ENTRETENIMENTO
14/09/2020 13:29 -03 | Atualizado 29/09/2020 05:06 -03

Mignonnes e o 'cancelamento' da Netflix: Há motivo para tanta queixa?

Conversamos com especialistas para discutir sobre o filme da Netflix alvo das campanhas #cancelnetflix e #pedoflix.

Netflix
"Mignonnes" foi lançado na Netflix no dia 4 de setembro.

Filmes foram “cancelados” por apresentar conteúdo ofensivo muito antes do início da cultura de cancelamento. Em 1973, Stanley Kubrick declarou que seu filme, Laranja Mecânica, nunca deveria ser exibido novamente após o furor que causou.

O público criticou filmes que considerou ofensivos por décadas, mas normalmente os cineastas e distribuidores reagiram, alegando que seu trabalho é importante no sentido artístico.

O debate sobre o que constitui “boa” arte voltou a ser destaque depois que a Netflix adquiriu os direitos de Mignonnes (Cuties), um longa-metragem francês da cineasta Maïmouna Doucouré.

O filme, sobre uma jovem dividida entre a vida de sua família muçulmana senegalesa e os modos ocidentalizados de seus colegas de escola franceses, ganhou o prêmio do júri de direção no Festival de Sundance deste ano e recebeu uma série de críticas positivas, com pontuação de 88% nas críticas online do agregador Rotten Tomatoes.

Mas as cenas de dança sugestiva irritaram alguns espectadores, que condenaram o filme como pornografia infantil. Aqueles do outro lado do debate veem o filme como uma crítica matizada da cultura da objetificação infantil - e um ponto crucial para iniciar uma conversa.

A crítica ganhou velocidade depois que a Netflix comercializou Mignonnes/Cuties (que no Brasil chegou a ser anunciado pela plataforma como Lindinhas) com uma imagem do jovem elenco posando de forma provocativa, em vez de usar o pôster original, que as mostravam fazendo compras. Desde então, a Netflix removeu o pôster de circulação e se desculpou por divulgar o filme de uma forma considerada de mau gosto.

“Lamentamos profundamente a arte inadequada que usamos para Mignonnes/ Cuties”, disse a Netflix em um tuíte que incluía o título original em francês do filme. “Não estava certo nem representava esse filme francês que ganhou um prêmio no Sundance. Atualizamos as fotos e a descrição do filme.”

O serviço de streaming defendeu a inclusão do filme na plataforma, dizendo que se trata de “um comentário social contra a sexualização das crianças”, em vez de ter a intenção de objetificar as meninas.

Mesmo assim, críticos furiosos continuaram a fazer suas vozes serem ouvidas. Uma petição da Change.org para que o filme fosse removido da Netflix reuniu quase 360.000 assinaturas.

“Este filme é nojento, pois sexualiza uma criança de ONZE anos para o prazer visual dos pedófilos e também influencia negativamente nossos filhos! Não há necessidade desse tipo de conteúdo nessa faixa etária, especialmente quando o tráfico sexual e a pedofilia são tão comuns! Não há desculpa, este é um conteúdo perigoso! ”, diz a descrição da petição.

No Brasil, a hashtag #pedoflix esteve quase todo o último domingo (13) entre os assuntos mais comentados do Twitter, seguindo o exemplo do que aconteceu nos EUA quando a tal campanha da Netflix foi lançada.

No entanto, remover o filme da plataforma seria uma jogada injusta, disse o British Board of Film Classification, que explicou ao HuffPost UK por que eles não acreditam que o filme tenha qualquer potencial para causar um impacto prejudicial aos espectadores.

Andreas Rentz via Getty Images
A diretora de "Mignonnes", Maimouna Doucoure, na estreia do filme no 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2020.

“O filme aborda os efeitos da sexualização na cultura popular, inclusive nos jovens, mas isso é tratado com sensibilidade dentro do contexto de um drama de amadurecimento”, disse o porta-voz.

