califórnia) e Tampa (Flórida). O médico de Monterey, David Wright, havia sido repreendido publicamente em 2015 pelo Conselho de Medicina da Califórnia por acusações que incluíam negligência grave relacionada ao fato de haver dado a um paciente um diagnóstico infundado de infecção crônica transmitida por carrapato e depois haver recomendado um tratamento sem fundamento médico – uma infusão diária de antibióticos – que provocou efeitos colaterais importantes. No acordo, Wright não admitiu ter cometido erros. Isso não o impediu de continuar a praticar a medicina.

Transfusões de plasma são realizadas rotineiramente a pacientes com determinados problemas de saúde, como pacientes com doenças hepáticas e pacientes que sofreram traumatismos e precisam de transfusões de grande volume. Mas ainda existe risco de complicações, algumas delas muito graves.

Por exemplo, a sobrecarga circulatória associada à transfusão – que pode ocorrer quando uma transfusão é feita rapidamente demais ou em volume excessivo – pode levar à morte.

“Uma transfusão de plasma pode salvar a vida de um paciente com uma necessidade real”, explicou um especialista na área. Mas realizar esse procedimento para a finalidade de combater o envelhecimento “não é científica nem medicamente justificado e expõe o paciente ao risco de efeitos nocivos”.

A então jornalista da revista New ScientistSally Adee viajou a Monterey em 2017 para cobrir o teste clínico da Ambrosia e divulgou que um paciente que veio da Rússia sofreu uma reação anafilática após uma transfusão. Wright ficou “visivelmente abalado” após o incidente, escreveu Adee.

A Ambrosia acabou informando a ocorrência de 4 incidentes adversos durante o teste, segundo Barbara Krutchkoff, diretora executiva do Instituto de Medicina Regenerativa e Celular, uma pequena ONG que abriga um conselho institucional que supervisionou o estudo.

Os incidentes incluíram uma erupção cutânea em março de 2017, sintomas de resfriado e nariz escorrendo em abril, urticária e edema em junho e coceira em dezembro. Todos foram considerados reações alérgicas leves e foram resolvidos, disse Krutchkoff.

Phuoc Le, o médico e especialista em saúde global, disse que a Ambrosia teve sorte por não terem ocorrido mais reações adversas.

“De modo geral, uma pessoa que não precisa de uma transfusão de sangue correria grande risco de todo tipo de problemas, no curto e no longo prazo”, disse Le, que ficou alarmado pelo fato de a Ambrosia dizer que dava cerca de dois litros de plasma aos pacientes ao longo de apenas um a dois dias.

“Uma transfusão de plasma pode salvar a vida de um paciente com uma indicação real”, comentou Robertson Davenport, diretor de medicina transfusiva na Universidade do Michigan. Mas realizar esse procedimento para a finalidade de combater o envelhecimento “não é científica nem medicamente justificado e expõe os pacientes ao risco de efeitos nocivos”, ele acrescentou.

Karmazin e Wright se desentenderam durante o processo dos testes clínicos. Eles discordaram sobre os planos de Karmazin de fazer transfusões de volumes menores de plasma em períodos de tempo mais curtos – algo que Wright considerou arriscado, segundo o artigo da “New Scientist”.

“Apenas tivemos ideias diferentes quanto ao futuro possível deste tratamento”, disse Karmazin ao HuffPost. Wright parou de trabalhar para a Ambrosia antes da conclusão do estudo.

Wright não respondeu a vários telefonemas e e-mails pedindo declarações. Quando o HuffPost enviou um repórter a seu novo consultório em Pacific Grove, sua recepcionista ameaçou chamar a polícia.

 

“Ainda não há dados suficientes”

O teste clínico da Ambrosia terminou formalmente em janeiro de 2018. Foi um grande sucesso, segundo Karmazin; cerca de 1/3 dos participantes voltaram para adquirir tratamentos adicionais, e foram administrados 150 tratamentos ao todo. Segundo Karmazin, algumas pessoas continuavam a receber transfusões ainda em junho de 2018.

Karmazin disse ao jornal canadense National Post que um paciente com mal de Alzheimer precoce mostrou melhoras depois de um tratamento de transfusão. E uma pessoa com 60 anos viu seus cabelos grisalhos voltarem a escurecer.

Ele disse à New Scientist que verificou uma queda de 10% nos níveis de colesterol sanguíneo dos pacientes e disse à Boss Magazine que houve “melhoras realmente dramáticas” nos biomarcadores de inflamação.

