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14/02/2020 06:51 -03

Ao se cercar de militares no Planalto, Bolsonaro reduz capacidade de diálogo político

General Walter Braga Netto aceitou convite para Casa Civil e completa quadro dos quatro ministérios do Planalto.

FERNANDO SOUZA via Getty Images
General Walter Braga Netto, que assume a Casa Civil, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. 

A reforma ministerial esperada neste início de ano colocou no caminho um fato inusitado, não visto desde 1981: um militar na Casa Civil. O general Golbery do Couto e Silva havia sido o último militar na pasta, indicado no governo Ernesto Geisel, e deixou o cargo quando o Brasil ainda estava sob a ditadura militar. 

Mais que isso: ao transferir o até então chefe desta pasta,Onyx Lorenzoni, para o Ministério da Cidadania, e, em seu lugar, colocar o general Walter Braga Netto, o presidenteJair Bolsonaro cerca-se de um núcleo palaciano todo com formação militar. Ele se junta aos generais Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), e ao major da Polícia Militar Jorge Oliveira. 

A escolha de Bolsonaro por um militar para a Casa Civil, conforme apurou o HuffPost, deveu-se a um entendimento do presidente de que a pasta precisa de alguém com uma capacidade maior de “cobrança”. O mandatário viu em Braga Netto, que comandou a intervenção militar no Rio de Janeiro em 2018 e recebeu avaliação positiva da missão, a pessoa ideal para isso.

Apesar da avaliação de Bolsonaro, porém, o que se ouve é que essa “redoma militar”, na qual os arredores do gabinete presidencial estarão tomados por “companheiros da caserna” que tendem a “compartilhar pensamentos conservadores”, pode diminuir ainda mais a capacidade de diálogo do governo com o Congresso.  

A interlocução política já é um ponto fraco na gestão bolsonarista e acredita-se que, sem um nome com essa característica forte entre os assessores palacianos, isso pode se enfraquecer ainda mais. Além disso, a opção acarreta riscos. 

É um ano eleitoral, com curto prazo para aprovar as reformas tributária e  administrativa, tidas como essenciais para seguir, segundo o governo, alavancando a economia.

Neste ponto, inclusive, já é possível ver como um Planalto tomado por militares pode prejudicar a agenda de reformas. Após a fala do ministro Paulo Guedes na última sexta (7), comparando os servidores públicos a “parasitas”, partiu da ala militar do palácio, a resistência no envio da reforma administrativa. 

Aventou-se apenas sugerir medidas para serem incorporadas a um texto no próprio Legislativo, o que desagradou os parlamentares. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não tardou a fazer chegar o recado de que não aceitaria uma decisão neste sentido.

Como mostrou o HuffPost na quinta (12), há entre a equipe econômica, o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, e os assessores mais próximos de Bolsonaro, liderados pela ala militar, divergências sobre o ritmo que a proposta deve seguir

Há interlocutores políticos fortes em outras áreas do governo, como Rogério Marinho, que foi fundamental para a aprovação da reforma da Previdência. No entanto, até a decisão recente de transferi-lo para o Ministério do Desenvolvimento Regional será ruim para a articulação, uma vez que tira seu papel de conversar com o Congresso sobre as reformas. 

Onyx não tinha bom trânsito no Congresso e também de lá, além de dentro do governo, vinha a pressão por sua saída da Casa Civil. Porém, ninguém esperava um nome “não político” no lugar. Ficou a sensação de “vazio”, como afirmou um parlamentar ao HuffPost, na relação Legislativo-Executivo. 

Nova função

No Ministério da Cidadania, Onyx vai gerenciar programas importantes para o governo, como o Bolsa Família, o qual tem a missão de repaginar, e o Criança Feliz. 

O presidente andava insatisfeito com ele e aproveitou o episódio do uso do avião da Força Aérea Brasileira por Vinicius Santini, que foi secretário-executivo na Casa Civil, para dar início a um processo de fritura do ministro. Demitiu o funcionário, desidratou de vez a pasta, expôs o ministro, testou sua lealdade. Decidiu mantê-lo no governo apenas pelos anos de amizade e por gratidão pelo apoio durante a trajetória até alcançar a Presidência da República.

Bolsonaro também estava insatisfeito com Osmar Terra, até então chefe do Cidadania. Primeiro, o ministro deixou crescerem as filas no programa de distribuição de renda. Depois, não conseguiu, como era uma demanda do mandatário, criar nenhuma proposta de um plano social com a cara do governo. 

Terra, agora, volta para a Câmara dos Deputados, após ter recusado uma vaga em embaixada. 

No primeiro escalão do governo, sem contar o vice-presidente, general Hamilton Mourão, há um total de nove ministros militares. Além dos já citados, integram o gabinete de Bolsonaro o tenente-coronel da reserva da Força Aérea Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), o almirante da reserva da Marinha Bento Albuquerque (Minas e Energia), o general da reserva do Exército Fernando Azevedo (Defesa), e os capitães da reserva do Exército Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União).