Ele acrescenta: “Nossa extensa pesquisa sobre a opinião pública e nossas diretrizes de classificação nos orientam enquanto buscamos garantir que as decisões de classificação reflitam as opiniões das pessoas no Reino Unido.”

Outras vozes da indústria falando ao HuffPost UK concordam que o filme não representa uma ameaça para o público de qualquer idade.

“Parece-me que a Netflix posicionou inadequadamente o filme, perdendo o foco do assunto”, disse Julie Des, fundadora da organização She Does Filmz para celebrar as vozes femininas no cinema. “Não é necessariamente um reflexo do filme - e pelas críticas que vi que não é, é mais um reflexo da Netflix não lidar com o conteúdo do filme de forma adequada.”

O fato de este filme ter sido dirigido por uma mulher muda tudo.

“Mignonnes é a criação de uma cineasta”, diz Julie, “e portanto é improvável que reforce os estereótipos negativos sobre as mulheres no cinema que são tradicionalmente encontrados em filmes feitos a partir da perspectiva do olhar masculino.”

“O fato de este filme ter sido dirigido por uma mulher muda tudo em termos de perspectiva e intenção”, acrescenta Julie, que observa como “nos incomodamos em discutir a sexualidade das meninas, porque o ponto de vista historicamente foi distorcido, com conotações e riscos associados com isso”. 

“Contrariando essa tendência, Mignonnes oferece um olhar autêntico sobre a realidade da vida para meninas que crescem com a ameaça de exploração sexual”, diz a Dra. Helen Jacey, roteirista e CEO da Shedunnit Productions. “A Netflix removeu o pôster original após um clamor público, mas isso não reflete nas intenções da cineasta para seu trabalho.”

“A reação ao marketing deste filme, antes mesmo de muitos dos reclamantes terem visto o próprio filme, mostra que seu assunto é pertinente”, ela acrescenta sobre a divisão de opinião em torno da produção.

Helen chega a dizer que “a exploração pertence ao espectador explorador” e que os executivos de marketing correm o risco de perder a mensagem real do filme usando o pôster sexualizado. Ela acredita que os executivos “reconhecem que as imagens genéricas de mulheres comprovadamente vendem e as colocam à frente das imagens mais representativas do filme como um todo.”

Respondendo à reação contra o filme em uma entrevista no site Refinary29, a mensagem da cineasta franco-senegalesa Maïmouna Doucouré gira em torno da toxicidade da cultura do cancelamento, de pessoas condenando as coisas antes de entendê-las totalmente. “Em última análise, as pessoas não tinham as informações certas antes de formarem suas opiniões.”

Explicando mais sobre sua inspiração para o filme, ela disse: “Em determinado momento, essas meninas subiram ao palco e dançaram muito bem. Mas também foi muito perturbador de assistir porque eles dançaram como adultos, como vemos nos videoclipes. Então comecei a me perguntar se eles estavam cientes ou não da mensagem que estavam enviando com esta dança sexualizada.”

Apesar da defesa de Maïmouna, a hashtag #CancelNetflix está repleta de capturas de tela de assinaturas canceladas da Netflix. Mas não está claro quantas dessas pessoas realmente viram o filme, embora o motivo de o ter cancelado pareça ter se perdido um pouco em um mar de trolls. “Eu pessoalmente não posso esperar para assistir Cuties #CancelNetflix”, um usuário tuitou provocativamente.

O debate em torno da indignação parece frequentemente ser tipificado por opiniões opostas sendo gritadas em voz alta, em vez de ter a intenção de educar o público ou mudar de opinião.

“Mais do que tudo, é importante ver além do tom surdo da campanha de marketing e da comoção online para entender o verdadeiro poder das cineastas contando suas próprias histórias”, diz Julie Rassat.

“Uma diretora mulher é uma mudança de voz, uma mudança de narrativa e uma mudança de olhar em si mesma”, ela conclui.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.