POLÍTICA
07/05/2019 08:06 -03 | Atualizado 07/05/2019 08:31 -03

Ataques a ministro Santos Cruz seguem roteiro que envolve Olavo e família Bolsonaro

Ofensiva faz parte de queda de braço entre olavetes e militares, que tentam frear excessos da ala ideológica no governo.

Adriano Machado / Reuters
Ao longo do fim de semana, seguidores de Olavo de Carvalho pediam a troca do ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, pelo filho do presidente, vereador Carlos Bolsonaro.

A mira de Olavo de Carvalho e seus seguidores - inclusive os filhos do presidente Jair Bolsonaro - apontada para o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, abriu mais uma fissura na relação entre bolsonaristas e  militares no governo.

O próprio presidente reconhece que há um impasse. Nesta terça-feira (7), ele escreveu no Twitter que espera que os desentendimentos seja página virada por ambas as partes. 

Na segunda-feira (6), ele já havia tentado minimizar o conflito. Mas, mesmo de que não existem grupos no governo e que todos formam “apenas um time”, há pressão para que se coloque um limite na interferência do guru ideológico.

O grupo de Olavo tem seguido um roteiro de perseguição. O ideólogo reclama do comportamento de alguma autoridade - geralmente militar - e seu exército de seguidores o acompanha com críticas nas redes sociais. As queixas costumam encontrar respaldo e são repercutidas pela família do presidente, que integram a massa olavista, e às vezes até pelo próprio Bolsonaro. Mais uma crise então está criada.

A lista de alvos da trupe inclui desde o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao vice-presidente Hamilton Mourão e à deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP). No fim de semana, foi a vez de Santos Cruz.

Ao HuffPost Brasil, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) que também já foi a vítima da vez condenou a tática: ”é deselegante” e contraproducente atacar “personalidades do governo”.

“A gente já conhece a forma de agir dele. Quando o professor Olavo pega uma coisa para fazer, ele vai até o fim e fica exaurindo o assunto. A gente tem seguidores do Olavo que acreditam piamente em tudo que ele fala e no que ele faz. Existe um problema porque, quando ele fala alguma coisa de alguém, a pessoa é atacada até o último momento enquanto eles [Olavo e seus seguidores] não esquecem do assunto.”

A deputada, que foi perseguida por ter ido à China, é uma das que têm se posicionado contra a artilharia olavete. No fim de semana, ela tuitou que Olavo estava revelando ser “oposição ao governo”. “O sr. não percebe o mal que está fazendo? Não vê que seu egoísmo está passando de todos os limites do bom senso? Não enxerga que seus ataques estão provocando uma rachadura na direita?”, escreveu. 

Ao HuffPost, a aliada do governo disse não estar defendendo pessoalmente o general Santos Cruz. “Estou defendendo o governo desses ataques. Se Bolsonaro quiser trocar Santos Cruz, é uma decisão dele, não é pautada no que Olavo de Carvalho acha ou não acha. Tem que ser uma decisão pautada em resultados do trabalho dele frente à comunicação.”

Desta vez, a perseguição ao general Santos Cruz fez com que o ex-comandante do Exército e atual assessor do Gabinete de Segurança Institucional, general Villas Boas também partisse para cima de Olavo. No Twitter, o general chamou o “guru” de “verdadeiro Trotsky de direita” e disse que, no momento em que o país busca coesão, Olavo age no sentido de acentuar as divergências.

“Mais uma vez o senhor Olavo de Carvalho, a partir de seu vazio existencial, derrama seus ataques aos militares e às Forças Armadas demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia”, disse.

O vice-presidente Hamilton Mourão considerou os ataques “sem nexo”. “Se nós ignorarmos, será muito melhor para todo mundo”, disse. A crítica foi endossada ao HuffPost Brasil pelo general da reserva Paulo Chagas, que considera o guru um “desequilibrado”.

“O presidente montou uma equipe para trabalhar com ele que inclui muitos militares. Mas cabe ao presidente a decisão se eles vão permanecer. Se a presença está tumultuando, o presidente tem que optar entre as pessoas que ele escolheu e as pessoas indicadas por Olavo de Carvalho.”

Os militares também reclamam do fato de o presidente ter concedido a maior honraria do Itamaraty ao guru, que faz constantes críticas à corporação. “O que levou o presidente a condecorar um cidadão que está denegrindo a imagem das Forças Armadas, um camarada que chamou os generais brasileiros de ‘cagões’?”, questiona o general.

Recentemente, Bolsonaro publicou no seu perfil no YouTube um vídeo no qual Olavo faz uma série de ofensas aos militares. Após repercussão negativa, o vídeo foi apagado.  

 

As críticas ao general Santos Cruz

Tudo se resume, basicamente, a uma disputa de poder dentro do governo. Olavistas se incomodam com os freios que os militares têm imposto e partem para os ataques nas redes. 

Com Santos Cruz, o problema se dá, basicamente, por sua atuação na comunicação presidencial, que tenta frear excessos, muitas vezes vindas da própria família Bolsonaro.

Para iniciar o ataque, olavistas voltaram a declarações do general Santos Cruz dadas há mais de um mês - e que nem tinham tido repercussão à época. 

Em entrevista à rádio Jovem Pan no início de abril, o general afirmou que era preciso evitar distorções nas redes sociais. “Tem de ser disciplinado, até a legislação tem de ser aprimorada, e as pessoas de bom senso têm de atuar mais para chamar as pessoas à consciência de que a gente precisa dialogar mais, e não brigar”, disse.

Olavo reagiu um mês depois. “Controlar a internet, Santos Cruz? Controlar a sua boca, seu merda”, escreveu no Twitter no domingo.

Está sob o guarda-chuva da Secretaria de Governo, chefiada por Santos Cruz, a Secretaria de Comunicação da Presidência, responsável pelas redes sociais e verbas para publicidade do governo.

No domingo (5), o presidente afirmou no Twitter que não pretende regulamentar a mídia e sugeriu ”um estágio na Coreia do Norte ou Cuba” para quem pensar o contrário.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, reforçou que sempre “defenderemos a não regulamentação da internet ou da imprensa”.

Ao longo do fim de semana permaneceu entre os assuntos mais comentados do Twitter a hashtag “fora Santos Cruz”. Em meio às críticas, os seguidores de Olavo pediam que fosse nomeado para Secretaria de Governo, no lugar do ministro, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente responsável pelo comando das redes sociais na campanha eleitoral.

Na segunda-feira (6), ao ser questionado por jornalistas sobre a perseguição ao ministro, o presidente afirmou disparou: “Estamos em uma guerra. Eles [militares], melhores do que vocês, estão preparados para uma guerra”.

No domingo, o presidente e Santos Cruz conversaram. Entre outros temas, Bolsonaro teria reclamado de o ministro ter dado uma declaração contrária à do presidente em relação ao veto a propaganda do Banco do Brasil que explorava a diversidade.

O presidente vetou o comercial e foi enviado um e-mail pelo secretário de Publicidade e Promoção, Glen Lopes Valente, a empresas como Correios e Petrobras determinando que as peças deveriam ser submetidas ao crivo da Secretaria de Governo. Após o envio do e-mail, a secretaria divulgou uma nota informando que não haverá interferência sobre as propagandas das estatais.