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30/09/2020 08:11 -03 | Atualizado 30/09/2020 08:13 -03

Número de candidatos a prefeito que são militares reformados ou PMs mais do que dobra

Grupo subiu de 122, em 2016, para 292. Em menor proporção, partidos de esquerda também investem em nomes ligados à segurança na disputa municipal.

IltonRogerio via Getty Images
“Os policiais são um braço armado do Estado. Se começam, por exemplo, a matar bandido porque vêm que nisso vão aumentar a chance de se eleger, acho que temos um problema sério”, afirma Claudio Couto, da FGV.

No primeiro pleito municipal após a eleição de Jair Bolsonaro, o total de candidatos a prefeito que se declaram militares reformados ou policiais militares subiu de 122, em 2016, para 292. Considerando o total de nomes na disputa, as duas categorias somavam o equivalente a 0,7% dos 16.568 há 4 anos. Agora representam 1,5% dos 19.163 que tentam chegar ao comando dos Executivos municipais.

Quando são considerados os 3 cargos – prefeito, vice-prefeito e vereador – os policiais militares somam 3.562 candidatos neste ano. Os militares reformados são 1.723. Há também 182 registros de “membros das Forças Armadas” e 914 de policiais civis.

Na disputa das prefeituras das capitais, ao menos 18 titulares de chapas eleitorais usam títulos como “coronel”, capitão”, “sargento”, “tenente”, “delegado” e “cabo”. Essa estratégia é adotada por integrantes do Patriota, Republicanos, Solidariedade, PSL, PRTB, PROS, PSC e PMB.  

Ao analisar os dados de todos os municípios, a presença de nomes ligados às forças de segurança é mais comum no espectro da direita ou centro-direita.  O PSL lidera o total de militares reformados candidatos a prefeito (16), seguido pelo PRTB (9), Patriota (9), Podemos (8) e DEM (7). Os números de policiais militares são semelhantes: 30 do PSL, seguidos por 16 do PL, 14 do Patriota, 12 do PSDB e 11 do Avante.

O aumento da presença de militares na política ocorre junto com a ascensão do bolsonarismo. Apesar de o capitão reformado ter atuado quase 30 anos como deputado federal, prevaleceu no eleitorado a imagem ligada ao Exército. Os policiais também são parte importante de seu apoio político.

Ao menos 3 legendas têm uma associação direta com o Planalto. O PSL é a sigla pela qual o Bolsonaro foi eleito. Ele chegou a cogitar disputar o cargo pelo Patriota antes. Já o PRTB é o partido do vice-presidente, general Hamilton Mourão. 

Policial militar

Prefeito: 193 candidatos em 2020 e 69 em 2016

Vereador: 3.178 candidatos em 2020 e3.027 em 2016

Vice-prefeito: 205 candidatos em 2020 e 99 em 2016

 

Militar reformado:

Prefeito: 99 candidatos em 2020 e 53 em 2016

Vereador: 1.511 candidatos em 2020 e 1.258 em 2016

Vice-prefeito: 125 candidatos em 2020 e 51 em 2016

O cientista político Cláudio Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) lembra que a segurança pública é um “tema sensível para população historicamente”, mas afirma que o apelo eleitoral é maior devido à eleição de Bolsonaro para a Presidência.

“Sempre que você se apresenta como policial é percebido pelo eleitorado como alguém que tem sensibilidade para lidar com essa questão da segurança e, consequentemente, é um ativo eleitoral. Nesse momento, a força do bolsonarismo e o discurso duro da segurança pública reforçam ainda mais a capacidade dos policiais militares se apresentarem como candidatos”, afirma Couto.

Para o especialista, é possível que uma vitória nas urnas desse grupo leve a uma “visão militarizada ou policialesca” de diversas áreas das políticas públicas, como a militarização das escolas, por exemplo.

Policias e militares na esquerda

Apesar da predominância de profissionais de segurança em legendas de direita, partidos progressistas também escolheram candidatos desse área. São 8 policiais militares filiados ao PSB, 6 ao PDT, 5 ao PT e 2 ao Psol. Quanto aos militares reformados, o PT decidiu lançar 4 nomes, para as prefeituras de Nova Lima MG), Santa Isabel do Pará (PA), Getúlio Vargas (RS) e Rio Pardo (RS). 

