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22/05/2020 03:00 -03

Militares pressionam Bolsonaro para tirar Pazuello da linha de frente da Saúde

Generais temem vincular desgaste do combate à pandemia de coronavírus à imagem das Forças Armadas.

SERGIO LIMA via Getty Images
General Villas Bôas (esquerda) é assessor especial da Presidência e costuma aconselhar Bolsonaro. 

A manutenção de um ministro que não é médico no comando do Ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello, tem incomodado militares da ativa e também da cúpula palaciana próxima a Jair Bolsonaro. O episódio não ocorreu nem na ditadura militar. Enquanto o presidente diz que o interino “vai ficar um bom tempo” no cargo, o núcleo duro do mandatário no Palácio do Planalto o pressiona por uma rápida substituição. 

Conforme relatos feitos ao HuffPost entre quarta (20) e quinta-feira (21) por interlocutores palacianos e das Forças Armadas, o temor é que os problemas relativos ao combate à pandemia de covid-19 fiquem “colados” na imagem dos militares. 

As inquietações têm sido levadas a Bolsonaro pelo ex-comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas, hoje assessor especial da Presidência, e pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno. Os dois estão entre as pessoas que o mandatário mais costuma ouvir, sem considerar a ala radical, liderada pelos filhos. 

Pazuello, que assumiu o cargo interinamente após o pedido de demissão de Nelson Teich na última sexta (15), enfrenta o pior momento da pandemia no Brasil. Foi justamente nesta semana que o País atingiu duas vezes a marca de mais de mil mortos em um dia - na terça (19), com 1.179 registros em 24 horas e nesta quinta (21), com 1.188 óbitos. Há ainda o peso da ampliação de uso da cloroquina, cuja eficácia não está comprovada cientificamente

O novo protocolo para a medicação foi uma cobrança do presidente Jair Bolsonaro implementado prontamente pelo general Pazuello. Na segunda (18), ele levou um primeiro esboço a Bolsonaro. Na terça, os dois voltaram a se encontrar e discutiram novamente. Na manhã de quarta, por fim, o desejo de Bolsonaro foi publicado.

A falta de pressa em escolher um nome efetivo para o Ministério da Saúde se sustenta na parceria de longa data entre o presidente e o general. Os dois se conheceram na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) de Resende, no Rio de Janeiro, onde Bolsonaro se formou em 1977. No Exército, Pazuello é reconhecido pela habilidade com tarefas administrativas e logísticas. 

O general é uma indicação pessoal do presidente. Ele foi nomeado secretário-executivo do Ministério da Saúde para ser número 2 do ex-ministro Nelson Teich, sem que o futuro chefe o conhecesse ou pudesse opinar.

EVARISTO SA via Getty Images
Heleno é considerado um dos braços direitos de Bolsonaro. 

Com o general no comando da Saúde, Bolsonaro quer fazer um “limpa” na gestão de Luiz Henrique Mandetta. Exonerou, por exemplo, Denizar Vianna de Araújo, que comandou a Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos com Mandetta e, por ser amigo de Nelson Teich, tinha permanecido na pasta assessorando o ex-ministro. 

Além disso, Bolsonaro pretende seguir colocando militares em postos estratégicos para deixar “pouca margem de manobra” ao futuro ministro, conforme os relatos ouvidos pelo HuffPost. 

Só esta semana, 13 militares foram nomeados no ministério - foram 9 na terça (19) e mais 4 na quarta (20) -, mas, de acordo com pessoas ligadas à pasta, o número de militares já passa de 20 desde a chegada de Pazuello ao ministério.

Nesta quinta (21), uma das cotadas para chefiar o ministério, a médica Nice Yamaguchi esteve com o presidente. Ela tem a principal característica que Jair Bolsonaro busca no novo ministro: é favorável ao uso da cloroquina no tratamento da covid-19. 

Um outro nome com o qual o mandatário trabalha é do médico Ítalo Marsili, também alinhado às suas exigências quanto aos procedimentos a serem seguidos sobre o combate ao coronavírus. Ele, porém, é visto com antipatia pelos militares por ter concordado com críticas feitas por Olavo de Carvalho ao general Eduardo Villas Bôas. No ano passado, o guru ideológico do governo afirmou que o ex-comandante do Exército e atual assessor especial da Presidência era um “doente preso a uma cadeira de rodas”. 

Apesar da pressão dos militares, não há ainda indicação de que Bolsonaro vá ceder e bater o martelo em um nome nos próximos dias. Enquanto isso, Eduardo Pazuello tem sido poupado de entrevistas coletivas. Somente os técnicos da pasta são escalados para apresentar os dados e responder perguntas dos jornalistas. 

Mesmo com as chateações, os militares da ativa lembram que as Forças Armadas seguem empenhadas na Operação Covid-19, que conta com 29.855 homens em ação. O trabalho consiste em transporte de equipamentos de saúde e medicamentos para regiões mais necessitadas, além de distribuição de água e cestas básicas e a construção de hospitais de campanha. 

Cabem ainda ao Ministério da Defesa as campanhas para descontaminar áreas de circulação, como hospitais, metrôs, rodoviárias, aeroportos, estações de trens e escolas. As Forças Armadas também já produziram 1,2 milhão de comprimidos de cloroquina, segundo dados da própria pasta.