[A Ambrosia] parece ser uma empresa com alguém capitalizando em cima do hype do rejuvenescimento e tentando ganhar muito dinheiro com isso.Michael Conboy, pesquisador de envelhecimento e rejuvenescimento

A empresa disse que testa o sangue dos pacientes para verificar os níveis de mais de 100 biomarcadores antes e depois das transfusões, procurando melhorias nos marcadores de envelhecimento e doenças.

O estudo da Ambrosia não contou com um grupo de controle que receberia um placebo. E uma modificação em um biomarcador não constitui necessariamente prova de uma alteração no estado real de saúde, observou Alta Charo, a professora da Universidade de Wisconsin-Madison.

Essas alterações precisam ser relacionadas a “resultados de saúde reais”, o que exige um acompanhamento de longo prazo. Karmazin disse que os pacientes escreveram diários e que alguns deles mais tarde oferecerem informações adicionais sobre sua saúde.

“Não sei até que ponto o ensaio da Ambrosia foi montado como um ensaio clínico legítimo”, disse Michael Conboy, marido e sócio pesquisador de Irina Conboy, a cientista de Berkeley que pesquisa envelhecimento e rejuvenescimento. “Me pareceu que foi montado mais com uma coisa do tipo ‘serviço prestado em troca de um honorário’ e que a parte de ‘estudo’ foi acrescentada para legitimá-lo. Parecia ter começado com alguém capitalizando em cima do hype e tentando ganhar dinheiro.”

E ainda não há dados públicos. Segundo Krutchkoff, Karmazin compartilhou “alguns resultados iniciais com os quais ficou animado” com o conselho institucional que contratara.

Falando ao HuffPost com permissão de Karmazin, Krutchkoff elogiou o profissionalismo de Karmazin e rejeitou críticas ao estudo. “Por mais controverso que tenha sido o estudo, existem coisas muito piores sendo feitas”, ela disse.

Howard Chipman, o médico que a Ambrosia contratou em Tampa, também disse que não teve acesso aos resultados. O HuffPost não conseguiu encontrar nenhum participante que teve.

Tom Casey, CEO da NuPlasma, empresa que vende plasma novo a médicos no Texas – e está fornecendo plasma para outro estudo sobre plasma em Houston – cobrou Karmazin para que ele divulgasse os dados.

“As pessoas que estão criticando você o estão fazendo porque você descreveu isso como ensaio clínico e disse que estava colhendo dados”, ele disse. “Mas ainda não há dados disponíveis.”

 

Os resultados não são garantidos

Karmazin e David Cavalier, o então presidente e executivo operacional chefe da Ambrosia, disseram no início do outono de 2018 que tinham que tomar cuidado para não oferecer garantias quanto aos efeitos do tratamento oferecido pela Ambrosia.

As empresas geralmente precisam conseguir aprovação da FDA antes de poderem afirmar que um medicamento ou produto médico trata, cura ou previne uma doença.

Cavalier destacou que a Ambrosia realizou transfusões em um paciente com doença de Parkinson que relatou melhorias em um tremor, em um paciente com níveis reduzidos de testosterona que em pouco tempo “voltou a apresentar ereções matinais” e em pessoas que relataram melhorias de sintomas de artrite, sono, memória e níveis de energia.

Karmazin disse que algumas das afirmações que a Ambrosia fez à mídia “talvez tenham sido um pouco exageradas”, mas que mesmo assim eram “100% precisas”.

No outono passado Karmazin disse ao HuffPost que interrompeu as transfusões temporariamente para se concentrar em abrir uma clínica em Nova York até o início de 2019.

A Ambrosia precisa obter autorização para realizar transfusões de um componente sanguíneo na cidade, mas, segundo um porta-voz do Departamento de Saúde do Estado de Nova York, até meados de dezembro a empresa ainda não dera entrada em um pedido de autorização.

Karmazin alegou inicialmente que planejava publicar as conclusões do estudo da Ambrosia em um periódico científico com revisão de pares depois de a clínica da Ambrosia ter sido aberta.

No final do ano passado, ele anunciou em seu site na internet que a Ambrosia voltou a marcar tratamentos para pacientes em San Francisco e Tampa. Karmazin disse ao HuffPost que ele chamou de volta dois médicos com quem trabalhou durante o estudo. Ele disse que ainda não enviou dados para uma revisão – um processo que pode levar meses. Disse que estava ansioso por fazê-lo, mas não sabia exatamente quando o faria.