No Rio de Janeiro, ao menos 4 chapas são compostas por integrantes das forças de segurança, sendo duas de esquerda. O PDT lançou a Delegada Martha Rocha, ex-chefe da Polícia Civil e deputada estadual. No Psol, o coronel reformado da Polícia Militar (PM) Íbis Pereira é vice de Renata Souza, ambos filiados ao partido.

Em Salvador, o PT optou por Major Denice, idealizadora e cofundadora da Ronda Maria da Penha, patrulha da Polícia Militar responsável pelo combate à violência doméstica contra mulheres. Em Goiânia, o nome da sigla é a Delegada Adriana Accorsi, atualmente deputada estadual.

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Além do vice-presidente, 11 dos 26 ministros são militares. Segundo o TCU, 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos civis no governo federal. 

De acordo com os especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, esse fenômeno está associado à organização política desses segmentos em torno de interesses corporativos, independente do espectro ideológico. “Todos os partidos querem cortejar as carreiras de Estado e cortejar os policiais é mais uma delas. Ao mesmo tempo, você tem a possibilidade de vender para o eleitor a ideia de que está se preocupando com a segurança”, afirma Cláudio Couto.

Professor de teoria política na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e ex-integrante da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Paulo Ribeiro da Cunha destaca que essa movimentação não ficou restrita à direita. “O que passou a existir de um tempo para cá foi o associativismo que, aos poucos, foi ganhando também conotação política, e muitos candidatos buscando se eleger até mesmo pela esquerda”, afirma. 

Responsável na CNV pela apuração de perseguição política de militares na ditadura, Cunha destaca a resistência dentro de partidos progressistas em dialogar com as forças de segurança. “Se você já chega chamando [o policial] de fascista torturador, o discurso do Bolsonaro cai como uma luva”, afirma.

Há também uma barreira dentro da cultura profissional nas delegacias e quartéis. “Ser um policial de esquerda, um policial cidadão, ainda é um desafio, um exercício de heroísmo no cotidiano de uma corporação que cultua violência. E esses policiais [progressistas] têm o objetivo de construir uma nova política de segurança integrada, democrática, pautada no Estado democrático de direito”, afirma o professor da Unesp. O especialista cita como exemplo o Movimento de Policiais Antifascismo. 

Exército apura uso de símbolos em campanha

O uso eleitoral da imagem das Forças Armas causou um desconforto já no início da campanha de 2020. O Comando do Exército abriu um procedimento administrativo de apuração após circular um santinho em que a tenente-coronel Andréa Firmo, candidata a vice-prefeita do Rio na chapa com Marcelo Crivella (Republicanos), aparece de farda.

Firmo ainda é oficial da ativa e terá de passar para reserva, se for eleita. A candidatura de Crivella, conduto, pode ser derrubada. O Ministério Público Eleitoral recomendou ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio que a candidatura à reeleição do prefeito Marcelo Crivella seja impugnada.

Na avaliação de Paulo Ribeiro da Cunha, da Unesp, a candidata a vice está partidarizando e identificando as Forças Armadas “com uma agremiação que vem na sua trajetória um caudal de corrupção muito presente e com o segmento evangélico”. ”Para o eleitor comum, o que está presente ali é o Exército enquanto instituição, mas, a rigor, é uma personagem. O fato de usar o uniforme implica um risco dessa contaminação maior”, afirma.

Para o especialista, o uso de títulos ligados às Forças Armadas é diferente, porque também é comum que candidatos se identifiquem por meio de outras palavras associadas à profissão, como “professor” ou “doutor”. “O problema é colocar o uniforme e associar à instituição, principalmente no Rio de Janeiro, onde há um número enorme de militares”.

O receio de associar o Exército a efeitos nocivos da política também ocorre no governo Bolsonaro. Além do vice-presidente, 11 dos 26 ministros de Estado são militares:  Walter Souza Braga Netto (Casa Civil), Augusto Heleno (Segurança Institucional), Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Wagner Rosário (CGU), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Eduardo Pazuello (Saúde) e Milton Ribeiro (Educação).

A militarização não se restringe ao primeiro escalão. Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) divulgado em junho identificou 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos civis no governo federal. O número é mais que o dobro dos 2.765 no último ano da gestão de Michel Temer.

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