Cavalier deixou a empresa em dezembro de 2018, pouco antes de a Ambrosia anunciar que voltou a oferecer tratamentos. Ele não quis comentar as razões de sua saída, mas destacou em e-mail que passou apenas “um período muito breve” com a empresa. Karmazin se negou a comentar a saída de Cavalier.

E pelo menos um dos bancos de sangue que formaram parceria com a Ambrosia deixou de vender plasma jovem. Pouco depois de o HuffPost contatar o banco de sangue do sul do Texas, em outubro, o banco cessou repentinamente todas suas vendas de produtos de plasma jovens, segundo uma corrente de e-mails de funcionários aos quais o HuffPost teve acesso.

“Tivemos alguns acontecimentos internamente devidos à difusão de notícias negativas na imprensa”, escreveu um funcionário em 22 de outubro. Waltman, a executiva do STBTC, disse ao HuffPost que o banco não vai fornecer plasma à Ambrosia para o lançamento de tratamentos clínicos pela empresa porque isso prejudicaria sua capacidade de suprir as necessidades locais. Ela disse que a investigação do HuffPost não influiu sobre a decisão.

Apesar de toda a cobertura recebida da imprensa, em abril de 2017 a Ambrosia não tinha investidores, segundo Karmazin. Em setembro de 2018 ele disse ao HuffPost que a empresa ainda não tinha levantado recursos. Nesse mesmo mês ele anunciou em sua página no LinkedIn que a empresa estava procurando US$3 milhões para abrir sua primeira clínica. Em novembro Karmazin disse que o post no LinkedIn havia sido removido porque a Ambrosia tinha suscitado “grande interesse”. Mas a empresa se negou a comentar se tinha investidores.

Apesar da insistência de Karmazin em que muitas pessoas estão altamente interessadas no tratamento, enquanto o HuffPost pesquisou esta reportagem a Ambrosia se recusou a colocar o HP em contato com um único paciente. Inicialmente Karmazin disse que os pacientes zelam por sua privacidade e depois que “o centésimo repórter pediu para conversar com elas, as pessoas estavam fartas de responder às mesmas perguntas”. Quando o HuffPost observou que só conseguira localizar um único participante do ensaio clínico que havia falado com a imprensa, Karmazin disse que no início tinha perguntado a cerca de 15 pacientes se concordariam em conversar com jornalistas, mas que todos haviam recusado.

Parece que o único participante do ensaio da Ambrosia que falou com a imprensa foi um homem da Geórgia. Ele disse a um jornal alemão que foi um dos primeiros pacientes da Ambrosia e que possivelmente tivesse recebido “mais plasma sanguíneo que qualquer outra pessoa no mundo”.

Esse homem da Geórgia era “a pessoa que estava mais empolgada com este tratamento”, Karmazin disse ao HuffPost. Ele faleceu depois de sofrer uma parada cardíaca em fevereiro de 2018, aos 65 anos.

O plasma de pessoas jovens não é uma cura milagrosa, disse o homem à New Scientist no ano passado. Mas ele esperava conseguir “mais dez anos de vida com saúde”.

A família dele não respondeu a vários pedidos de declarações sobre as circunstâncias de sua morte, e um médico próximo do seu caso se negou a dar declarações sem a permissão de um membro da família. Karmazin disse que não houve mortes relacionadas ao processo de transfusão durante ou após o tratamento. Não ficou claro quando o homem passou por seu tratamento final com a Ambrosia.

Hoje em dia Karmazin nem sequer se dispõe a admitir publicamente se ele próprio já fez o tratamento que sua empresa oferece. Ele disse em junho de 2017 que não o havia tentado, dizendo que estava esperando até ter “idade suficiente” para isso, aos 35.

Em entrevista separada em dezembro de 2017, quando ainda não completara 35 anos, Karmazin disse que havia feito o tratamento “algumas vezes” e que foi “bastante fenomenal”. Falando ao HuffPost, ele se negou a comentar o assunto, citando preocupações de privacidade.

“Eu não gostaria de confirmar que já fiz o tratamento para as finalidades desta entrevista”, ele disse.

Mesmo assim, disse Karmazin, gastar US$8.000 com uma transfusão de plasma “é uma utilização muito boa dos dólares que as pessoas gastam com saúde”. As pessoas com determinadas doenças “deveriam já estar recebendo o tratamento”, ele opinou. “Queremos tratar o maior número possível de pessoas.”

Em dezembro, Karmazin anunciou que a Ambrosia abaixou o limite de idade de seus pacientes e elevou seus preços. Pessoas de a partir de 30 anos agora podem fazer o tratamento. E dois litros de plasma estão custando US$12 mil.

 

* Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.